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JORNALEGO

Nº 26, em 10 de Janeiro de 2003.

Conto inspirado na estrutura e na música da peça para piano de mesmo nome (Kinderszenen, op. 15), de Robert Schumann. Ouça a música (15’08’’) em [http://www.classicalarchives.com/schumann.html], item 7 dos Dez Mais (TopTen) 

 

CENAS DE INFÂNCIA

1 – De Povos e Países Estrangeiros

            Vieram de pontos diferentes e distantes deste país continente. São três graças, três amores, de três matrizes diferentes. O menor, a princípio, fica ressabiado com os estranhos do seu dia-a-dia. Logo, acostuma-se com eles. São iguais a todas as crianças da Terra, a despeito das múltiplas cores dessa única raça humana. Pertencem a esse singular mundo das crianças de todo o mundo. Tão iguais nas suas diferenças.

2 – História Curiosa

            A vida segue, levada e levando, o tempo passa, a gente passa. Quando menos se espera filhos e filhas viram pais e mães. Ser avô e avó é por vezes um acidente. Uma topada numa pedra do caminho! Avós! Sem se desvencilhar da preocupação com os filhos já começa a aflição com os netos. Ei-los, eventualmente juntos, por cima, por baixo, pelos lados, com sorrisos, choros, gritos, acidentes, disputas, muito barulho, demandas e...

3 – Pique-Esconde

            Na casa exígua de beira de praia dos avós, o corre-corre é constante. O sofá é cama elástica. As camas, debaixo delas, esconderijos. Os móveis, trincheiras. Todos os dias têm várias sessões de pique-esconde. A algazarra só termina quando golpeados pelo sono, após várias tentativas de resistir. Mas, afinal, quem há-de?

4 – Pedido Infantil

            O mais velho faz conchavos com o menor e planeja um pedido. O mais novo ainda não tem desejos mais complexos. Fazem pressão junto aos adultos para repetirem o passeio do ano passado. No verão, subir a serra é um agradável programa, pela temperatura amena e o frio noturno, pelo contato com a natureza, as plantas, as árvores, os bichos, os insetos, os pássaros. A vida solta com banhos de rio, cascata, piscina e mangueira. Tudo que não têm na cidade grande, onde vivem. Pedido aceito.

5 – Felicidade

            Na serra. A viagem é agradável. A subida, lindíssima. Da última vila até o sítio em que vão ficar, a estrada de barro é flanqueada por pastos – bois, vacas e bezerros de cartão postal - nos patamares mais planos, plantações de café nas encostas dos morros, hortas e árvores frutíferas. Casinhas humildes passam com acenos de seus moradores. Cachorros vadios atravessam o caminho. O sol é forte na altitude maior. Do alto, a vista do vale, no lado oposto, se perde ao longe. A estradinha desce íngreme e a seguir serpenteia em meandros apartando morros de matas atlânticas ainda virgens. A noite é calma e o silêncio é quebrado pela sinfonia de cricris, coaxos, silvos, pios. O escuro se desfaz com o luar e a cintilação dos pirilampos. A temperatura cai sensivelmente. “A casinha pequenina com gerânios em flor na janela” é a própria felicidade.

6 – Evento Importante

            É Natal! Assim como “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” que bom seria se o Natal fosse a comemoração do aniversário de nascimento de todas as crianças do mundo e do florescer de seu encantamento. Jesus nasceu há mais de dois milênios, mas desde muito tempo antes e de lá para cá, nascem milhões de “niños”, cristinhos anônimos, renovando a vida humana na Terra. Esse é o grande milagre a ser celebrado! Paz na Terra aos homens de boa vontade, para que eles cresçam saudáveis, felizes, confiantes!

7 – Sonhos

            A ceia improvisada teve peru assado, com passas e fios de ovos. Vinhos e sucos. Num círculo de três gerações, a conversa se estendeu até mais tarde, no sereno da noite. Entoaram-se canções. Os presentes foram distribuídos. O futuro aflorou. O que você vai ser quando crescer? Astronauta, bombeiro, caminhoneiro, piloto de avião, cientista, veterinário, ecologista, guarda salva-vidas... Novas e velhas opções da tenra gente olhando despreocupado o preocupante porvir dos adultos. A infância tem seus primeiros lampejos, embaçados, do que será.

8 – À Beira da Fogueira

            O frio noturno de verão no alto da serra permitiu a queima de umas achas de lenha e o fogo à meia-altura aqueceu os grandes e os pequenos encapuzados em seus colos. O fascínio e a energia do fogo, as exigências da digestão, por um período calaram as vozes suscitando pensamentos. Ao “intermezzo” silencioso seguiu-se a euforia de testar os presentes infantis.

9 – Upa-upa Cavalinho

            Montado em seu cavalo de pau, com cabeça de cavalo – olhos, boca e crina esvoaçante -, corpo de “cabo de vassoura”, rabo de rodinha a rodar pelo chão e pernas bípedes dela mesma, uma das crianças passou a trotar pelo gramado com relinchos compassados enquanto empinava o eqüino brinquedo.

10 – Quase Muito Sério

            Numa estocada veloz tropeçou e caiu batendo com a cabeça de encontro a uma pedra no canteiro de flores. A choradeira foi total e o espanto geral. As “estrelas” ficaram mais visíveis e o “galo” cantou. A preocupação fez cessar a farra e a festa. Faca comprimindo o “galo”, compressa de gelo na testa, gotas de arnica ministradas e esforços para manter a criança acordada, exato na hora do sono chegar. Aflição!

11 – Alarmante

            Impossível conter. A criança dorme. Os corações adultos batem aceleradamente. A respiração dela é lenta. Preocupa. Vigília. A criança dorme sono profundo. As outras também. O tempo escorre tiquetaqueante.

12 – Criança Dormindo

            A criança se vira. Acorda. Pede água. Fala articuladamente com os pais. Alívio. Volta-se para o outro lado da cama e dorme o decantado sono de paz de crianças dormindo. Deve estar sonhando com os folguedos de amanhã, com os beija-flores bebendo água açucarada nos vidrinhos dispostos no alpendre, nos brinquedos, nos anjinhos, eles próprios. Suspira por vezes.

13 – O Poeta Fala

            Fez-se silêncio e paz. O vovô, aprendiz de poeta, acostumado a prosopopéias e firulas literárias, a querer poetar bonito, o “poeta”, coitado, afasta-se. Solitário na madrugada pensa numa composição, com a simplicidade e singeleza de uma canção-de-ninar para expressar tais cenas. Ele tenta sem sucesso e se cala, rende-se, recosta-se na poltrona do carro, estacionado sob a copa frondosa e escura das árvores, liga o toca-CD e extasia-se a ouvir, repetidas vezes, o poema de Schumann.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES).

eeegense@terra.com.br

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