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JORNALEGO

ANO II - Nº 64, em 10 de Março de 2004.

Memórias

  BELO HORIZONTE

(Início)

  Primeira Parte: Férias na Cidade. Amenidades.

              No final de 1950 terminei o curso primário. Ao passar no exame de admissão ao ginásio (secundário), recebi como prêmio uma viagem de férias a Belo Horizonte. Estava sempre acompanhado por meu irmão mais novo, que veio a falecer ainda jovem, aos 45 anos. Jamais havíamos saído do Espírito Santo, mais precisamente das vizinhanças da capital. Viajamos de avião. Um DC-3 da Nacional Transportes Aéreos, com escala em Governador Valadares.

 O avião estava com lotação esgotada, com nossos lugares garantidos. Um amigo da família precisava fechar negócios nesta última cidade e não tinha assento disponível na aeronave. Depois de meu pai conversar com o piloto (tinha-se acesso a ele), cedemos uma das poltronas e fomos, meu irmão e eu, até Valadares, sentados na mesma cadeira, amarrados pelo mesmo cinto de segurança. Eu estava entre onze e doze anos, meu irmão completara dez.

             No catecismo, aprendemos que quando uma pessoa morre em pecado vai para o Inferno. Assim, só viajamos depois de confessar as traquinagens infantis e comungar. Caso ocorresse algum acidente, nossa alma nem sentiria a terra, passaria do céu para o paraíso. Acredito que um dos maiores prejuízos que se pode causar às crianças, em sua tenra infância, durante seu processo educativo, é obrigá-las a freqüentar catecismos.

 Parece um complô contra elas. Ensina-se tudo errado. Papai Noel, cegonha, catecismos. Ao longo da vida ela vai quebrando a cara descobrindo a verdade, decodificando as mensagens no seu processo de amadurecimento. Algumas têm grandes acidentes nesse longo percurso. Uma maldade! Foi assim também com a humanidade, durante o seu período infante. Embora, ainda, grande parte dela conserve muitos laivos de infantilidade.

 Apesar dessas coisas, tivemos, os de meu tempo e espaço, uma excelente infância. Pouco me lembro dos tempos de guerra, eu que nasci antes dela. Um superior meu, no Governo Federal, natural da Áustria, de minha idade, contou-nos de um Natal, em plena guerra, quando ganhara de presente um pão preto. Dormiu abraçado com ele durante toda noite. Depois contou-nos das agruras da viagem marítima de sua família para o Brasil, fugindo dos horrores de lá. Felizmente não passamos por isso.

             Aterrissemos em Belo Horizonte. Esta cidade foi a grande metrópole de nossas vidas. Uma cidade planejada, moderna, tinha cerca de cinqüenta anos de existência quando a conhecemos. Desconhecíamos asfalto, piscina, avião a jato e televisão. Tudo isso (a televisão numa outra oportunidade) a cidade nos proporcionou. Uma coisa Vitória tinha melhor do que a capital mineira além das praias: os bondes. Os de lá tinham um único trem de rodas, eram veículos pequenos, que viajavam se requebrando nas subidas e descidas das ladeiras. Por aqui, os bondes tinham dois trens de rodas, eram maiores, mais bonitos, mais arejados, mais confortáveis.

             Entre parênteses, uma lembrança muito condizente com o conteúdo dessas memórias: no século XX o Brasil planejou e construiu quatro grandes capitais – Belo Horizonte, Goiânia, Brasília e Palmas. Um belo exemplo de criatividade, trabalho e realização.

             Meus tios haviam se mudado de Vitória para Belo Horizonte pouco antes de nossa ida. Ficamos na casa deles na rua da Bahia esquina com Timbiras. No quintal havia uma árvore alta, que escalávamos até as grimpas. No mais, íamos ao Parque Municipal, atravessando aquelas aléias de fícus da Avenida Afonso Pena (que as pragas dos insetos e dos automóveis concorreram para o seu extermínio) e freqüentávamos religiosamente, todos os dias, a piscina do Minas Tênis Clube, na sua sede velha nos altos da Rua da Bahia. 

             Com o pouco dinheiro que tínhamos, saboreávamos doces de leite e geléias de mocotó em tabletes, comprados por cinqüenta centavos de cruzeiros, moedas com as efígies dos presidentes Vargas ou Dutra, na venda da esquina do outro lado da rua. Íamos aos cinemas e alugávamos os barquinhos do Parque Municipal para remar em seu lago.

             Tínhamos as praias e preferíamos a piscina para nadar. Tínhamos o mar e preferíamos o remanso de um lago para remar.

             Dos filmes – e dos cinemas Metrópole, Candelária, Tupi, Acaiaca, São Luiz, Guarani, Brasil e Glória – lembro-me de Lili, com Leslie Caron e Mel Ferrer; O Maior Espetáculo da Terra, com Charton Heston e James Stewart e Salomé, com Rita Hayworth. O velho colonialismo americano!

             Um dos grandes eventos desta temporada foi um jantar na Churrascaria Camponesa, na Rua Goitacazes. Coisa inédita até então para nós, freqüentar um restaurante chique (acredito que tinha até música ao vivo) e nos regalarmos com aquelas peças saborosas de carne. Estávamos acostumados, até então, com aqueles bifinhos batidos, cozinhados na chapa ou nas frigideiras com gordura animal. Fomos sozinhos, sem acompanhamentos de adultos, meu primo, meu irmão e eu. Outra visita marcante foi a que fazíamos às nascentes Lojas Americanas, na Rua São Paulo, para tomar os deliciosos sorvetes e as novidades dos sundaes e bananas-splits, nunca dantes saboreados.

             Um acontecimento banal, mas fundamental, ficou gravado na minha memória. Para freqüentarmos a piscina do Minas tínhamos que nos submeter a um exame médico. Com algumas picadas de mosquitos na pele, o médico não me aprovou. Foi uma grande decepção, pois meus acompanhantes passaram a se banhar naquela água de transparências celestes, cheirando a cloro e novidade. No primeiro dia fiquei olhando para eles e todos os banhistas de fora da grade que circundava a piscina, sentado nos primeiros degraus da grande arquibancada.

             No segundo dia, pulei a grade e fui para a piscina. No terceiro ou quarto dia entrei direto, no bolo de garotos, pela porta do vestiário com a turma. O porteiro já tinha se acostumado com eles. Num determinado dia resolveu conferir as fichas do exame médico. Achou a de todos menos a minha. Argumentei sobre a desorganização do arquivo. Eles deveriam ter perdido a ficha, pois eu tinha feito os exames no mesmo dia do meu irmão e do meu primo.

 Passei os dois meses freqüentando a piscina e não retornei para fazer os exames. Isso foi importante na minha vida. De lá para cá, transgredi alguns regulamentos e regras irracionais, em momentos estratégicos de minha vida, com total sucesso. Sem culpa nem dolo. Mesmo assim, algumas transgressões, “nem às paredes confesso”. 

 Voltávamos todos os fins de ano em férias. Não mais de avião, agora de trem pela E. F. Vitória a Minas com baldeação em Nova Era para a E. F. Central do Brasil, numa viagem que demorava 24 horas. Meus tios agora residiam na Rua Guajajaras, entre as ruas da Bahia e Espírito Santo. Jogávamos futebol todos os dias na Avenida Álvares Cabral, uma ladeira que nos oferecia em seu canteiro central, um campo inclinado, implicando na necessidade de trocarmos de lado no meio da pelada, por uma questão de justiça gravitacional. Jogávamos de sapatos, uma outra novidade civilizatória! Aqui em Vitória, andávamos geralmente descalços nas horas das brincadeiras e nos jogos de bola.

Descobríamos o sexo feminino da humanidade. Marilyn Monroe se mostrava nua no famoso calendário. Sua foto foi colocada estrategicamente atrás da porta de nosso quarto. Quando aberta ela se escondia entre a porta e a parede. Quando fechada aquela maravilha se mostrava à nossa mais ardorosa admiração. A vedete Angelita Martinez visitava a cidade e aparecera na capa de uma das revistas nacionais. Na cidade fez a alegria de vários rapazes maiores, um dos quais relatava suas aventuras aos três jovens de olhos arregalados e bocas escancaradas. As meninas do alto da Rua Espírito Santo viviam sendo rondadas e nunca abordadas. Lembro-me de Dodora, o nome, não dela.

A segunda parte: A Cidade Emblemática. Política.

Continua no próximo número.

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

 jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

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