Jornalego

 

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JORNALEGO

Nº 9, em 20 de Julho de 2002.

Carta aberta com destinatário fechado

CARTA AO PROFESSOR N.

Prezado Professor,

Aparentemente isto é uma carta. Na realidade trata-se de um pretexto para uma rápida reflexão sobre a minha atual posição diante da vida, ao superar a marca dos 63 anos de idade.

Agradeço suas considerações elogiosas sobre a         possibilidade de vir a prestar uma contribuição - segundo você ainda importante - à nossa comunidade, por exemplo, na transmissão de conhecimentos adquiridos ao longo da minha vida profissional. Palavras empolgadas emitidas no seu característico vozeirão, no calor de uma festa, que me soaram gentis e sinceras.

Você me exortava, chamando-me aos brios, a sair de uma posição passiva em que voluntariamente me encontro para voltar à ativa.

Lembre-se que depois de servir como profissional ao então Ministério do Planejamento, à Petrobrás e ao Ministério de Minas e Energia, vim entusiasmadíssimo, após conseguir a aposentadoria, para o Espírito Santo, trabalhar na Agência de Desenvolvimento do Estado. Seria o canto de cisne de uma vida profissional, a possibilidade da realização de projetos palpáveis, que você muito bem conhece e em minha terra natal. Nada mais emocionante!

Durante três anos nessa última condição e mais um ano de tentativas de me posicionar como consultor independente, desisti, quem sabe um tanto apressadamente, recolhendo-me a atividades domésticas.

Todas as minhas atividades de economista, as desenvolvi na área de planejamento. Como é frustrante esta atividade! Primeiramente porque, nas grandes estruturas, você é uma peça ínfima do processo. Mesmo tendo chegado a alguns postos supostamente importantes você não é nada mais do que aquela pecinha na engrenagem complexa.

Considerando toda a minha vida profissional, destaco para efeito desta carta três frentes de trabalho nas quais me envolvi:

- Participação nas negociações iniciais da Petrobrás no Iraque, para exploração de petróleo naquele país, onde foi descoberto um dos maiores campos de petróleo do mundo na atualidade (Majnoon), depois, providencialmente devolvido aos iraquianos, em vista da iminência da guerra Irã-Iraque que durou quase 10 anos; devolução que teve como contra-partida, substanciais volumes de óleo cru a preços favorecidos;

- Coordenação dos trabalhos iniciais da integração energética no Mercosul, hoje paralisados, seja pelas crises que grassam nos países envolvidos seja pela proposta americana para criação da Alca;

- Coordenação dos Acordos do Gasoduto Cabiúnas-Vitória (que incluía a Termelétrica da Grande Vitória) e da Termelétrica do Norte Capixaba, hoje paralisados; participação na criação da Agência Reguladora Estadual (aprovada e ainda sem funcionamento) e nas negociações abortadas para a criação da Companhia Estadual do Gás. Recentemente a Assembléia Legislativa está querendo cassar a concessão dada à BR-Distribuidora para distribuição do gás canalizado no ES o que, no meu entender, vai ser uma lástima com o surgimento de uma grande pendenga jurídica e da imediata diminuição dos investimentos da Petrobrás no Estado.

Ao espremer isso tudo, sob o prisma de resultados obtidos, ressalta como positiva unicamente a viabilização de nossa ida para o Iraque. Contudo, comigo ou "sem-migo" isso iria acontecer de qualquer modo, como veremos a seguir.

Houve uma época, diante deste quadro, que aprendi a fazer moqueca capixaba e extasiava os meus colegas de trabalho e amigos convidando-os para saborearem nosso prato típico, no Rio ou em Brasília. Aí eu me sentia mais realizado. O Projeto tinha resultados palpáveis. Comprava o peixe, tratava-o, temperava-o, cozinhava-o e comíamos. O "fazejamento" é muito mais gratificante que o planejamento.

Voltando ao Iraque, conto para você uma interessante conversa que tive naquela época quando embarcamos para Bagdá (1972, antes, portanto, do primeiro choque do petróleo), com um experiente colega da Petrobrás. Lembre-se que eu era um debutante, à época, nas lides petroleiras.

Dizia-me o colega: "Você pode fazer belíssimos estudos de viabilidade econômica sobre o projeto. Uma coisa é certa, quaisquer que forem os resultados, a nossa ida para lá, para explorar petróleo, já está decidida. Valores políticos mais altos se alevantam para viabilizar o projeto".

Observe que estávamos em plena ditadura militar no Brasil e o Sadam Husseim ainda não era o todo poderoso senhor daquele país. O Brasil autoritário, com total apoio americano, estava entrando na exploração de petróleo, através da recém criada Braspetro, quase que exclusivamente em países comunistas ou hostis aos Estados Unidos: Iraque, Iêmen do Sul, Angola, Líbia e até em Cuba se cogitava ir. Na minha leitura nós servíamos de "ponta-de-lança" dos interesses americanos nessas regiões.

A gente se sente parte de uma pantomima, cuja trama já está escrita de antemão. Forças muito maiores do que as que você pode manejar estão em jogo e você vai sendo ingenuamente manipulado. Interesses políticos, empresariais, de toda ordem são os que prevalecem.

Aqui no Espírito Santo, mais maduro, tinha completa consciência disso. Mas achava que atendendo os interesses da CVRD, Petrobrás, Escelsa você poderia realizar empreendimentos que servissem melhor à comunidade. Por exemplo, aumentar a disponibilidade de energia elétrica, de gás natural, embora os maiores privilegiados fossem esses atores. Porque, sem eles os projetos não seriam viabilizados.

O novo (atual) governo estadual, os interesses empresariais daquelas companhias e a conjuntura política frustraram os meus anseios. Até agora nada saiu do papel. Tenho esperanças que saiam, mas pelo jeito ainda vai demorar um pouco. O novo governo apostou mais nas descobertas das mega jazidas de petróleo, como a propaganda oficial propala, do que na agenda que já estava estabelecida.

Quando eu senti que podia sair desse labirinto apressei-me. Com a minha aposentadoria, que me proporciona uma renda suficiente para manter o padrão de vida modesto que sempre levei, pedi demissão.

Isso não é fuga, covardia, egoísmo ou coisa que o valha. Mesmo porque continuar subjugado às engrenagens do sistema não tem nada de altruísmo.

Aqui no ES, a minha missão já tinha sido cumprida no governo anterior. Não adiantava ter um papel cínico, continuando a ganhar um complemento salarial importante e me transformando, no alto dos meus sessenta anos, num elaborador de brilhantes relatórios e palestras.

Agora preencho e muito bem a minha vida lendo e escrevendo. Principalmente literatura e preferencialmente as obras mais conceituadas e clássicas. Mais lendo que escrevendo. Quanto mais leio mais a minha autocrítica aumenta. O prazer da leitura aliado a uma certa preguiça levam-me a postergar um pouquinho os projetos de escrever. Que, diga-se de passagem, são muitos.

Não queria repetir os artigos ligeiros e técnicos que costumava escrever anteriormente em A Gazeta. Quero vislumbrar outros horizontes. Cada conto que escrevo (hoje eu cometo este tipo de literatura) me dá uma satisfação inusitada. Tenho também projeto de um romance. Mas não sei se terei fôlego, engenho e arte.

A gente vai envelhecendo e apurando o sentido da vida. Em princípio, acho que o sentido da vida é viver. E eu sei viver sem o apoio terapêutico de uma ocupação profissional. Depois, cheguei a conclusão que do balanço da minha vida o que eu realmente produzi de bom são dois filhos. Com uma "pequena contribuição" da minha mulher, é lógico!

A propósito, Richard Dawkings, um naturalista inglês, diz, em seu "O Gene Egoísta" que o grande objetivo dos genes é a sua continuação, é a procriação. O resto é o que a gente faz para passar o tempo. É moldura, é perfumaria.

Estendendo um pouco mais a questão eu gostaria mesmo é de estar mais presente na criação dos meus netos, já que a criação dos meus filhos foi delegada praticamente à mãe, enquanto eu me chafurdava em papéis, cálculos, planos, reuniões e muito palavrório, na maioria das vezes, como demonstrado, infrutíferos.

Invocando Carlos Drummond de Andrade, em Escravo em Papelópolis, transcrevo:

"Ó burocratas!

Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...

É ainda o sentimento

Da vida que perdi sendo um dos vossos."

Você pode muito bem substituir burocratas por tecnocratas. Aliás, durante muito tempo, pendurado na parede ao lado de minha mesa de trabalho na Petrobrás, tinha uma charge onde aparecia um senhor portando uma pasta 007, terno, gravata, ar superior de executivo bem sucedido... com um nariz vermelho de palhaço. Genial!

Para terminar, uma mensagem poética para entender melhor o que estou querendo transmitir. Vou brindá-lo com uma transcrição de um texto do livro A Caixa Preta de Amós Oz, escritor israelense:

"... não são o egoísmo, nem a baixeza ou a crueldade da nossa natureza que nos transformam numa espécie que destrói a si própria. Nós aniquilamos a nós próprios (e breve exterminaremos todos os da nossa espécie) justamente devido aos nossos anseios superiores,... Por causa da necessidade ardente de ser redimido. Devido à obsessão pela redenção... apenas uma máscara que esconde a ausência absoluta de talento básico para a vida. É o talento que todo gato possui. Quanto a nós, como as baleias que se atiram contra a praia num impulso coletivo, sofremos de uma avançada degeneração do talento para a vida".

Quero viver o resto do que me resta da vida. Não procure nada de mórbido aí, porque não tem. Embora desiludido com muita coisa, no Brasil e no Mundo, sinto uma vontade grande de continuar simplesmente vivendo.

Professor, a sua figura simpática, o carinho com que você se dirigiu a mim na festa na qual nos encontramos, me fez escrever estas "mal traçadas linhas" para, ao filosofar sobre a vida, dar uma satisfação ao amigo que muito admiro.

Um grande abraço do Genserico.

P.S. - Você me "golpeou" quando disse que eu ficaria como aqueles coroas que assiste religiosamente os noticiários da TV Globo. De fato, o show de notícias desses jornais televisivos (um festival estético) tem um grande fascínio para os homens domésticos, como as novelas para as mulheres de mesma natureza. Queira me desculpar também pelas modificações que fiz na carta original para torná-la mais apetecível aos leitores do JORNALEGO.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

eeegense@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

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