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ANO X - N° 279, em 10 de agosto de 2011.

 

Um conto de amor

 

ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE

 
The way you wear your hat

The way you sip your tea

The way you hold your knife

The memory of all that

No, they can't take that away from me

 

George & Ira Gershwin

 

Nasceram um para o outro. Cresceram ouvindo isso. Na mesma rua, ainda pacata, de um bairro também pacato, numa cidade muito pacata. As coisas mudaram muito nesses trinta anos, a cidade e seus costumes. Nasceram no mesmo mês, diferença de poucos dias. As mães de primeira viagem trocavam sonhos, planos e notícias sobre o andamento das gravidezes e dos enxovais dos bebês. Naquele tempo não se conhecia o sexo dos filhos antes do nascimento. Por essa razão, as roupinhas eram brancas ou de cores neutras, nem tanto ao rosa nem tanto ao azul, cores que acabaram enfim prevalecendo nos presentes recebidos, com a chegada de um menino e de uma menina.  

 Frequentavam as mesmas brincadeiras; o mesmo parquinho, suas casas, quintais e jardins eram espaços comuns para os folguedos das duas crianças. Os brinquedos se distribuíam indistintamente entre as duas casas. Estiveram sempre juntos do maternal à universidade. As festinhas dos respectivos aniversários eram programadas com antecedência pelas mães competentes e criativas: dias e momentos muito felizes, de reunião da parentada, dos amiguinhos da vizinhança e dos colegas. Várias vezes comemoraram juntos os aniversários.  

Sentavam-se juntos na mesma carteira escolar. Iam e voltavam da escola, ora acompanhados da mãe de um ora da mãe do outro, ora da babá de um ora da babá do outro. Crescidinhos iam sozinhos para lá. Só virar a esquina, sem sair da calçada de suas casas. 

 Molecote, ele frequentava as peladas com os amigos num campinho de futebol sem grama. Ela, frequentemente, ia vê-lo, sentada sobre uma pedra ao lado do campo.

Despontava um craque. Atacante. Driblava bem, se posicionava melhor, tinha um chute possante. Geralmente, era o artilheiro do seu time em cada partida. Era o primeiro a ser escolhido por quem ganhasse o par ou ímpar. Uma garantia de vitória. 

Mais tarde, quando passou a jogar por um clube da cidade, em torneios juvenis, ela sempre assistia aos jogos e torcia fanaticamente por ele. Não por seu time. Era por ele futebol clube. Tudo isso continuou quando foi escalado para as categorias dos maiores. 

Com a prática do esporte (aliás, jogava bem qualquer coisa) e com a preparação física dos treinamentos, passou a desenvolver um corpo atlético, com músculos a aflorar nas coxas e nos braços. O peitoral alargado. Um porte esguio. 

Já tinha passado a época das brincadeiras nos parquinhos e das festas infantis de aniversários. Era tempo dos aniversários com danças e matinês nos cinemas no centro da cidade. Geralmente iam com a tribo, mas os dois sempre inseparáveis. 

Foi quando o culto à personalidade começou a aflorar, com a adoração plena dela por ele. Colecionava fotos, tinha até um close dos dois abraçados em porta-retrato na mesa de estudos em seu quarto.  Flâmulas do clube em que ele jogava e para o qual torcia. Ela passou a torcer pelo Flamengo, contrariando o pai vascaíno. Recortes de jornal sobre a atuação dele e do seu time nos campeonatos locais.  Até alguns outros objetos que, subtraídos furtivamente, constituíam uma verdadeira coleção de fetiches. Um boné, que ela usava no recesso do seu quarto, era o troféu principal. 

A atração dela por ele não se comparava com a recíproca, um tanto tênue. Bonita, simpática, meiga, corpo atraente, inteligente (por sinal, mais do que ele, pelo fato de ser mais antenada com o mundo, leitora incansável de boa literatura e aficionada por artes em geral), que não despertava maiores entusiasmos no companheiro, que se restringia a fazer o jogo protocolar de aceitação da situação, o que massageava seu ego.

Os colegas já notavam a paixão que ela demonstrava por ele e os consideravam namorados. Escrevia poemas idealistas no seu diário sobre o amor e mostrava orgulhosa às colegas mais chegadas.  Eles próprios não falavam de namoro, não houve nenhum acordo formal sobre o caso, mas todos juravam que o romance existia. Era visível, quase palpável. 

Estudavam juntos, revezando as casas, ora numa ora noutra. Continuaram assim até o vestibular para a universidade. Ela fez exames para Psicologia; ele para Engenharia. Foram aprovados, e então se deu a primeira diversificação naquelas vidas que andavam sempre juntas. Tão somente no que diz respeito aos estudos específicos. Continuavam sempre, juntos, embora, pelas respectivas características pessoais e, agora, com os estudos em linhas diferentes de orientação para a formação profissional, tivessem mentes diferentes. Ele, pragmático, objetivo, entendendo e explicando a vida quase com a precisão matemática de seus estudos. Ela, sensível, romântica, idealista, humanista e esmerada estudante de uma ciência inexata, vivia sem explicar seus momentos de paixão. 

Foi durante o segundo ano de seus cursos superiores que se deu a plenitude daquele encontro, muito provavelmente provocado pelo convívio universitário, pelo contato com os professores, colegas e suas matérias. Um novo mundo se abria para eles. Numa das vezes em que se encontraram sozinhos, rolou um clima de sensualidade e atração que terminou em beijinhos e abraços e carícias ainda contidas. 

A descoberta recíproca de seus corpos em processo de maturação foi uma aventura com sentimentos como nunca haviam sentido em suas vidas.  Com a continuação dos encontros privados, evoluíam em suas carícias cada vez mais ousadas. 

Ela vivia num paraíso de sensações e emoções. Para ele uma viagem de prazeres sensuais. Quando vieram a se encontrar sozinhos em uma das casas, por motivo de viagem dos pais, ao embalo da voz de Ella Fitzgerald cantando They Can’t Take That Away From Me, toda a poesia, os sentimentos, a amizade, a sensualidade, fizeram-se no amor e na paixão de dois corpos que se entregaram ao prazer sexual pleno. Foi o primeiro de uma série de encontros cada vez mais frequentes. 

Você sabe o que é ter um amor?

Você sabe o que é ter um amor!

Você sabe o que é ter um amor. 

A vida dela estava devidamente viabilizada na inteireza desse amor. Vivia concomitantemente o presente e o futuro alvissareiro com aquele que a completava. O casamento. Os filhos. A ventura permanente do amor feminino. 

Ele se comprazia com a amizade, os carinhos e os gozos desses encontros. Eram-lhe extremamente prazerosos o fazer amor e a vida como iam levando.  Que o presente perdure enquanto dure. Assim pensava, honestamente, sem nenhum laivo de desonestidade, numa variante da frase famosa do poetinha, tantas vezes declamado por sua parceira. Para ela, no entanto, o entendimento do verso era quase o contrário do que sugeria: que seja durável enquanto eterno. 

Como tudo no Universo se desmancha no ar, passou a sentir uma grande afeição por uma colega da Universidade, que cursava Química Industrial e assistia algumas aulas com o pessoal da Engenharia. Começou a ter com ela encontros furtivos que os levaram a pensar em algo mais sério e casamento logo após a formatura. 

Num encontro com sua amiga de infância, contou-lhe o que estava acontecendo e necessariamente viria a ocorrer.  

Fechou-se em depressão profunda a pobre da menina. Como pode isso acontecer? Nós sempre nos demos tão bem! Eu e ele nascemos um para o outro. Que coisa estranha é isso a que chamam de amor. Não faz sentido! É inconcebível! O mundo não pode se desmoronar assim, ao sabor de vontades mutantes. O que será que essa moça tem que eu não tenho? Isso não está acontecendo! É inexplicável! O sentimento do amor não pode ser tão frágil, tão mutável, tão inseguro, tão efêmero, que permita outra pessoa se introduzir numa relação tão linda, de maneira tão inesperada, tão insidiosamente, como aconteceu. Eu nunca pensei que pudesse vir a acontecer comigo. Isso é coisa de romance, inventado por escritores de imaginação delirante. 

A vida, contudo, é mais criativa do que o mais inventivo dos escritores. Depois de alguns dias sem vê-lo, semanas talvez, provavelmente sendo evitada, ao sair de sua garagem dirigindo o carro viu a aproximação dele na calçada do outro lado da rua. Num átimo de descontrole, acelerou seu carro, rompeu o portão que ainda continuava fechado e o espremeu contra a parede do muro frontal. O impacto foi brutal e letal. 

Desatou agilmente o cinto de segurança, saiu ligeiramente do carro e, agachando-se, segurou nos braços o corpo já inerte. Os olhos sem vida fitavam fixamente os dela. Abraçava-o e beijava-o compulsivamente e falava mansinho, sussurrando, a seus ouvidos: você voltou? Veio para jamais voltar. Agora não o deixo mais. Veio para ficar. 

Não podem tirar isso de mim. Vem querido. Vem comigo. Vou guardá-lo para sempre só pra mim, no mais profundo de mim. Você não mais será de ninguém. Estará sempre comigo no fundo de minha alma. 

Quando chegou o socorro, furando o cerco dos curiosos, tiraram-no de seu colo e encaminharam-na para a Delegacia de Polícia mais próxima. Depois de receber os pais num mutismo absoluto, que passou a prevalecer, foi examinada e levada para um hospital judiciário. Sem responder a processo na Justiça diante de sua precária condição psíquica, viveu feliz, com exclusividade, num mundo criado só para si, com a grande paixão de sua vida.

 

Genserico Encarnação Júnior, 72 anos.

Itapoã, Vila Velha, ES.

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