Jornalego

 

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MOVIMENTO.SEM.BR

 

Nº 31, em 10 de Março de 2003.

 

Crônica

 

 "Quem hoje se atreve a concretizar idéias políticas básicas, tem de ser um pouco especulador, e um pouco criminoso!", subsecretário Tuzzi, in O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Vivenciado na Áustria, em 1913.

 

"Um ditado cínico, que demonstra o estado atual do sistema globalizado e neoliberal em que vivemos e prega a submissão do trabalhador e do povo em geral vem sendo disseminado pela elite: "Ser explorado pelo capitalismo parece bem melhor do que não ser explorado pelo capitalismo". Esta frase espirituosa  justifica uma postura defensiva, passiva e fraca das classes menos privilegiadas. Proponho a volta por cima, a inversão dessa  posição com conseqüente e correspondente ação pró-ativa, como falam os planejadores, cujo lema seria: "Melhor do que tudo é explorar o capitalismo".

Assim concluiu o seu exaltado e de certa forma ingênuo discurso o presidente do "movimento.sem.br", nova organização que passou a congregar todos os movimentos "sem" do país. Os sem-terra, os sem-teto, os sem-emprego, e outros tantos que proliferaram na virada do século.

Enquanto o sindicalismo brasileiro foi o mais importante movimento popular durante o regime militar, o final do século XX testemunhou o surgimento do vitorioso movimento dos sem-terra, lutando e ganhando espaços em prol da reforma agrária no Brasil, não sem os acidentes e excessos de percurso deste tipo de empreitada. Depois, outros movimentos subsidiários e correlatos foram aparecendo, como as "invasões" de "shopping centers" pelo lumpesinato rural e urbano e alijados do sistema prevalecente. Invasões pacíficas, sem ataques pessoais ou materiais, simplesmente orquestradas para o cotejo chocante entre as classes sociais, revelando a dualidade e a perversidade da sociedade brasileira. Essas invasões consistiam basicamente em passeios pelos corredores dos "shoppings", com a "canalha" observando as vitrines e comendo nas praças de alimentação os frangos-com-farofa e sanduíches de mortadela trazidos em marmitas ou sacolas de plástico. 

Era a continuação mais proveitosa da tática de localizar no perímetro urbano a problemática social da zona rural, tentando inclusive destacar as estreitas relações entre a crise urbana e a rural. Esse tipo de ação já começara com a invasão dos prédios dos órgãos do governo, não muito bem recebida pela opinião pública. Agora a mídia e a classe média, sem apoiar, via sem maiores críticas, embora boquiabertos, as incursões pacíficas nos "shoppings". Afinal, se os estudantes de Direito têm o seu dia de pendura e todos, com exceção dos donos de restaurantes, acham uma peraltice dos guapos rapazes e moças, por que não "aceitar" o périplo das classes menos favorecidas pelas passarelas do paraíso consumista, sem quaisquer danos financeiros ou patrimoniais? Só um arranhãozinho na estética modernosa.

Foi o começo; o desenvolvimento dessas ações deu na criação do "movimento.sem.br".

A inflação voltara comandada pelo aumento dos preços dos produtos e serviços das empresas privatizadas na década passada. A despeito de um  comportado desempenho dos indicadores macroeconômicos, maquiando o verdadeiro estado da economia, o desemprego evoluíra com a chegada contínua ao mercado de trabalho de novos contingentes de mão-de-obra. A economia real não apresentava a reação espelhada pelos índices e depoimentos governamentais, principalmente após a reacomodação das altas cotações das bolsas de valores americanas e a desvalorização do dólar no mercado internacional. O preço do petróleo continuava alto, como efeito de uma política competente da OPEP que, diferentemente do que sucedera nos anos 70, aprendera a não repassar os benefícios aos países consumidores industriais. O Brasil passou a produzir mais petróleo do que as suas necessidades. Contudo, exportava muito para os países sedes das empresas multinacionais que aqui operavam, tendo que importar óleo mais caro dos países árabes. A situação se mostrava insustentável e insustentada pelas forças no poder central e estaduais de maior expressão, mera continuação do esquema montado após a assim chamada democratização do país, sequer interrompido pelo impedimento do primeiro presidente eleito. A coligação de centro-direita que dominara o poder por oito anos, tinha sido substituída por outro esquema, vitorioso com um discurso de mudança simbólica.

A inoperância da oposição democrática minoritária e desestruturada, tolhida pelo aparato governista comprometido com o sistema; o continuado abuso das Medidas Provisórias; a desmoralização de todas as iniciativas de saneamento ético dos três poderes e o compadrio da imprensa tradicional compunham o quadro de desânimo total.

Foi nesse clima que se anunciava o carnaval de 2006. Enquanto se preparavam as escolas de samba, regiamente financiadas pelo dinheiro do narcotráfico que substituíra os poderosos do jogo do bicho, o "movimento.sem.br" articulava a sua ação, planejada há mais de um ano.

O plano virou ação e o apocalipse então se deu.

Desde a sexta-feira hordas de pessoas começaram a acampar ao lado das rodovias de acesso às grandes cidades, enquanto outros contingentes tomavam as suas ruas, a pé, de caminhões, ônibus, carroças e barcos, em lombos de burros e cavalos, acampando por ali mesmo, embaixo de marquises, parques e jardins. Homens, mulheres, velhos, crianças todos portando bandeiras verde-vermelhas do movimento.sem.br.

Alguns conflitos foram registrados com a polícia, que não ofereceu maiores resistências, impotentes diante da proporção que vinha tomando a iniciativa. Os manifestantes foram se instalando e intimidando as forças policiais que não tinham como desencadear a almejada repressão. 

No sábado a ação planejada, propriamente dita, começou. Os "shoppings" foram invadidos e não mais pacificamente. Os alimentos devorados, as mercadorias furtadas e o espaço ocupado.

Nas rodovias de acesso às praias, serras e localidades de lazer, longos congestionamentos, provocados pelos postos de pedágio (que não foram interditados pois serviam aos propósitos do movimento, tendo sido expropriados só no final do dia) e pelos próprios manifestantes, permitiam o saque dos pertences, dinheiro  e mantimentos transportados pelos automóveis, ônibus e caminhões.

Uânderson era todo alegria, dono da situação, locupletando-se de tudo em que batia os olhos e que lhe caia ao alcance das mãos. Lembrava-se do tempo em que aproveitava aqueles mesmos engarrafamentos, para vender água, refrigerantes e cervejas aos passageiros parados na pista, encarando aquele sol de 40 graus e o asfalto de 50.

Nas estâncias de lazer, nas serras e nas praias, antes da chegada dos proprietários, outra horda já invadira as milhares de moradias vazias, previamente  "cadastradas" pelo movimento durante as noites anteriores, usando-se o simples artifício de verificar quais casas e apartamentos tinham, durante dias, suas luzes apagadas. Eram prédios inteiros!

Houve conflitos, principalmente entre os proprietários e os invasores, as polícias, desmoralizadas, não deram conta do recado. Houve mortes e muitas. O caos instaurou-se inclusive na rede de informações da mídia nacional, outro alvo da ação dos insurgentes.

Por outro lado, as residências nas cidades, nos bairros mais nobres, cujos moradores viajaram, também foram invadidas em grande parte. As forças policiais de repressão muito cedo aquilataram sua impossibilidade de conter o povão, cujo poder de deslocamento fora também afetado com a interdição das principais vias, principalmente túneis urbanos.

A periferia e os morros tomaram o asfalto apoiados pelos chefões do narcotráfico e sua tropa de choque. Os presídios invadidos e sua população ganhou as ruas. Por planejamento da coordenação do movimento ou por golpe de sorte as grandes indústrias não foram atacadas, tampouco os grandes projetos públicos, usinas energéticas e de infra-estrutura básica. Foi uma catarse na periferia do sistema, epidérmica, com a utilização competente de suas facilidades.

Nunca tantos sambaram e beberam e amaram tanto até quarta-feira de cinzas. Nos desfiles de carnaval os sambódromos foram invadidos pela população revoltada. As arquibancadas e camarotes ocupados pela "patuléia". Era a des-teatralização do espetáculo de um carnaval passado, encenado por Joãozinho Trinta ou mesmo a materialização do desfile do bloco do Sanatório Geral do Chico Buarque. Malditos profetas!

Aos primeiros raios de sol da quarta-feira as igrejas abriram suas portas, fechadas durante o período insurrecional e momesco, a distribuir mais cinzas. As Forças Armadas, até então aquarteladas, tomaram as ruas iniciando também a sua costumeira liturgia na tentativa de retorno à assim chamada ordem ex-ante. A repressão então assumiu a sua melhor forma histórica e os excessos foram assustadores.

Se a quaresma serviu para completar a mudança de quadro exigida pelo "populacho" é tarefa que a limitada literatura prospectiva não conseguiu perscrutar. No entanto, nada ficou como dantes. Como a memória curta limita a reconstituição do passado, a especulação do futuro, quando não muito apurada, não permite enxergar tão longe, como os planejadores ousam. Só o tempo para confirmar o curso posterior desses acontecimentos.

O exercício intelectual é fraco quando comparado com o exercício da ação, como provaram os acontecimentos aqui narrados. Maior que tudo, no entanto, é a fé, o inefável mistério da fé! Durante o período quaresmal que se seguiu, tem registro somente a grande expectativa gerada na população pela iminência da páscoa da ressurreição, a fechar mais um ciclo neste vale de lágrimas em que vivem milhões de figurantes.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

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