Jornalego

 

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JORNALEGO

ANO II - Nº 46, em 10 de Setembro de 2003.

MEU TIPO INESQUECÍVEL

 Memórias

Este era (ou ainda é?) o nome de uma seção das Seleções do Reader’s Digest (que diabo isso queria dizer?) que, na década de 50, meu pai assinava e eu lia religiosamente.

Meu tipo inesquecível é meu avô materno: Manoel Pinto Dangremon. De batismo Manoel Pinto de Jesus. Adotou outro nome substituindo o irreverente Pinto de Jesus. Passou a ser conhecido por ele: vovô Dangremon e seu Dangremon. Um dos seus genitores seria português, não tenho certeza. Nasceu em Vitória, em 1876, vindo a falecer nesta cidade com 84 anos, em 1960.

Foi o único avô que conheci. Fui seu primeiro neto. Nasci em sua casa, onde moravam meus pais, à Rua 13 de Maio que, antes de eu nascer, era conhecida como Rua do Piolho, bem no centro da capital capixaba.

Vitória, na passagem do século XIX para o XX era ainda uma vila muito precária. Haja vista o apelido da rua em que nasci. Antes, meu avô morou numa rua vizinha à atual Caramuru, jocosamente conhecida como Ladeira do Quebra Bunda. Sem ser pavimentada, deveria propiciar grandes escorregões em dias chuvosos. A maré chegava quase ao Campinho, hoje Parque Moscoso e à antiga Praça da Independência, agora Costa Pereira. De aterro em aterro, a cidade foi ganhando espaços ao mar. Não havia esgotos, os detritos eram coletados casa a casa e jogados na baía.

Funcionário estadual, antes do meu nascimento perdeu dois de seus filhos e a esposa, minha avó Beatriz, espanhola de nascimento. Os outros três filhos homens casaram-se e saíram de casa. Passou a dividi-la com a filha caçula (minha mãe). À época do meu nascimento ele já estava aposentado, tinha 63 anos. Como escriturário, antes do advento das máquinas de datilografia, fazia ofícios e registros manuscritos, daí sua excelente caligrafia, mesmo em idade avançada.

Quando me dei por mim já estávamos morando à Rua Muniz Freire, na cidade alta, onde ele começou a exercer a atividade de marceneiro amador. Fez-me brinquedos de madeira dos quais a memória só guardou um reboque para velocípede.

 Meus pais casaram-se sem muitos recursos. Acredito que, segundo acordo entre eles, ao meu avô cabia fazer as compras da casa e ao meu pai arcar com o aluguel. Isso deve ter durado até o meu pai conseguir melhorar de vida e comprar casa própria, na Avenida da República.

Além da marcenaria, outro dos seus hobbies era jogar bilhar no Menezes, na avenida principal da cidade, geralmente nas primeiras mesas de quem entrava no recinto. A mesa dos veteranos. Em casa, não se descolava do seu rádio, ouvinte de quase todos os programas da famosa Rádio Nacional: PRK-30, Balança Mas Não Cai, Tancredo e Trancado, Honra ao Mérito, Repórter Esso, Jerônimo Herói do Sertão, novelas como o Direito de Nascer, O Mundo da Bola etc.

Invariavelmente, depois da sesta, vestia seu terno de casimira escura, gravata, chapéu de feltro e portava o guarda-chuva quando o tempo nublava. Ele era magro, alto, já meio curvado, bigodes (tinha-os?), cabelos cheios sem qualquer traço de calvície, caprichando no topete juvenil, que armava com um pente de osso fino, com a ajuda de Gumex para fixá-los. Lá vai ele saindo da Muniz Freire pela calçada em declive junto ao Fórum, descendo a Escadaria Maria Ortiz, chegando à avenida Jerônimo Monteiro, na Praça Oito, em direção do Menezes. Fumava Liberty oval. Tossia freqüentemente por causa do vício e usava uma escarradeira ao lado da cama, como era de hábito e até de bom-tom. Ficou tuberculoso e passou quarentena no alto da serra de Marechal Floriano. Deve ter dado uma trégua ao cigarro. Mas só deixou de fumar pouco antes de morrer.

Ia ao mercado quase todas as manhãs. Da Capixaba ou da Vila Rubim. Esperava a chegada dos barcos dos pescadores e como se fosse uma operação sofisticadíssima ficava a observar os peixes até decidir-se finalmente por um. Comia-os em forma de moqueca, com talheres de cabos de madeira.

Esses almoços eram cercados de uma certa liturgia. Sentado à cabeceira da mesa, primeiramente colocava feijão preto no prato e misturava com farinha de mandioca, fazendo aquela pasta. Jogava por cima o caldinho da moqueca. Vinha depois o arroz branco e finalmente as postas de peixe coloridas com colorau ou com tintura de urucum. Não me lembro do pirão. E pimenta, naturalmente. Os peixes e as peixarias sempre me fazem lembrar dele.

A sua principal atividade na fase em que convivemos era a de provedor da Arquiconfraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, sediada na Igreja de São Gonçalo, que dava fundos para os fundos de nossa casa. A igreja se situa numa elevação, com a frente voltada para a parte baixa do lado sul de Vitória. Lá de cima, da chamada barreira do São Gonçalo divisava-se um belo trecho da ilha e seus morros centrais. Hoje a paisagem está prejudicada por altos edifícios. Dali, lembro-me bem, testemunhei um blackout no tempo da guerra (a segunda, é claro). Fecho os olhos, ouço e vejo aquela figura repicando alegremente os sinos do alto do campanário ou tocando matraca durante as semanas santas.

São Gonçalo é o santo padroeiro da igreja, mas a grande devoção ali praticada é a de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção. Estive presente, neste ano de 2003, às comemorações, chegando mesmo a acompanhar um trecho da procissão. “Em busca do tempo perdido!”

Nossa Senhora era festejada nos dias 14 e 15 de agosto. Ainda é, com pequenas alterações no calendário, por força dos tempos modernos (!). Trata-se de uma festa centenária. A Igreja tem quase 300 anos. Não sei exatamente quando começou o culto a Nossa Senhora. No primeiro dia das festividades, a imagem saia do altar, onde ficava durante todo o ano, atrás do sacrário, deitada como morta. Ia para o andor dessa forma e a procissão era realizada à noite. Era Nossa Senhora da Boa Morte. O desfile religioso tinha algo de mórbido, sério. A banda tocava músicas pungentes de ferir o coração.

No dia seguinte ela se transformava em Nossa Senhora da Assunção e gloriosamente era colocada em pé no andor, de braços e olhos abertos. A procissão se dava ao cair da tarde, com muita alegria. Sem aquele ar sombrio do dia anterior. A banda tocava músicas sacras alegres.

Essa metamorfose da imagem foi um dos grandes segredos que meu avô guardou. Só o desvendei, definitivamente, este ano. Por mais arguto que eu fosse, adolescente e mesmo adulto, não tinha descoberto o truque. Meu avô nunca disse que era milagre, mas também nunca desdisse. Como Nossa Senhora poderia ressuscitar, abrir os olhos, erguer os braços e gloriosa sair em pé, em procissão, do alto do andor? Na infância era milagre mesmo! Mais tarde comecei a pensar numa imagem articulada, que permitisse abrir seus braços e que tivesse duas cabeças. Engano! São na realidade duas imagens: a morta e a viva.

Tomei um choque, quando no mês passado vi a imagem viva, no andor, e atrás, a morta, deitada no seu nicho, atrás do altar. Parece-me que o Patrimônio Histórico Nacional não permite que se escondam as imagens, elas têm que estar sempre expostas à visitação pública. Assim, durante o restante do ano, a imagem viva fica exposta na sacristia. Ah! Seu Dangremon! Como me enganou com o seu milagre! Embora não mais acreditasse nele, não tinha matado a charada até hoje.

Quando morreu, teve missa de corpo presente na igreja tão querida. Foi sepultado ricamente vestido com os paramentos pretos (bata longa e opa plissada) e escapulário azul celeste com as insígnias de provedor. Nas procissões levava um negro bastão envernizado, com cerca de dois metros, com as divisas correspondentes ao seu posto, marcadas no alto.

Na Sacristia da Igreja, está lá a sua foto, o segundo provedor da irmandade, além do canapé que lhe pertencia. Na nave principal, no altar da direita fica São Francisco de Paula, de batina preta, lembrando muito o biótipo e as feições ossudas do meu avô. Nós crianças tínhamos medo daquela imagem e ao passar por ela desviávamos os olhos para não encarar o santo barbudo.

No final da vida, ficou mais resmungão, simplesmente mais velho. Os alimentos sempre estavam com um pouco a mais ou um pouco a menos de sal.  Meu pai, seu admirador, aconselhava paciência e dizia: - “Seu avô é um homem realizado, meu filho!” Eu não entendia o que isso significava.

Implicava, por exemplo, com as traduções dos títulos dos filmes americanos. Dava sempre o mesmo exemplo de um que, em português, era Mamãe Eu Quero Mamar, embora o equivalente em inglês fosse literalmente Mãe Precoce. Embora explicássemos o apelo comercial da tradução livre, não atinava para tal. Discutíamos bastante. Nas discussões entravam política (ele getulista, meu pai brigadeirista) e esportes, nesse caso por simpatias diferentes por clubes locais.

Era aficionado por passarinhos que mantinha em gaiolas primorosas que ele próprio construía. Lembro-me de nós dois a caçar rolinhas com alçapão, lá para os lados do Vale do Canaã, nas férias, em Santa Teresa, na serra capixaba. Ou em Raposo, estação hidromineral fluminense, onde passei 21 preciosos dias com ele e o meu tio-avô espanhol, Nicolau, irmão da vovó Beatriz. A sua passagem por Raposo marcou época. Movimentou o lugar criando um hino para recepcionar os visitantes que vinham à procura de suas águas milagrosas (os jacarés) e contava apimentadas anedotas. Imaginem!

Foi também ator amador, desempenhando suas funções no Teatro Melpômene. Um edifício de madeira que foi destruído por um incêndio e localizava-se na Praça Costa Pereira; acredito que na altura da atual rua Graciano Neves. Para demonstrar seu talento aos netos dava estentóreas gargalhadas e recitava com voz macabra os versinhos que ainda me lembro:

“A morte é negra, dela ninguém escapa. Nem rei, nem bispo, nem papa. Mas eu escapo, compro uma panela, me meto dentro dela e... tapo”.

Pois bem, taí, sobreviveu à morte, não com esse expediente hilário. Sua lembrança está viva pela figura, personalidade e características próprias. Meu tipo inesquecível! Aqui está ele, mais de quarenta anos depois de sua morte, aparecendo em sua plenitude para mim e mostrando a cara magra, ora com a máscara séria ora com a gaiata, de topete pueril, nessas páginas do JORNALEGO. Ainda vejo suas canelas magras, aqueles cambitos brancos, amarradas com um barbante, numa simpatia para enfrentar reumatismo. Agora compreendo. Vovô Dangremon foi um homem simples, comum, viveu, trabalhou, sonhou, sofreu, criou filhos, ajudou meus pais, curtiu seus netos, enfim, um homem realizado!

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

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