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JORNALEGO

ANO II - Nº 38, em 20 de Maio de 2003.

 Conto

O FESCENINO PAPALVO

            A história de Nicanor poderia muito bem ser contada sob o título de “O Tarado Babaca”. Nada mais vulgar! Com a leitura do último e bom livro do Rubem Fonseca e o conhecimento, pelos jornais, do impropério lançado sobre um colega do PT pela Economista Maria da Conceição Tavares, nada mais chique do que intitulá-la - a história, não a festejada Conceição - com o pomposo conjunto de palavras eruditas que dão nome a este conto. Somente a partir desse achado vernacular, sob essa distinta intitulação, fui motivado a contar a triste saga do meu contemporâneo, a qual e a quem conheço de longa data. Atraídos por esta denominação, creio que seremos, o narrador e sua narração, muito mais bem aceitos por nossos curiosos leitores.

            Conheci Nicanor como coroinha da capela do Colégio, rebatendo prontamente em latim as falas do padre, evoluindo com a desenvoltura de um bailarino no cenário do altar-mor, em obediência às marcações exigidas pela coreografia da missa. Figurino: bata rendada por sobre a batina vermelha. Parecia que incorporava algo de seu espírito idealista ao fazer tilintar a campainha, clamando aos fiéis para a adoração da hóstia consagrada e quando a badalar os sinos no alto do campanário. Nas ladainhas operava com destreza o turíbulo, a espargir nuvens de incenso, no balanço ritmado da naveta incandescente.  Um craque!

            O Colégio, já referido, de padres, incutiu-lhe rígidos princípios morais, transformando-o num fiel seguidor dos preceitos religiosos e do calendário de festas, cerimônias e retiros espirituais.

            Quem lhe desviou desse pio caminho foi exatamente um padre gordo e calvo que, à guisa de confessá-lo em sua cela particular, o induzia a trilhar outros caminhos com manipulações pecaminosas. A vantagem era o imediatismo do perdão; seu confessor absolvia com a mão direita o pecado que com a mão esquerda perpetrava.

            Gostou das novas sensações libidinosas. Para dar maior vazão ao florescer de seus instintos, mudou-se de Colégio por pressão sua junto aos pais. A partir daí passou a ser freqüentador assíduo de notórios endereços do prazer mercantil no perímetro urbano da capital capixaba: números 120 e 130 da rua General Osório, Caratoíra e mais tarde Carapeba, no município vizinho. Bons tempos os das venerandas (!) conseqüências dessas incursões de duplo sentido, que a penicilina deu termo e que um novo flagelo faz lembrar com saudades.

            Foi para o Rio tentar a faculdade de medicina, ainda inexistente no Estado. Torrou o dinheiro do pai em farras dionisíacas, tornando-se um adepto compulsivo do esporte do sexo. Um atleta Probel, alcunharam-no os colegas de república. Probel era uma conhecida marca de colchões de molas, novidade no mercado brasileiro do sono. Nunca obteve êxito nos vestibulares. Três anos de estudos simulados para os pais e muita esbórnia na Cidade Maravilhosa.

            Optou por fazer concurso para o Banco do Estado. Foi bem sucedido. Com a garantia da estabilidade no emprego e com um bom salário, continuou a exercitar-se na nova vida de prazeres lascivos.

            Conheceu Janete, morena linda e gostosinha de Goiânia, que imediatamente caiu de amores pela fina estampa do nosso herói. Dândi dos anos sessenta. Envolvente conversa que conquistou sem maiores esforços a recém-chegada do planalto central. Namoraram três anos, enquanto durou o assédio sem sucesso para levá-la a uma cama. Com a queda da resistência, o casamento se deu de imediato.

Durante o período de namoro, excitava-se com os encontros diários na ante-sala do apartamento da madrinha sonolenta. Foi seu período sexual mais ativo. Não com a namoradinha, ainda presa aos costumes de meados do século. Com ela fazia o aquecimento, as preliminares dos jogos principais.  A não ser para satisfazer nossos instintos voyeurísticos, não faz sentido contar a monótona sucessão desses lúbricos embates. Sua atividade de bancário de tempo parcial facilitou sua vida luxuriosa de tempo integral.

            Muito cedo, Janete desiludiu-se com seu companheiro, exauriu-se mesmo com a incessante demanda sexual por parte de seu marido, sem uma contrapartida de afeto, delicadeza, consideração, enfim, sem aquele fascínio e êxtase que o amor propicia. Sentia falta de um carinho, de gestos de estima, de romance, que tanto oferecia como esperançosa e apaixonada esposamante. Em algumas oportunidades ela se sentia estuprada, como um aparelho de musculação a ser manobrado pelo marido, contumaz freqüentador de academias de ginástica.

            Nas saídas conjuntas, ao cinema, ao restaurante, sentia a postura atenta do Nicanor para com o público feminino, que ele engolia com olhares desnudantes e que a constrangiam profundamente. Seguia as mulheres em suas idas ao toalete. Disparava torpedos. Suas amigas eram assediadas com freqüência, principalmente as mais carentes por algum acidente conjugal, tendo ocorrido alguma capitulação nessas investidas.

            Com a sua vinda para o Rio de Janeiro, um centro maior, mais cosmopolita, numa época de rápida mudança dos costumes, agora mais tolerantes, tempo de cultura hippie e da música dos Beatles e dos Rolling Stones, Nicanor não compreendeu muito bem o seu tempo e mergulhou de cabeça na permissividade reinante.

            A sociedade repressiva transformou-se em pouco tempo e os cérebros mais incautos embarcaram na onda permissiva. Sexo é sempre bom. Faça sexo sempre. Cuide do seu bom desempenho. Capacite-se. Sexo, sexo, sexo. Virou moda. Revistas especializadas e os limites mais elásticos permitidos pela arte levaram algumas cabeças à piração. Tal é o caso do Nicanor.

            Nos anos finais da decadente união conjugal, vinha mantendo uma filial, com gerente 15 anos mais nova, ambiciosa, a lhe satisfazer as vontades aviagradas, agora com disponibilidade total, depois de se aposentar com 25 anos de serviço, com proventos iguais aos salários da ativa, antes de completar cinqüenta anos de idade.

            O casamento durou o tempo de terem dois filhos, Janete recomeçar seus estudos que haviam sido interrompidos com a maternidade e arranjar uma colocação no mercado de trabalho ávido por fisioterapeutas. Aconteceu o inevitável, a separação seguida do divórcio, nova figura jurídica disponível na vida dos brasileiros.

            Do convívio com o pessoal médico e para-médico, Janete conheceu uma psiquiatra solteira, linda, loura, simpática, culta, jeitosa de corpo, dengosa, sensível, meiga, frágil, inteligente. Sensibilizada por um mundo que desconhecia, de atenção e carinho, afeto e delicadeza, passou a morar com a amiga que lhe compreendia totalmente e que passou a encher seus dias de ternura e companheirismo.

Seus filhos, um casal, felizmente superaram com folgas os possíveis malefícios que os ensinamentos e exemplos machistas poderiam lhes causar, um receio que atormentava a “tia” adotiva tendo em vista da história dos pais. Casados, deram ao Nicanor os netos que ele apenas conheceu, sem o capacitar para o exercício da magia de ser avô.

            As últimas notícias do agora sexagenário Nicanor, decrépito, consumido por tanto fumo, álcool e sexo mal feito, dão conta que ele vive solitário, num apartamento de fundos da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, com vistas para centenas de outros apartamentos também de fundos. Acompanha-o seu potente binóculo a vasculhar intimidades alheias. Dedica-se a expedientes também solitários para pagar tributo à ainda alta taxa de testosterona no sangue, com medo de voltarem espinhas no rosto e pedras nos bicos dos peitos e, o que seria pior, supersticioso que é, brotarem-lhe verrugas ou cabelos nas palmas das mãos.

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha - ES

eeegense@terra.com.br

 mailto:eeegense@terra.com.br

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