Jornalego

 

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JORNALEGO

ANO III - Nº 91, em 10 de Janeiro de 2005.

Conto

O DRAMA DO DNA

            Num papo descontraído de mesa de bar, não sei bem como, os testes de DNA surgiram na conversa. Meu interlocutor, um médico amigo, me garantiu da exatidão dos mesmos. Somente em uma pequena margem de 0,01 % pode ocorrer algum erro. Conclusão, os testes são extremamente seguros.

            Estendendo-se sobre o assunto, relatou um caso que lhe ocorreu há uns dois anos, quando fazia residência hospitalar num dos subúrbios do Rio de Janeiro. Vou repassar para vocês em forma de conto, inventando os nomes dos personagens.

            Otelo, jovem trabalhador da construção civil, se entusiasmou com Desdêmona, uma sensacional lourinha carioca, filha de pai português e mãe oriundi, num pagode de fundo de quintal, em Quintino, onde moravam. Ela, mulher sensacional, mexia com os sentimentos mais abstratos e outros sentidos mais concretos da moçada do lugar. Os comentários sobre o esplendor da garota de pele leitosa e olhos claros corriam de boca em boca entre os freqüentadores do lugar. Otelo, atraído pela beleza, sentiu-se intimidado em tentar uma abordagem, dado a alta cotação da menina no mercado.

            Como os extremos se atraem, Desdê descobriu os olhos esverdeados em pele parda do baiano forte e bonito e se encheu de dengos pro seu lado. Pra Otelo, era muita manteiga pro seu pão, muita areia pro seu caminhãozinho. Mas, batucando e cantando, cantando e olhando os rebolados dos quadris daquela, com licença da palavra, sílfide, sucumbiu aos seus encantos. O jogo de sedução correu solto no terreiro, o que deu início a um promissor namoro.

            Por onde passavam, abraçados, a caminho do cinema ou na espera do ônibus que os levariam à praia dominical, todos admiravam o belo casal. Na verdade, os olhares masculinos, se dirigiam mais para ela e algumas de suas partes mais salientes. Otelo ficava cabreiro.

            Otelo foi morar com Desdê na casa da sogra viúva. Não houve casório, festa ou lua de mel. No dia seguinte ao que juntaram suas escovas de dentes, Otelo já estava na labuta, pendurado em um andaime, na construção de um prédio na Barra da Tijuca.

Eram oito horas de trabalho árduo, começando às sete horas da manhã, intervalo de uma hora pro almoço, terminando às quatro da tarde. De segunda a sábado. Duas horas para ir e outras tantas para voltar, sobrava-lhe pouco tempo, após descontar as oito de sono, para curtir seu amor com Desdê.

            Vivia agoniado no trabalho, pensando na sua preciosa consorte, em casa, naquele bairro cheio de desempregados a espreitarem qualquer oportunidade para ocupar a sua ociosidade.

            Com o calor do lugar, Desdê vestia uns shorts bem curtinhos e blusinha de malha qual bustiê que, menos do que cobrir suas intimidades, mais as exaltava. Desdê era o bem e o mal, o prazer e o desprazer, o paraíso e o inferno de Otelo.

            Eis que nossa heroína passa a ficar enjoada, a desejar beber água de moringa, o que coincidiu com a ausência da menstruação naquele mês. Bingo! Estava grávida!

            Desde então Otelo começou a duvidar da sua efetiva participação naquele processo. Começou a ficar irritadiço com tudo, a chegar tarde em casa, devidamente mamado, e tudo acabou quando, com o crescimento da barriga, ele abandonou a casa e ficou morando no próprio local do trabalho. Para evitar os olhares oblíquos e machadianos dos vizinhos.

            Os telefonemas para o mestre de obras na tentativa de estabelecer contato com Otelo foram infrutíferos. Ele não atendia. Mandava dizer que ligaria mais tarde e nunca que o fazia.

            Desdê sofria da ausência de seu amor e do pai de seu futuro filho. A barriga crescia. Seu rosto definhava e chorava da desgraça que lhe abatera. De mulher casada passara a condição de mãe solteira. Impossível conceber isso. Não se tratava de outra mulher, de outro homem, incompatibilidade de gênios, problemas financeiros etc. Nada disso. Ciúme, simplesmente o veneno do ciúme, era a causa da separação.

            Meu amigo médico fez o parto da Desdê e um menino saudável, berrando a plenos pulmões, viu a luz daquela imensa luminária da sala de parto.

            Agora começou o calvário de tentar contato com Otelo. Ele soube do nascimento do filho através do mestre de obras, de apelido Picasso, por força de certo pendor, seguramente não artístico. Depois de um mês, enfim, apareceu para conhecer o bebê.

            Era um lindo garoto, de pele rósea, cabelos alourados e olhos claros. De relance viu que a sua cor contrastava com a do garotão. Não chegou a pegá-lo no colo. Tinha puxado a mãe e quem sabe...

            Apesar do ódio provocado pelo ciúme que lhe fazia o cerco, seu amor por Desdê ainda era grande. O ciúme é companheiro inseparável do amor. Quando olhou para ela, no fundo dos seus olhos chorosos, e recebeu o beijo quente de boas vindas, seu coração disparou numa taquicardia denunciadora.

            Tentou ceder um pouco. S  e Desdê lhe provasse, por um exame de DNA que o filho era mesmo dele, voltaria (e como desejava!) para casa. Meu amigo médico foi acionado e na tentativa de ajudar o casal providenciou um DNA duplo.

            – Sabe qual foi o resultado? perguntou-me o amigo. – Negativo, respondeu-me incontinenti. O pai do garoto não era o Otelo.

            – Bandida! Foi minha reação! – É sempre assim, não se pode confiar em mulheres. A malandra ainda esperava um erro ou uma pequena cooperação do teste de DNA para compactuar com sua infidelidade. Coitada, ignorante, enfim, devia era levar uns corretivos.

            – Calma, meu irritado contista. Evite o afloramento de seus sentimentos machistas, relaxe, porque ainda não acabei o causo. Aqui vai a revelação maior: ela também não era a mãe do garoto.

            – Pô! Como? Então, caro esculápio, o teste de DNA foi pro brejo. Nada é totalmente seguro. Errou ele e errou você. Se efetivamente a moça não teve uma mãozinha, ou de qualquer outra parte do corpo, como você jura, de um outro colaborador, como explicar isso?

            – Você, de certa forma tocado por sua condição de macho, não teve calma suficiente para raciocinar. Deixou o sentimento de ódio, intolerância, ciúme indireto e uma certa dose de preconceito obnubilar seu raciocínio. Obnubilar é ótimo! A consciência de seus atos e a intuição feminina de Desdê deu-me a chave. Fomos atrás dos fatos passados. Consultamos os registros do hospital e do berçário. Novos testes duplos de DNA, agora em um casal de um bebê nascido no mesmo dia, por volta da mesma hora, na mesma maternidade.

            Continuou meu amigo médico: – Elementar, meu caro Watson. É isso mesmo que você sacou. Otelo voltou pra casa, feliz nos braços honestos de sua Desdêmona, e agora contam com um irmãozinho pro seu bebê. Ambos os pequenos ainda vivem com os pais trocados, freqüentam a mesma escolinha e convivem em plena paz.

Interessante, neste caso, foi que a tolerância paterna não prevaleceu quando assomaram os caprichos machistas. Aparentemente este último sentimento é mais intenso do que aquele. O que você acha?

            Esse relato está eivado de imaginação, embora longe de se constituir pura ficção. Nem o famoso bardo, sugerido aqui pelos nomes dos meus/seus personagens, conseguiria, com a sua arte, imaginar tal desfecho. Mesmo porque, naquela época, não existia o enxerido teste de DNA.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

mailto:jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

 

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