Jornalego

 

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JORNALEGO

ANO III - Nº 92, em 20 de Janeiro de 2005.

Opinião

TSUNAMIS

            O Presidente Lula, numa solenidade no Palácio do Planalto, discursou sobre a grande onda que assolou o continente asiático. Falou sobre o desleixo e o descuido do homem pelo meio ambiente, o que provoca reações iradas da natureza. Os argumentos estavam certos, a oportunidade errada. Nada do que abordou tinha a ver com a catástrofe provocada por um maremoto!

            Deu margem àquela oposição frasista, irônica e galhofeira a armar seu palanque. Como os arautos do PFL e PSDB que, a rigor, não têm a que se opor, uma vez que Lula está continuando a política econômica do falecido FHC, com muito mais competência. O que é mau! A verdadeira oposição à política do governo atual está sendo feita por intelectuais de esquerda em artigos de fundo e em revistas especializadas em política, economia e sociologia. O resto é blá-blá-blá perfunctório ou aviatório.

            Mas Lula não é o assunto de hoje. O foco se projeta sobre as forças que regem a natureza e, principalmente, aquelas que nos assolam, de vez em quando, surpreendendo-nos. Embora possam ser previstas, são inevitáveis. Quando muito podemos minimizar seus efeitos negativos. Viver é conviver com isso.

            Trata-se de acontecimentos que representam a constante mutação em que vivemos. Eles se aplicam também aos fenômenos de outra origem. Além das tsunamis físicas temos, de vez em quando, a ocorrência de epidemias, pestes e pragas.

            Não vou me ocupar dessas desgraças nem tampouco das guerras. A gripe espanhola e a aids, as guerras e as revoluções mataram milhões de pessoas. Quero focalizar as tsunamis de natureza socioeconômico-política. Essas ondas são muito mais complexas e têm resultados por vezes muito mais arrasadores. Não que sejam a minha praia, mas é num remanso dela que eu me banho.

            Por exemplo, a sucessão dos movimentos registrados pela história da humanidade. A aristocracia, o feudalismo, o mercantilismo, a escravidão, a reforma, o colonialismo e ainda, o fracassado fascismo, o inviabilizado comunismo e a rotatividade dos impérios. São tsunamis enormes que vêm atemorizando a humanidade. Irremediáveis, inevitáveis, algumas catastróficas.

            Comentá-las e analisá-las são tarefas que deixo para os historiadores, por falta de espaço e competência. Inicialmente vou me situar no plano interno brasileiro. Aí, quero me fixar em dois movimentos.

O primeiro começa com o trabalhismo de Vargas. Foi a grande onda que assomou ao poder com a revolução de 1930, na marola das demandas de uma burguesia industrialista contra a aristocracia rural. Foi o grande movimento político até meados da década de 60. Foi contra o trabalhismo e a ascensão das classes trabalhadoras que foi dado o golpe militar de 1964 que perdurou no poder por pouco mais de 20 anos. Enquanto durou, a onda trabalhista foi uma grande tsunami. Tanto foi que depois de sofrer o duro golpe da ditadura, ainda no bojo do regime autoritário renasceu de forma diferente com a criação do Partido dos Trabalhadores. Este, como se sabe, apesar de três eleições perdidas, está no poder há dois anos, podendo ainda se estender por mais seis (se não houver algum acidente de percurso, interno ou externo, ou se a Rede Globo de Televisão não prejudicar). A ascensão do PT ao poder foi quase previsível. Facilitada com a péssima atuação do seu antecessor no governo federal.

            Apesar das minhas predileções e convicções estou tentando fazer uma análise substantiva (embora superficial) dos movimentos políticos nacionais, sem entrar no mérito deles. Não estou a dizer se são bons ou maus. Prossigamos.

            Da mesma forma que, a partir da década de 80, o PT foi o maior acontecimento político de nossa história recente, com Lula seu líder incontestado, antevejo o mesmo fenômeno se repetir com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra; o conhecido, discutível e odiado MST. Essa tsunami é mais complexa por causa dos métodos empregados. O PT atua na arena política e democrática. Aqui, o cenário é outro, político sim, mas com um ativismo não circunscrito ao jogo político. Para ser mais claro, apelando para ocupações ilegais de terras. Enquanto as greves apoiadas pelo PT estavam previstas em nossas leis.

            Espero que esse movimento em prol da reforma agrária tenha uma evolução pacífica. Isso se os nossos governantes e o povo em geral compreenderem suas origens e sua necessidade. Tanto a violência urbana quanto a rural são, em grande parte, frutos da insensibilidade da sociedade.

Sobre a importância da reforma agrária ninguém mais discute. É bom que se diga que ela é mais um movimento social do que econômico. Ela não é a solução da lavoura brasileira, num quadro de uma agricultura mundial totalmente industrializada, mecanizada e de alta tecnologia. Seu grande objetivo é fixar o homem no meio rural, dando-lhe condições de subsistência e dignidade. Como se sabe, a reforma agrária não se limita à distribuição de terras.

            Lamentavelmente, só depois da matança de sem-terras em Eldorado de Carajás, no Pará, que o governo FHC instituiu o Ministério da Reforma Agrária. O conflito rural é visto com medo por todos nós. Os movimentos voluntaristas do MST assustam e são tidos como baderna, embora a maioria deles seja justificável e extremamente organizada. Já testemunhei uma marcha deles sobre Brasília e fiquei impressionado com a organização de um acampamento em pleno Parque da Cidade. Interessante é que o movimento rural vem sendo engrossado por migrações urbanas de desempregados, que às vezes são confundidas como levas de oportunistas. O medo e a visão superficial não permitem enxergar as causas mais profundas desses movimentos.

            As estatísticas de fatalidades do conflito rural brasileiro mostram que o número de mortes é maior do lado dos sem-terra do que do dos donos da terra (computando aqui, os capangas dos proprietários, cavalheiros de triste figura). O montante pago pelas desapropriações tem sido mais elevado do que deveria ser. Está havendo uma suspeita de sobrepreço na aquisição de terra para essa finalidade. Os proprietários nunca morrem nem saem perdendo!

Grande parte das terras reclamadas não foi comprada por seus atuais proprietários. Foram requeridas ou adquiridas por meio de expedientes diversos. Sem falar no discutível estatuto da herança de propriedade com diminuta ou nenhuma tributação. No caso da Amazônia e possivelmente mais ao norte do cerrado, invadem-se as terras indígenas ou de propriedade pública e depois se discute na justiça por algumas décadas, durante as quais se compromete o meio-ambiente, se empobrece a terra e se engrossam grandes fortunas de quem nunca apareceu por lá. 

A tsunami do MST tem um lado hilário. Se a reforma agrária necessária for feita algum dia, como foi no Japão ou na Coréia do Sul depois das respectivas guerras, o que permitiu lhes permitiu desenvolver-se como países modernos, movimentos como o do MST tendem a desaparecer. Continuarão, a persistir a injustiça no campo.

            No plano internacional fico mais inseguro em analisar as grandes tsunamis por força do andamento para mim contraditório das forças políticas nesta virada de século.

            Oscar Niemeyer, que com José Saramago forma a única dupla comunista que restou, diz: “o capitalismo não pode ser melhorado”. Com o que concordo. Mas o que está havendo, se ele anda tão vitorioso e arrogante sem sinal de ser substituído por uma nova ordem mais justa?

Por onde anda o determinismo histórico do Sr. Karl Marx? Será que já está entregue às traças nas estantes das velhas bibliotecas e não corresponde mais a realidade mundial? Por onde dormita o sonho de um socialismo democrático, seja lá o que isso for, nem que seja tão-somente a danação deste capitalismo desumano?

            Quem melhor leu Marx e o compreendeu não foram os comunistas da União Soviética, que confiaram naquele tal de determinismo histórico. Foram os reacionários da direita que, como o nome está a dizer, antevendo o perigo, reagiram e venceram a onda comunista do regime autoritário da Rússia e de seus aliados. Com o apoio da tecnologia, das comunicações, das finanças internacionais, do marketing, da volúpia consumista das pessoas e de Sua Santidade, o Papa. Estranho é que o regime também comunista e autoritário da China persiste, é glorificado e temido pelas grandes potências mundiais. Talvez porque lhes tenha acenado com a potencialidade de seu mercado consumidor, embora a China esteja dando de goleada no mercado deles, tomando partido, principalmente, de sua mão-de-obra barata.

            A tsunami da queda ou da reforma estrutural do capitalismo triunfante vem sendo retardada e virá inevitavelmente. Mais tarde do que se pensa! Seja pela impossibilidade de continuação do império americano, montado em cima de vultosos déficits e dívidas, financiado pela emissão de notas verdes, seja porque de ascensões e quedas de impérios a história está cheia.

            Um famoso economista americano acaba de apresentar à ONU um trabalho onde antevê a possibilidade, única na história da humanidade, de acabar com a pobreza no mundo. Não acredito nessa possibilidade dentro do atual regime capitalista e principalmente sob o tacão de um Bush. Tampouco acredito na recuperação desinteressada dos países que foram vítimas das tsunamis.

            Não adianta esbravejar, se contrapor. Quando muito, pode-se retardar a ocorrência dessas tsunamis socioeconômico-políticas. Como dizia Galileu na Galiléia (!!!): “Eppur, si muove.” Nenhuma Santa Inquisição as fará deter.

            É aterrorizante saber que surfamos em placas tectônicas em freqüentes movimentos por sobre a superfície terrestre, a bordo de num bólido esférico que rodopia diariamente e se translada continuamente em cortejo solar pelo espaço cósmico, o que provoca alguns desses efeitos estarrecedores. Os acontecimentos sócio-econômico-políticos seguem a mesma ordem. Ordem?!

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

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