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JORNALEGO

Nº 2, em 9 de maio de 2002.

Conto

 MALVADEZAS

A violência na Grande Vitória está se alastrando. Uma verdadeira praga! Ninguém ignora. A Ordem dos Advogados capixaba pediu intervenção federal na área de segurança no Estado. Outro dia mesmo foi seqüestrado aquele coroa de Itapoã, quando caminhava lá pros lados de Itaparica. Levou muita porrada e depois foi solto, pois usou o artifício de não se identificar. Os seqüestradores mostraram-se impotentes, matavam-no ou, como aconteceu, soltavam-no. E o coitado ainda caminha no calçadão, só que agora mudou de direção. Sai de Itapoã e vai pros lados da Praia da Costa, por considerar menos perigoso.

A mulher sempre advertia o Romualdo: - Cuidado com essas caminhadas ao cair da noite! Olha que aquele seqüestro se deu pela manhã, à luz do dia! E você caminhando quando vem a escuridão e as luzes da praia ainda não se acenderam totalmente! Você não é tão idoso quanto aquele coroa, mas cuidado! Depois não vá dizer que não avisei!

Romualdo já tinha passado dos 60, estava aposentado havia três anos e fazia o que sempre gostava de fazer e não tinha tempo quando na ativa. Estava feliz, em estado de plena realização, considerando as suas humildes pretensões. Tinha descoberto uma nova dimensão para a sua vida. Estava acima do bem e do mal. Lúcido, testemunhava as voltas do mundo acima das paixões. Sem interesses, sem partidarismos, sem religião, sem esperanças. Provocara o riso de um amigo ao dizer: "não preciso mais comer ninguém" simbolizando assim a sua, digamos, neutralidade diante dos apetites humanos. Tinha uma vida pacata. Cumpria um programa maravilhoso de leituras onde entremeava os ensaios mais sérios com livros de ficção deliciosos, geralmente os mais clássicos, e escrevia esporadicamente. Antigamente pensava na autoria de um romance para quando viesse a aposentadoria. Sentiu que não tinha fôlego para isso. Divertia-se com pequenos ensaios, contos, artigos diversos e alguma poesia ligeira. Com isso enchia a paciência e a caixa postal de seus amigos na Internet. Ao cair da noite evitando o sol agressivo, caminhava para manter a forma, controlar o colesterol e a glicose.

- Ro, você ‘tá com barriga de David de Michelangelo! Aos sessenta anos e se cuidando! Vaidoso! Mas se não fosse eu com essas comidinhas deliciosas e saudáveis, saladinhas, franguinhos, peixe fresquinho, você estaria um bagulho, né mesmo Rominho? Veja só, você sexagenário, com esse corpinho de quarenta. Cabelos só agora ficando grisalhos. Homem é assim mesmo! E olha que você tinha um barrigão de tanto tomar chope na beira da praia com aqueles amigos antipáticos e suas mulheres enxeridas. Nunca fui com a cara delas. Recuperou-se rapidamente com as caminhadas e as comidinhas feitas por mim com todo o carinho. Com mulher a coisa é diferente, além de ter o corpo deformado por várias gravidezes (gravidezes!? Se não é vai ser, a palavra está com a personagem), ainda tem que ficar em casa cuidando do lar e da comidinha do maridinho. Santa diabetes! Com ela você passou a se cuidar mais e sair menos. Mas também, que vantagem? Fica grudado nesses livros e nesse computador, nessa Internet. Depois que os filhos se casaram e se foram parece que não tem mais ninguém em casa.

O alerta da mulher fez-se premonição. Após caminhar seis quilômetros, atravessar a pista beira-mar da Avenida Gil Veloso e caminhar para o seu edifício, na Rua Castelo Branco, dois mal encarados, de motocicleta, encheram-no de tiros. Um na cabeça, três no tórax, dos quais um lhe varou o coração, e outro na virilha, a rigor, na genitália. Estrebuchou ali mesmo e "foi".

Corre-corre na rua, ai Jesus, ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora da Penha. Juntou gente depois dos gritos do pessoal que chegara às varandas dos prédios vizinhos, chamaram a polícia, depois o camburão levou o que restou do nosso Romualdo. Sua mulher foi avisada logo que voltou pra casa do supermercado, cheia de legumes, verduras, frangos, frutas e uma caixa pesada de leite desnatado. Teve uma crise nervosa, foi sedada e dormiu até o dia seguinte.

O delegado anotou a ocorrência, onde relatou a inexistência de assalto, pois o relógio estava no pulso e a carteira com notas e cartões de crédito intacta no bolso da bermuda do morto. Conclusão: suspeição de crime passional, acerto de contas de alguma ordem, dívida, perseguição política ou desagravo profissional. Crime de mando em qualquer das hipóteses.

Passada a crise, a mulher deu tratos à bola. Eu bem que desconfiava do Romualdo. Depois que se aposentou começou a ficar mais caladão, lendo demais, escrevendo demais. O danado nunca me ensinou a usar o micro. Quer ver que lá tem coisa! Ficava sempre parado, pensativo, contemplativo, com aquele mar grandão à sua frente. Talvez até estivesse apaixonado. Velho besta, paixão senil! Não via televisão, só um ou outro noticiário, uma ou outra entrevista e ainda me criticava por gostar de novelas, dos meus programas de variedades e assistir a alguns canais religiosos, que me deixam enlevada pra agüentar o rojão da vida com tanta violência, guerras e coisas do mal. E encher minha solidão.

Dívida ele não tinha, que eu saiba, pensava ela. Dizia que estava se restringindo ao estritamente necessário. Quanto à política, acompanhava-a, mas não participava de nada. Os compromissos do seu trabalho já não existiam mais, portanto, envolvimento em casos profissionais não era certamente o motivo do crime. Só podia ser mulher.

O bandido não me procurava mais. Quando eu vinha com uns dengos ele se retraia. Ah! Aí tinha algo! Foi essa a razão do crime. Com certeza! Bandido! Homem é sempre tudo igual. É isso que dá, deve ter se metido com essas menininhas gostosas de peitinhos e barriguinhas de fora ou mais provavelmente com uma mulher casada, dessas que Vila Velha está cheia, querendo arrumar-se na vida, ter um bico para comprar vestidinhos "fashion", coisas assim. Eu saco bem isso! Era por isso que o dinheiro estava curto. Eu sempre reclamando e o bandido dizendo que a aposentadoria vinha minguando em termos reais. Como assim? Se ele recebia mais reais do que quando se aposentou! Acho que o "estritamente necessário" devia incluir uma saída com alguma sirigaita e presentinhos, motéis, e outras sem-vergonhices mais. Calhorda! Nunca me enganou! Pagou caro. Aquele tiro no saco foi simbólico, deram o recado.

No funeral e na missa de sétimo dia não verteu lágrimas. Impoluta, aparentava resignação. Na realidade se roia por dentro, morrendo de raiva daquele mau-caráter.

Três semanas depois, outro crime voltou a abalar a população da Praia da Costa. Um advogado foi assassinado, após sua caminhada pelo calçadão, ao cair da noite, quando se dirigia à sua casa na mesma Rua Castelo Branco. Três pessoas, num Gol branco, foram vistas por um vizinho fugindo após os tiros. As ações do advogado contra grupos com negócios escusos e integrantes do crime organizado no Estado logo deram margem à suposição de quem teriam sido os mandantes. A polícia foi rápida no descobrimento do carro, prenderam dois dos matadores que, prontamente, confessaram os crimes e continuam sendo interrogados visando o esclarecimento total do caso.

Os crimes, no plural, elucidaram a "falha técnica" dos bandidos no primeiro assassinato.

A missa de mês da morte do Romualdo, no Convento da Penha, mostrou uma viúva chorosa, como não acontecera anteriormente. Certamente por tomar consciência da barbaridade gratuita do erro de pessoa daqueles malvados.

 

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES), 20 de abril de 2002.

eeegense@terra.com.br

 

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