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JORNALEGO

ANO III - Nº 87, em 10 de Novembro de 2004.

Opinião

A VOLTA E A VOLTA DE WASHINGTON LUIZ

            “Com o fim da ditadura de Vargas em 1945, o ex-presidente Washington Luiz voltou do exílio. Veio de navio, foi recebido na Praça Mauá, no Rio, por uma multidão emocionada. Saudou-o o general Euclides de Figueiredo, herói do levante paulista de 32 e pai do ex-presidente Figueiredo”. Assim começou uma de suas recentes colunas na Tribuna da Imprensa, o jornalista Sebastião Nery. A segunda volta, descrita a seguir, é de minha lavra.

            Passado meio século, eis que retorna outra vez ao cenário nacional o espectro simbólico daquele senhor grisalho, de bigode e cavanhaque bem aparados, topete juvenil, figura esguia, pose impecável de dândi aristocrata. Como? Explico-me.

            A coalizão de centro esquerda, depois de restaurada a democracia no país, ainda não se dera em 1994. Pela segunda vez o PT é derrotado na eleição presidencial e vai sofrer, quatro anos mais tarde, a terceira derrota. Vencedora nesses dois pleitos é a dobradinha de centro direita do PSDB-PFL entronizando FHC na Presidência da República por oito longos anos. Mas o curso da história é redondo, assim como vai rolando volta rodando. Na quarta tentativa (2002), sai vencedor o PT, com sua ligação também à direita com o PL. Quem chega ao posto máximo do país é, enfim, Lula.

            Foi durante esses anos de passagem do século e milênio que o ilustre paulista de Macaé, o Sr. Washington Luiz Pereira de Souza, último presidente da República Velha, voltou ao nosso convívio.

            A revolução de 1930 pôs fim à política do café-com-leite, defensora dos interesses agropecuários dos estados de São Paulo e Minas Gerais, inaugurando uma nova mentalidade, que permitiu ao Brasil ingressar na modernidade. São os alvores da industrialização nacional. Washington Luiz é destituído e vai passar quinze anos nos Estados Unidos. Julio Prestes, paulista, eleito presidente da República não toma posse. Nesta mudança pagamos caro com a instalação de um período autoritário que só terminou em 1945.

            Por este motivo São Paulo rebelou-se em 1932, com a revolução constitucionalista, contra o movimento vitorioso e seu líder, Getúlio Vargas, pregando a necessidade de uma nova Constituição. Não pretendiam perder a liderança da atividade econômica nacional que, na realidade, só foi reforçada. Mas eles não entendiam assim.

            Ainda não entendem. Por isso Washington Luiz está a pairar, figurativamente, sobre as cabeças das últimas lideranças nacionais, o paulista-carioca Fernando Henrique e o paulista-pernambucano Lula. Não que queiram a volta da velha política, não seria possível nesses tempos modernos. Interessante este detalhe: as mais expressivas e recentes lideranças paulistas nasceram fora do Estado. Desde o fluminense Washington Luiz, passando pelo mato-grossense Jânio Quadros, aos dois últimos citados.

            São Paulo ao pensar Brasil o faz provincianamente, isto é pensa São Paulo. Não se dá conta de como a pujante economia estadual foi conseguida. Aos esforços de sua aguerrida população nativa somaram-se os dos imigrantes estrangeiros e o apoio de uma legião de retirantes nordestinos. Outro fator importantíssimo no crescimento invejável do Estado foi ter todo o país como mercado cativo para seus produtos, sem barreiras alfandegárias ou de outra natureza. Eles não seriam competitivos com os do resto do mundo se não existissem as mesmas barreiras impedindo a entrada de similares. 

            Um parêntese. Conheci um senhor paulista, intelectualmente honesto, que me contou um caso interessante. Sempre associava a fala nordestina a trabalhadores não-qualificados e pessoas de pouca cultura. Numa viagem ao nordeste, em reunião ou congresso de sua atividade, viu-se lado a lado com nordestinos falando com aquele sotaque arretado, com igual autoridade sobre os assuntos tratados ou de qualificação maior do que a sua. Caiu-lhe a ficha do preconceito. Fecha o parêntese. 

            O governo FHC, ao declarar o fim da Era Vargas não sabia o que estava dizendo. Fora as medidas de exceção do período ditatorial, criou-se então um novo modelo de desenvolvimento brasileiro. Sustentado intelectualmente pelas análises da Comissão para a América Latina (CEPAL), órgão da ONU, onde despontava a figura do patrício Celso Furtado.

            O Brasil tinha um projeto. Em que consistia isso? Industrialização através da substituição de importações, grande intervenção estatal no processo produtivo (o estado é o grande capitalista brasileiro), seja diretamente ou através das empresas de economia mista, objetivando o alargamento e fortalecimento do mercado interno. São exemplos desse período a criação pioneira da Companhia Vale do Rio Doce, da Companhia Siderúrgica Nacional, da Petrobras, mais tarde da Eletrobrás e de outras mais. Essas empresas constituíam o núcleo de nossa engenharia e tecnologia. O Sistema Financeiro era basicamente nacional. Que saudade dos bancos mineiros!

            Este modelo gerou distorções e alguma ineficiência. Ele foi continuado com JK, com forte participação do investimento estrangeiro, e hipertrofiado com os militares no poder, com grande dose de financiamento externo. Descontando alguns péssimos indicadores sociais, chegamos a ser considerados a oitava ou nona economia do mundo. Crescemos como nenhum outro país.

            Recentemente, o Brasil não tem um projeto de Nação. Desde a redemocratização e principalmente no governo neoliberal do FHC. O governo Lula continua a trilhar o mesmo caminho, tanta esperança de mudança ainda desperdiçada.

            Os resultados das recentes eleições municipais mostraram que as forças políticas dominantes, ainda não coligadas, estão nas mãos do PT e do PSDB que, salvo melhor análise, não diferem muito em termos de estratégia nacional. Na verdade, não têm nenhuma estratégia própria. Governam no operacional. Administrando indicadores macroeconômicos e em especial, resultados financeiros.

            Com a prestidigitação da valorização cambial durante o primeiro quadriênio, FHC viabilizou sua reeleição, privatizou todo o patrimônio nacional conquistado a duras penas desde 1930, com exceção da Petrobras, de quem retirou a exclusividade de executar o monopólio estatal do petróleo, acabando efetivamente com ele.

            Lula continua com a mesma política do petróleo que, mesmo sendo de difícil reversão, poderia ser operacionalizada de forma diferente, mais condizente com os interesses nacionais. A política econômica continua com a subordinação ao financeiro. A despeito dos superávits primários na execução orçamentária a capacidade governamental de investir é precária, colocando-se todas as fichas numa incerta PPP (Parcerias Público-Privadas). O grande pecado continua sendo a prevalência do mercado externo sobre o interno, do financiamento externo sobre o autóctone.

            Atualmente, mesmo com a taxa cambial abaixo dos R$ 3/US$, o que pode sugerir uma certa valorização da moeda nacional, os superávits na Balança de Pagamentos continuam batendo recordes, denotando empobrecimento do poder de compra interno e a vigorosa capacidade de pagamento do serviço da dívida externa. Traduzindo em bom português, o povão continua pagando o pato. Não tem seus padrões básicos de consumo universalizados, gerando fabulosos recursos para pagamento da dívida que nos foi legada pelos militares e FHC.

            Nada tenho contra paulistas ou paulistanos. Não me move nenhum sentimento expiatório; tenho consciência da baixeza desse tipo de expediente. Mas a visão deles não chega aos grotões brasileiros e não se dissociam dos padrões de eficiência e de crescimento consagrados e difundidos pelos países do primeiro mundo.

Adoro São Paulo. Respeito o grande senso profissional de sua gente, reconheço sua capital como grande centro cosmopolita, admiro seu interior.

            Na falta de alternativas políticas continuo com a minha preferência pelo Partido dos Trabalhadores torcendo pelo sucesso de suas administrações. Chego mesmo, como é comum entre os aficionados de uma causa ou agremiação a justificar alguns pecados. Se pudesse retornar às eleições de 2002, sabedor de tudo o que aconteceu nesses dois anos que passaram, ainda voltaria no PT. Na minha visão não há opção.

            O PSDB e o PT estão ficando muito parecidos com os Partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos. Lula teria dito que a diferença entre eles é a mesma que existe entre a Coca Cola e a Pepsi Cola. Contudo, a exemplo do que ocorre aqui, se eu fosse eleitor nos Estados Unidos, mesmo com essas considerações, eu teria votado no Partido Democrata.

            O PSDB caracteriza-se atualmente pelo seu pragmatismo (encimadomurismo) que se somou ao oportunismo, pecado original que marcou a sua criação. O PT, criado em 1980, não tem memória histórica, anterior aos embates sindicalistas e à oposição à ditadura. Este por sinal é o mais terrível subproduto dos militares no poder.

            Nesses tempos de Finados, gostaria de enterrar definitivamente a República Velha, exorcizar o espectro daquele elegante presidente de nome americano e ver meu país com um projeto de Sociedade, que está a se deteriorar. Talvez, quem sabe, com a maior capilaridade nacional alcançada pelo PT nas últimas eleições municipais isso possa de alguma forma contribuir para o melhor entendimento desse projeto.

           São Paulo me perdoe se “eu nada entendi da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas... porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”.

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Os versos citados no último parágrafo são de Sampa, de autoria de Caetano Veloso.

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

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