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JORNALEGO

ANO II - Nº 56, em 20 de Dezembro de 2003.

Conto

CONTO DE NATAL

            Para efeito deste conto não importa saber os motivos que levaram Ezequiel a estar só neste cenário. Contudo, se porventura isso se constituir um interesse maior para o leitor, por favor, que dê uma ajuda ao autor, imaginando as razões dessa solitária situação. Imagine também a idade, o estado civil/afetivo e a saúde de nosso personagem.

            Quanto ao cenário, trata-se de uma sala ampla de um apartamento em andar alto. Com uma porta que dá para uma varanda com vista lateral para o mar, tendo à frente uma profusão de prédios residenciais. A porta está voltada para o norte. Na sala, além de outros móveis, estão bem dispostos três sofás, sendo um deles maior do que os outros, onde Ezequiel se recosta, se deita, cochila, vê televisão, lê jornais e ouve músicas. Ele não fica totalmente sozinho porque o acompanha, pela manhã, uma zelosa empregada que lhe prepara o desjejum, as refeições e faxina a casa. Depois do almoço ela se vai. Aí sim, ele se queda só.

            Por quanto tempo vai durar este estado, nem ele sabe. Talvez para sempre, enquanto puder. Hoje é véspera de Natal e como vem acontecendo ultimamente, hoje também ele ficará sozinho pelo resto do dia, até amanhã de manhã. Seus filhos e netos moram em outra cidade, num outro estado. Por certo, vão telefonar logo mais, para lhe desejar Feliz Natal, paz, saúde e amor, essas coisas, mas o conto não registrará tais ligações.

            Ezequiel acordou sem sono, às seis horas da manhã. Ainda estava escuro por força do horário de verão. Fez sua higiene pessoal e foi ler, recostado ao sofá mais longo. Aliás, reler Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. Acendeu um foco de luz sobre as páginas abertas onde parara na noite anterior, se achou e se perdeu nas linhas e entrelinhas do romance. O silêncio permitia ouvir o barulho do mar no incessante movimento das ondas batendo na areia.

            Vez por outra, desviava o olhar por sobre os óculos de leitura para a grande porta envidraçada que dava para a varanda. A escuridão lá fora foi aos poucos cedendo lugar a um cinza, que se tornou azul cobalto, azul claro, passando por um amarelo alaranjado e finalmente abrindo-se numa transparência gloriosa de um dia de verão.

            Imaginou, sem se dar ao trabalho de levantar e conferir, que as luzes da praia iam aos poucos se apagando com a chegada da claridade.

            Pela porta de três partes verticais, duas fixas nas laterais e uma móvel ao centro, ainda fechada, divisava a nesga de mundo que lhe era servida. Não a transpôs uma vez sequer ao longo do dia, talvez para criar um clima de introspecção. Também não desceu para sua habitual caminhada ao sol matinal no extenso playground do condomínio, no andar térreo. As imagens exteriores lhe chegavam em seis pedaços, já que cada porta se dividia por sua vez em duas outras metades. Uma superior, outra inferior. Era o que ele observava deitado, de sua poltrona preferida. Como se tudo que visse lhe viesse através de uma grande lente de uma câmera, de uma tela de cinema ou de uma bateria de seis monitores empilhados dois a dois. Se chegasse à varanda e olhasse à direita teria acesso à visão de um mar imenso valorizado pela luz do sol nascente. Banhistas, desportistas, caminhantes, e navios mais além. Limitou-se a olhar o mundo pela porta de vidro, desde o interior da sala, de onde só via o alto dos prédios.

De seu ponto de observação, tinha uma vista parcial de um céu azul, redundantemente celeste, por cima dos edifícios. Céu sem nuvens, aviões ou pássaros, visão confinada pelos seis retângulos de vidro emoldurados por alumínio galvanizado.  Via as arestas horizontais e verticais das construções, que na estética de sua visão de agora se transformavam em linhas e ângulos retos num mesmo plano bidimensional, entrecortando o céu.

A luz solar incidindo sobre as laterais dos prédios vizinhos compunha interessantes formas geométricas com as sombras das varandas em balanço, projetadas em suas fachadas. Figuras quadradas, triangulares, retangulares, poligonais, com os lados sempre retilíneos, que se movimentavam ao longo das horas, contínua e lentamente, de oeste para leste. Interessantes também os ponteiros de sombra das projeções das caixas dos aparelhos de ar refrigerado, a se deslocarem como os dos relógios de sol, no sentido anti-horário. Inicialmente alongados, iam diminuindo, para mais tardar voltar a se alongar. Mais surpreendente eram as figuras formadas por uma escada de ferro incrustada nas laterais de uma caixa d’água no mais alto dos prédios. As hastes e os degraus produziam estranhos desenhos na parede, acompanhando na mesma direção o bailado das outras sombras.

            No parapeito de sua varanda surgiu um bem-te-vi que Ezequiel observou sempre através da porta. Não eram comuns, tampouco raras, tais visitas. O barulho dos carros e das pessoas vindo lá de baixo se fez mais audível.

Tomou café com leite, pão com manteiga e queijo-de-minas, mais os remédios matutinos, e passou os olhos no jornal local. Depois cochilou um pouco para retomar, logo a seguir, deitado, com a cabeça encostada num dos braços da poltrona, à leitura do romance.

Posou o livro sobre o peito numa parada reflexiva e gozou da paz que tanto estimava. Lembrou-se de um saudoso amigo, a quem dizia que tinham algo em comum. O amigo gostava dele. Por três vezes disse isso a ele que não atinou para a sutileza da piada. Um chiste com fundo de verdade, porque só com auto-estima convive-se com a solidão.

Depois se lembrou, não de outro Natal, mas de uma crônica de sua autoria sobre um outro Natal. Tratava-se de um exercício de redação para se preparar para um exame de admissão profissional. Tinha vinte anos, acabara de prestar o serviço militar obrigatório e discorria sobre uma noite natalina passada numa guarita do quartel. Com os sinos tocando à meia-noite no convento próximo dava termo à peça literária, quando o personagem considerava, em pomposo estilo, como um presente daquele Natal, a consciência da importância de Deus, da Pátria e da Família, produto de reflexão interior.

Envergonhou-se de um dia ter pensado assim, e pior, ter escrito isso. Uma cabeça ainda idealista e romântica tão propícia a receber mensagens e símbolos burgueses maldosamente explorados por movimentos políticos de direita, como o nazifascismo internacional e o integralismo nacional.

Passou a raciocinar e como conseqüência renegar clichês e símbolos dessa natureza a partir da leitura de uma entrevista de um intelectual socialista que, inicialmente o chocara. Afirmava que entre as piores coisas que a humanidade criara estavam exatamente: Deus, Pátria e Família.

Na realidade o que se repudia é a deturpação de tais conceitos. Deus, pelo uso de seu nome por igrejas, seitas e grupos sedentos de dominação ao manipular massas submissas, incultas e despreparadas. Pior, o povo sofrido e destituído de tudo. Pátria, em sua expressão xenófoba, anti-humanista e mesmo racista. Família, ao idealizá-la como uma instituição sacrossanta ou guardiã patrimonial e, como tal, castradora e fonte de tantas psicoses e neuroses.

Essas reflexões ele jamais confidenciou a alguém. Isso é coisa que não se conta diretamente às pessoas, pela possibilidade de ferir suscetibilidades, se não forem bem explicadas e melhor compreendidas. Só mesmo um autor de contos para confidenciar os pensamentos de seus personagens.

Depois almoçou, colocou prato e talheres usados na cuba da pia e foi fazer a sesta. Duas horas depois, voltou à leitura e a ouvir algumas peças musicais de sua preferência atual. Uma coleção de músicas renascentistas e barrocas executadas por vários conjuntos de metais e um concerto para clarineta e orquestra de Mozart. No carrossel mais três CD’s com peças de piano, destacando-se sonatas de Beethoven, músicas de Schumann e de Vila Lobos.

A tarde transcorreu tranqüila com o acompanhar da movimentação das sombras nas paredes dos prédios vizinhos. As sombras agora se esmaecendo à medida que o sol ia se deitando no ocidente.

Jantou acompanhado por uma garrafa pequena de um tinto chileno encorpado. (J’aime mon balon de rouge! Assim se expressava ao provar dos vinhos). Pela primeira vez no dia assistiu a um noticiário na TV, sem novidades, com aquelas matérias de encher pautas de jornalistas, e foi dormir cedo. Não viu sequer, quando o escuro da noite chegou, o acender ou o piscar de milhares de lampadinhas da decoração de Natal nas sacadas vizinhas.

 Estava satisfeito. Não aquela satisfação álacre, exteriorizada, mas satisfeito. Contrastou o que sentia agora com outros natais, quando, não porque estivesse infeliz, mas sentia-se insatisfeito, sem saber porquê. Lembrou, sem saudosismo, das deliciosas comidas da ocasião e dos vinhos espumantes que tomava para sublimar os sentimentos de então, do agito e da balbúrdia das reuniões de antanho, da mesma forma que lembrava de tantas coisas que não mais fazia.

Antes de conciliar o sono, pensou sobre a sua situação, nesse recolhimento, a solidão e na sensação de felicidade insólita, diferente, que lhe enchia o ser. Não soube explicar.

Acordou revigorado no dia seguinte, tendo levantado da cama relativamente tarde, de uma noite bem dormida, embora tenha interrompido o sono por volta de meia-noite com o alarido dos vizinhos, os sons que vinham da rua e o chamado de um sino eletrônico da igreja da paróquia anunciando a missa do galo. Foi ao banheiro e sereno voltou a dormir. Sonhou sonhos impossíveis, surrealistas, de difícil concretização, nem sequer explicação.

Ao fazer suas abluções matinais olhou ao espelho sua cara macilenta, sua cabeça completamente pelada, e pensou. Diante de seu estado, de suas concepções atuais, valores, de sua vivência, experiências, desejou-se, com uma semana de antecedência, um Feliz Ano Novo, com a certeza de que, acontecesse o que acontecesse, o próximo ano seria bem melhor do que este, a passar e a findar.

A passar e a findar. Inexoravelmente. Inapelavelmente.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES).

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