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JORNALEGO

ANO II - Nº 54, em 30 de Novembro de 2003

Artigo

 

INFLAÇÃO

 

            No auge da recente crise cambial e diante da expectativa de elevação dos preços, isto é, durante os últimos dias do governo passado, perguntou-me um amigo: por que não conseguimos ter uma moeda estável? Por que a inflação (ou seu espectro) está sempre presente em nossas vidas?

            A crise passou com a posse dos vencedores da eleição e com as medidas iniciais tomadas pelo novo governo. Além do natural medo pela novidade de um governo de oposição, a crise foi também astutamente insuflada por quem estava a perder o poder.

            Essa calmaria é definitiva ou temporária? Há perigo de que uma onda inflacionária venha a ocorrer novamente? O que fazer para que isso não acontecer?  

A seguir, a tentativa de uma explicação, sob a minha ótica.

            A moeda, no mais das vezes, reflete o lado real da economia. Por isso, ações de política monetária tão-somente, por muito tempo, sem atingir o âmago do problema – como a sociedade se estrutura no atendimento de suas necessidades – são como tratar o doente com paliativos, sem atacar as causas da febre. Ela, a política monetária, pode segurar por pouco tempo a elevação dos preços. Mas, no longo prazo, não há como evitar cair na real.

            A inflação não é o fenômeno, mas o sintoma de um outro fenômeno.

            Quando estudante, um jovem garçom português assim me explicava sua vinda para cá: - “Lá na terrinha o Escudo é uma moeda muito valorizada, mas eu não a ganho; prefiro o Brasil, onde a moeda é instável; mas aqui eu tenho emprego e dinheiro”. Vivia-se aqui o tempo do Cruzeiro e o da inflação. No além-mar o de Salazar e o da estabilização a duras penas.

            Não se trata de pregar a inflação como condição para o desenvolvimento; aliás, a contenção da inflação é um dos pressupostos básicos para reativação da economia. Contudo, conter a economia, durante muito tempo, para manter a estabilidade da moeda é, como na piada do português, ensinar o burro não comer.

            No plano do real (e não no Plano Real) o que existe é Oferta e Procura por bens e serviços. A nação de 180 milhões de habitantes ainda não tem estrutura para atender as necessidades básicas de sua população. Alimentação, educação, habitação, energia, transporte, vestuário, saúde, saneamento, são itens cujo atendimento generalizado deixa muito a desejar.

            Em termos gerais, a Procura supera a Oferta em quase todos os itens. Conseqüentemente, os preços aumentam, e quando isso se dá de forma sustentada, temos inflação, que é o efeito do desequilíbrio entre os dois lados da equação.

            Déficits orçamentários e emissões de moeda são tentativas para se gastar mais do que se tem, de pressionar ou incentivar a Procura que, por sua natureza, tem resposta imediata à vontade de exercê-la. A reação da Oferta depende de investimentos, organização, logística, uma série de ações preliminares e intermediárias, com gestação mais alongada.

            A inflação é basicamente o produto de uma demanda não atendida. Às vezes é definida como inflação de custos. Contudo, o aumento de custos é a resultante de uma demanda não totalmente atendida no processo de produção, na disputa por insumos, bens intermediários e fatores de produção.

            Isso é tão verdade que na época do Plano Cruzado, com os preços congelados, portanto sem a face monetária da inflação, ela se mostrava, por exemplo, com a cara do boi no pasto e das prateleiras vazias nos supermercados. Em suma, crise de abastecimento.

            O problema brasileiro é acrescido pela grande desigualdade de renda, social e regional que, ao pressionar a Procura por um consumo mais qualificado, inibe a Oferta de itens básicos, concorrendo para o aumento geral de preços.

            Outros aspectos, como o hábito de conviver com a alta de preços (a passividade como o consumidor a aceita), a inflação gregoriana (remarcação anual de preços), a inércia inflacionária (incentivada pela indexação, quando existente), a inflexibilidade dos preços para baixo (quando sobem são difíceis de descer), concorrem para agravar o problema. Não são, contudo, as causas geradoras da inflação. São causas motoras, que a sustentam.

            Não adiantam planos, pacotes, reformas perfunctórias, empréstimos salvadores, FMI e coisas que tais, se a estrutura da sociedade não for mudada. Contudo, mudar é sabidamente uma tarefa hercúlea.

            Fomos testemunhas do curto sucesso do Plano Cruzado e o recrudescimento da inflação logo após das eleições que se seguiram. Mais recentemente vivemos o sucesso mais longo do Plano Real até a desvalorização do real logo após as eleições de 1998. Agora, ao findar 2002 veio esta crise aqui mencionada, contida com recessão econômica e desemprego, como estamos presenciando. Estamos sentindo a repressão da inflação no mau atendimento da saúde pública e nos deficientes orçamentos setoriais (forças armadas, diplomacia, polícia federal etc.).

            Numa comparação com os países desenvolvidos e com os Estados Unidos em particular, há que se compreender que eles vivem noutra situação. No “primeiro mundo” a Oferta geralmente sobrepuja a Procura, enquanto nos nossos países o inverso é a regra. Daí porque, uma guerra de vez em quando é cinicamente benéfica para desovar estoques do complexo industrial-militar dos países mais ricos. No caso americano, acresce que seus déficits e dívidas são financiados por dólares de sua emissão, aceitos universalmente, sem necessariamente exigirem a contrapartida em bens e serviços. E’ quando servem como reserva de valor e não como meio de pagamento.

Tentar estabilizar a moeda em nosso país, com contenção de despesas básicas, juros altos, aumento de impostos, venda de divisas para manter o câmbio e outros expedientes (existem outros mais torpes, como manipular índices de preços), enfim, com medidas financeiras circunstanciais, é tentar retocar a imagem por sobre a superfície do espelho sem cuidar da realidade do retratado.

            O atual refluxo das expectativas inflacionárias, após o pico da crise cambial, é produto da recessão, do desemprego, vale dizer, de contenção da Procura por bens e serviços que atendam às necessidades da população.

            Tendo em conta a nossa realidade, inflação não se extingue, se reprime. Ela só será domada com um corte profundo em nossa realidade. Foi para isso que o novo governo foi eleito.

            Faço votos que o novo governo não se filie aos contumazes prestidigitadores! Observo com ansiedade esses primeiros meses de governo Lula. Entre os sucessos da política externa e os erros administrativos, acho mesmo que não poderia ser diferente. Para mudar o país, a economia real tem que crescer, empregos devem ser criados e as necessidades básicas da população devidamente atendidas, Não se contem inflação com medidas monetárias. Se não houver mudanças mais profundas, a moeda, mais cedo ou mais tarde, vai refletir a imagem real do país.

            Por falar em cair na real, pergunta-se ao terminar o texto: e se a realidade que vamos encarar daqui para frente for diferente da que estamos acostumados a conviver?

É assunto para o próximo texto.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES).

mailto:eeegense@terra.com.br

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