Jornalego

 

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Nº 348: Uma História Incrível
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Nº 340: Especulações Conceituais
Nº 339:Discurso de Despedida
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Nº 336: Economia Política
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JORNALEGO

ANO III - Nº 79, em 10 de Agosto de 2004. 

 Crônica com final insólito.

RIO DE JULHO E AGOSTO

 

            Retornar ao Rio de Janeiro é sempre uma oportunidade para dar uma reciclada na vida provinciana que ora levo depois que parei de trabalhar. Gosto muito de ir lá e também de voltar para a terrinha nem-tão-pacata-assim. Lá morei por um quarto de século, completei minha formação educacional e profissional, nasceram meus filhos e passei os anos mais tórridos de minha existência.

             Retornei para acompanhar um neto na volta de suas férias, participar do aniversário de outro e rever ainda outro, que mora muito longe e por lá andava.

             Em boa companhia, ocupamos um apartamento aconchegante de uma sobrinha expatriada pela profissão. O apartamento, na Rua Humaitá em Botafogo, fica perto da Lagoa, do Jardim Botânico, do túnel Rebouças, de tudo na Zona Sul. Com o som da Rádio MEC-FM (98.8) sempre ligado ao entrar em casa, impregnava-se o espaço de boa música.

             Esta temporada foi rápida e diferente. Não fomos a teatros ou shows, somente a dois cineminhas à tarde, pagando a meia-entrada de lei, estabelecida no estatuto do idoso. “O Pântano”, um drama argentino extremamente seco, retratando problemas familiares e o excelente desenho “As bicicletas de Belleville”.

             Caminhamos muito, muito mesmo. Daí atentarmos mais para o detalhe. A pé, devagar, olhando, espreitando, espiando, testemunhando, registrando uma cidade agitada na azáfama de sua lida diária. O tempo bom, a temperatura agradável. As noites frias para dormir com as janelas fechadas e o corpo bem agasalhado. Não houve excessos, de bebida ou comida. Em duas refeições, um ou dois cálices de bom tinto.

             Uma leve tontura não me estragou os dias. Talvez princípio de uma labirintite. Aguardo os exames e o diagnóstico do médico agora que voltei à base.

             Chegamos num sábado, direto do aeroporto para um cozido laite na casa da outra avó do neto que por lá andava. Depois, a festinha do aniversário do outro. Crianças, balões, rotedogui e sandubas deliciosos. Nada daqueles salgadinhos embuchativos. Doces e bolo para as crianças e adultos dulcicômanos. Cerveja de montão e eu me restringindo ao prosaico guaraná daite.

             As caminhadas começaram no domingo. Ao longo da Rua Jardim Botânico, com o trânsito tranqüilo de dia de folga na cidade. Passeamos pelos belos espaços contíguos à lagoa ao sol bom e amigo.

 Depois continuamos até a Praça do Jóquei para o almoço. Homens de terno e gravata e mulheres vestidas com altas toaletes, algumas equilibrando vistosos chapéus, se movimentavam aguardando a hora do Grande Prêmio Brasil.

             Na saída de casa no primeiro dia útil é que demos de cara com a movimentação urbana, seu trânsito, seu caos organizado. As pessoas conduzindo crianças, outras já na faina ou indo para o trabalho e o barulho, só sentido quando aberta a porta de vidro que dá para a rua. O apartamento é de fundos, o que garante, numa rua movimentada, completo silêncio.

             Nesse dia morreu o fotógrafo Henri Cartier-Bresson aos 95 anos conhecido como o “olho do século XX”, mas também o olhar atento ao cotidiano das pessoas comuns. Penso, da mesma forma, no conterrâneo Rubem Braga a flagrar em suas crônicas a poesia do dia-a-dia. Continuo a observar e a escrever. Sem a lente do Bresson e a genialidade do Braga.

             Agora vamos levar um dos netos à escola nos altos de Santa Teresa. Saímos de Laranjeiras. Depois, ainda em Santa, almoçamos um saboroso cherne no Sobrenatural de Almeida, restaurante cujo nome deve ter sido dado por algum tricolor em homenagem a Nelson Rodrigues. Meu Flamengo continua perdendo e empacou na lanterna do Campeonato Brasileiro. Descemos de bondinho, com a vertigem dando sinal quando passo por sobre os arcos da Lapa.

             Estamos no Centro visitando livrarias. Elas estão cada vez mais lindas espalhadas por toda a cidade. Compro dois livros. Um recomendado pela crítica, outro por um amigo. “Equador”, do português Miguel de Sousa Tavares e “O Mal sobre a Terra (Uma história do terremoto de Lisboa)”, da brasileira Mary del Priore.

 Os sebos são também ótimos. Transformaram a livraria do Espaço Unibanco em sebo. Que maravilha! Lá me servi de duas preciosidades em viagem anterior: “Educação Sentimental”, de Gustave Flaubert e “Brasil, País de Futuro”, de Stefan Zweig.

 Vamos a um dos xópingues. Promoções várias: saile - ofi até 50%. Procuro o DVD do Milton Nascimento – Tambores de Minas – que assisti emocionado, em casa de um amigo, em Vitória. Não acho. Na “Modern Saund”, em Copacabana, deveria encontrá-lo, mas dessa vez não apareci por lá. Compro CDs: sonatas para violoncelo e piano de Beethoven e a Quinta Sinfonia de Mahler. Costumo dizer que o feijão-com-arroz-nosso-de-cada-dia, a sustância musical, vem da música clássica. De vez em quando, uma iguaria popular cai bem. Haja vista os Tambores de Minas.

              Voltamos sempre para casa depois do almoço. As caminhadas pela manhã me cansam e eu aproveito para um cochilo à tarde. Visitamos um nenê recém-nascido, primeiro filho, neto e bisneto de amigos. Não conseguimos conhecer o mais novo sobrinho-neto. Mora longe, pra lá da Barra. Estamos sem carro e os pais, médicos, em seus compromissos diuturnos inerentes à profissão.

             Os bebês e os idosos padecem na cidade nervosa. Num grande edifício de apartamentos em Botafogo, registro uma fileira de cadeiras de plástico com os velhinhos e velhinhas tomando sol e a trocar conversas. Depois, imagino, sobem para o banho, o almoço, a cama, as novelas e, novamente, a cama. As crianças em pequenos grupos, com suas babás, nas pracinhas ou também na frente de seus prédios, em seus carrinhos e velocípedes. Surpreendo um grupinho sentado num estacionamento coalhado de carros. E o trânsito: vrum, vrum, vrum, vrum, na sinfonia dos escapamentos poluidores.

             Nossos cafés-da-manhã são tomados em padarias da região, no Bar Jóia do Jardim Botânico ou num café moderninho em frente a Cobal de Botafogo. A propósito, um maravilhoso centro gastronômico, musical, hortifrutigranjeiro, comercial etc. Aproveito e compro um vinho para presente: Casa Silva (este é o nome do vinho), uva Carmenere, chileno. Para as outras refeições preferimos sempre os antigos Lamas, Bar Luiz, Bar Brasil, Bar Lagoa, Filé de Ouro, Fiorentina e tantos de igual quilate. Desta vez só fomos ao primeiro. Os restantes estão aí por predileção, recordação e recomendação.

             Barra da Tijuca, Ipanema e Leblon, os bairros mais modernos da parte sul da cidade ficam para outra vez. Foi muito rápida a nossa passagem. O JORNALEGO me chama! Como é possível criar uma obrigação assim, sem qualquer necessidade! Coisas de desocupado procurando ocupação! Virou cachaça!

             Zona Norte, Zona Oeste, sem preconceitos, não pertencem ao perímetro urbano de nossa saudade. São outras cidades vizinhas, como Niterói. Outros universos!

             Na última noite fomos jantar com a parte da família residente no Rio. Esperamos por uns quinze minutos filho, nora e os dois netos na porta do nosso edifício. Estávamos visivelmente preocupados no desamparo da rua, portas e grades dos edifícios totalmente cerradas, quando nos abordou uma senhora esquálida (só depois de algum momento é que percebi tratar-se de uma mulher): – “Não se assustem”. Repetiu: – “Não se assuntem”. Prosseguiu: – “Só quero uma ajuda para comer algo”. Assustado, passei-lhe a pequena ajuda. Naquele dia – isso acontece todos os dias – houve tiroteio no Leblon com a morte de policiais e assaltantes.

               Na manhã do dia do embarque de volta, paramos na beira da calçada, em frente à faixa de pedestres, para atravessar a Rua Voluntários da Pátria, de trânsito intenso, para o lado da sombra. Caminhávamos para o metrô. Um ônibus parou, não sei por que razão, ao nosso lado, deixando livre, à minha frente, a faixa bem-pintada no asfalto. Num impulso, comecei a atravessar a rua, sem prestar atenção ao semáforo que ainda não abrira para mim. Olhava para trás chamando irritado por minha mulher que, mais comedida, ficara no meio-fio, sinalizando para que eu voltasse, pois o sinal estava fechado. Fui em frente, como sempre criticando a moleza e a indecisão dela. Um outro ônibus que vinha pelo centro da via, cuja visão me era bloqueada pelo que estava parado continuou avançando em boa velocidade o sinal verde. Pegou-me de frente, em cheio, arremessando-me a uma grande distância num impacto mortal e fulminante.

             Esvaindo-se numa poça de sangue, tava lá o corpo estendido no asfalto. Minha companheira e acompanhante corre a abraçá-lo, gritando e chorando histericamente por sobre o cadáver ainda quente e palpitante. Foi assim que vi a cena, dei cabo à minha vida e fim a esta crônica.

             Morri. Mas voltei bem e vou melhor! Eu e nós, nesta promiscuidade pronominal. Desculpem os amigos a quem não tive a oportunidade e o prazer de rever. O acidente – que não houve –  impediu que o fizesse. Fica para outra vez.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

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