Jornalego

 

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JORNALEGO

Nº 33, em 30 de Março de 2003.

Conto

“FAST LOVE”

 

“Ouviram, por trás de uma das portas, o ranger rítmico e pesado de uma cama, como se um toro de madeira estivesse sendo serrado ao meio”.

            Lembrou-se da frase do Nabokov em um de seus contos. Olhou de soslaio para uma colega apressada que vinha em direção contrária no estreito corredor que dava acesso aos apartamentos. Ela retribuiu-lhe com um sorriso sarcástico e um levantar suspiroso de olhos.

            Era o que conseguira depois que o marido se fora, abandonando-a com dois filhos pequenos. Botara o pé no mundo e não dera mais a cara. Ganhava pouco, mas o emprego tinha seus benefícios, era perto da sua casa, na periferia da cidade e fazia por lá as refeições. Acabara-se a exclusividade da vida de dona de casa, cujas funções agora se acumulavam com as de garçonete e camareira do motel vizinho.

            Nos tempos de casada, apesar das duras tarefas caseiras e da educação dos filhos, somente a ela delegadas, sempre sobrava algum tempo para a leitura dos livros que consumia avidamente da biblioteca municipal razoavelmente suprida, próxima ao colégio dos meninos. Em alguns dias, levava os pequenos e se quedava na biblioteca até a saída das aulas.

            Lia tudo que estava ao alcance das mãos, preferindo os contos, concisos ou mais espraiados. Machado, Clarice, Aníbal também Machado, Tchecov, Scliar, Nabokov e várias coletâneas. A conclusão do segundo grau deu-lhe um certo embasamento cultural e lembranças do braço hercúleo do seu professor de português, por quem se apaixonara. Não pelo professor, mas pelo braço cabeludo do professor; um cara feio, mal-ajambrado, desleixado, mas... que braço! O esquerdo, mais precisamente. Quase desfalecia ao ver o seu membro sinistro ir aos poucos se desnudando no arregaçar de mangas para melhor escrever no quadro-negro.

            A idéia de imaginar universos por detrás daquelas portas perfiladas também lhe foi dada por Nabokov, quando ele confessou, em outro conto, que estava ansioso para escrever sobre a vida das mulheres que faziam a limpeza dos vagões-leitos dos trens, isso no início do século passado, quando a modernidade dos motéis ainda não existia na velha Rússia, tampouco a extinta União Soviética, embora a atividade de “serrar toros”, nem por isso, deixasse de ser praticada, como atesta a frase inaugural deste texto.

            Começou a ter a percepção mais apurada para os detalhes dos quartos em desalinho quando teve o primeiro contato com o “senhor das segundas-feiras”. Invariavelmente, aproveitando a promoção desse dia da semana de fraco movimento, ele freqüentava o motel, preferencialmente no mesmo apartamento que, a partir da terceira vez, vinha sendo reservado em seu nome, na verdade em sua alcunha. Chegava logo após o almoço. Lá para o fim da tarde solicitava um chá com torradas, servido gentilmente por nossa personagem.

            A partir desses encontros, iniciou-se uma intimidade contida, com papos cada vez mais extensos, causando-lhe certas preocupações, seja quanto ao gerente do estabelecimento que poderia reclamar de seus atrasos, quanto por parte da companheira do seu interlocutor, isolada no quarto, recuperando-se. Ele aparecia sozinho, já devidamente composto, na saleta de serviço do apartamento. Ali conversava um pouco ao ser servido e quando, ao efetuar o pagamento, ela recolhia devagar as louças, talheres e pratos do comedido lanche do “senhor das segundas-feiras”. A sua companheira não lanchava.

            “Elle et Lui”, o nome do motel, afanado de uma revista ou de uma dessas lojas “fashion” de “shopping”, tinha como lema, encimando o seu cardápio, “Discrição no bem servir”, ou algo nessa linha de missão motivadora, lição aprendida pelo seu proprietário quando de um exercício de planejamento estratégico na empresa de que fora demitido.

            Naquelas conversas, o “Sr. Segunda-feira” confessou-lhe ser também um aficionado da literatura, avaro leitor e escritor bissexto de contos. Que coincidência! Ele estava escrevendo um sobre amores de motel e, também por isso - deu ênfase no também - vinha semanalmente ali para melhor situar seu texto e inspirar-se pelo ambiente do local. Juntava a fome com a vontade de comer.

            - Sem indiscrição de sua parte, por que você não me fornece algumas idéias, dado que atende a esses apartamentos? Propôs ele a ela.

            Caiu a sopa no mel. Os pensamentos acumpliciaram-se.

            - Combinado? Conversaremos mais na próxima segunda-feira. Até lá! Pagou a conta, retornou ao quarto, fechou a porta e logo depois saiu.

            Começou a ficar atenta às possibilidades do que estaria acontecendo nos vários apartamentos que atendia, através de sons, aparência dos casais a quem servia, o desalinho dos lençóis, dicas desse tipo. Sua imaginação trabalhava como nos filmes de suspense a entrar pelos mínimos espaços para flagrar o interior das câmaras. Tudo sem a mais leve indiscrição! Somente um excitante jogo de imaginação, como um pai-de-santo a interpretar as posições dos búzios jogados numa peneira em terreiro de umbanda.

Os mais jovens geralmente apareciam em dupla na hora de um eventual lanche ou refeição, sem inibições, ou na hora do pagamento, que às vezes era rateado. Quanto aos mais velhos, quem dava as caras era necessariamente o homem, sempre mais maduro ou cúmplice de um relacionamento amoroso que deveria ser mantido em segredo.      

            Soltou a imaginação. No próximo encontro com o Sr. Segunda-feira forneceu-lhe o primeiro enredo. E o excitante jogo prosseguia semanalmente com uma ou várias situações fictícias que o contista atento escutava, chegando mesmo, em alguns casos a tomar notas. Prometia-lhe ao final de um tempo fornecer-lhe o conto para uma primeira análise crítica.

            Marinete começou a ficar excitada pelo andamento do conto e perguntava ao Sr. Segunda-feira sobre a sua abordagem. Ele lhe dissera que queria de alguma forma associar um motel a esses restaurantes “self-service” ou a essas cadeias de “fast food” tão comuns atualmente. Uma análise dessas novas modalidades de encontros amorosos fugazes, por vezes às escondidas, tão comuns na sociedade hodierna. Só o Sr. Segunda-feira, do alto da sua proverbial circunspeção para usar hodierna em lugar de moderna!

Objetivava tratar da evolução do amor no período recente sem, contudo, desmerecê-lo, no que achava que tais facilidades contribuíam para o maior envolvimentos dos amantes, embora pudesse estar contaminando parcerias oficiais, depois da colaboração impiedosa para a extinção das antigas zonas de prostituição. Tudo isso seria sutilmente tocado, numa história atraente e sensual, era o seu propósito. Parecia-lhe, salvo evidências em contrário, que a proliferação dos restaurantes a quilo e dos motéis urbanos sem fins hoteleiros eram fenômenos exclusivamente brasileiros, cujas razões passaria a especular no seu conto.

            Ao agradecer as primeiras contribuições tomou carinhosamante (erro de imprensa falho) ambas as mãos de Marinete, que sentiu o calor de sua emoção naquele toque e naquele olhar. O coroa exultava com o material que tinha a seu dispor.

              Marinete embarcara no projeto com toda vontade. Ao ser informada que o conto estava no seu final, deu um sorriso cativante recebendo em retribuição aqueles beijinhos faceiros em cada pômulo de seu rosto. Não pensava em outra coisa senão na elaboração do conto, de cuja lavra vinha participando, e já pensava, ela própria, escrever algo de seu.

            Foi quando numa segunda-feira, o Sr. Homônimo, arregaçou as mangas de uma bela blusa listrada que vestia, expondo os antebraços, penetrou com o esquerdo o bolso da calça e puxou de lá a carteira para o pagamento. Uma recordação atingiu de chofre a carente cabecinha de Marinete e com o impacto deixou cair a bandeja com o bule, as chávenas, o açucareiro, colheres e o que mais ali houvesse. O barulho foi estrondoso e por certo assustaria a parceira do Sr. Segunda-feira. Preocupada desculpou-se humildemente e saiu para pegar panos de chão, rodo e vassoura, apetrechos de limpeza.

            Ao voltar, perguntou pela “Senhora”. O Sr. Segunda-feira abriu-lhe a porta que dava para o apartamento e mostrou-lhe um ambiente vazio, cama pronta (que ele desarrumava todos os dias, como prova das inexistentes refregas do amor), causando-lhe o maior espanto pela surpresa. Atônita, perplexa, imóvel, foi avisada que o pagamento estava sobre a mesa, enquanto se despedia o nosso solitário herói.

            Na próxima segunda-feira, a excitação aumentara para Marinete na espera do Sr. Daquele dia. Ele não vinha e não veio. Da gerência do motel foi avisada de um telefonema para ela. Era o próprio, convidando para um encontro quando lhe mostraria o conto. Afinal!

            Só poderia ser na quinta-feira, dia de sua folga e durante o período do colégio das crianças, pois naquele dia era ela e não sua vizinha que as apanhava na escola.

            O almoço, num “self-service” da cidade, foi providencialmente rápido e revelador do que estava acontecendo nos corações e mentes dos dois. Dali imediatamente foram para um motel, do outro lado da cidade, onde passaram a se encontrar invariavelmente às quintas-feiras. Uma mulher feliz, renovada e um senhor juvenil de apelido novo.

            O conto vem sendo pacientemente tecido a quatro mãos, ao longo desses rápidos encontros semanais, ainda longe de um epílogo.

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha, ES

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