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ANO IX - Nº. 264, em 20 de dezembro de 2010. 

 

Fábula real

 

MINGAU 

 

            Nasci em Rio Branco, mais precisamente na Vila Acre, sou acreano do pé rachado! Vivia livre e solto, correndo naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras debaixo dos seringais. Por essa frase em itálico que me saiu assim de estalo, sempre desconfiei que levo jeito para poetar ou, quiçá, plagiar. Meu pai, Fidel, que Deus o tenha, cortejava a Doca, esnobando sua igual, a Olga. Amor impossível! Somos da estirpe dos Dachshund. Aquela, xará de sambista, do clã dos Fila Brasileiro, porte imponente, orelhas alertas em escuta, medindo quase um metro quando de pé nas quatro patas. Veja se pode o pai, aquele salsichão, quase réptil, se engraçar com aquele monumento canino de fêmea. Olga, intelectualizada e politizada, enciumada, sempre dizia: – “Você não está à altura (sic) daquela burguesona!” Paciente, esperava. Por fim, ele teve que descer para o real e se fixar em Olga, sua igual, e com ela cruzar. Assim eu nasci.  

Partilhava a chácara com meus pais, com Doca também, e vivia alegre com meus irmãozinhos, Cacau, Cutia, Bidú e Fidel Jr., todos marronzinhos, caramelizados por igual. Só eu nasci malhado, daí porque um dos meus pequeninos donos, filhos dos grandes donos da chácara, me chamava de “mingau com canela”, pois era branco com grandes manchas marrons. Acho que essa pigmentação foi fruto de alguma disfunção epidérmica, tanto é que, penso, tenha também afetado meus olhos. Eu tenho uma manchinha numa das vistas, o que por certo me levava a enxergar mal (suponho, porque nasci assim, nunca enxerguei diferentemente) e ficar com um olhar muito apreciado pelas gentes, especialmente as do sexo feminino. De infinita meiguice, cara de pidão, humilde, chorão. Eu abaixava um pouco a cabeça e olhava para cima, num olhar que, não sei por quê, o vovô da casa chamava de olhar oblíquo de Capitu. Pelo conjunto da obra era o cão mais cortejado do pedaço.  

Logo depois da ida dos meus donos para o Rio, para cursar doutorados (mas eles já não eram doutores?!) a durar dois anos de exílio forçado na Cidade Maravilhosa, passados seis meses, as crianças viram a saudade apertar e me fizeram entrar numa gaiola exígua e viajar milhas e milhas aéreas. Por fim, depois de horas, de uma conexão na Capital Federal, farejei a água brilhando... a pista chegando e vamos nós: pousar. Hoje, minha veia poética está solta! Sempre pensei em ser escritor! Chegou a oportunidade. Aproveitemo-la pois. 

            Morei durante quase meio ano num apartamento tímido, um duplex de altos e baixos no sentido físico desta expressão, sem contar com uma varanda onde eu pudesse me espalhar e ver o panorama que, por sinal, era belo: a enseada de Botafogo. Passeei algumas vezes devidamente preso a uma coleira, e tomava banho e me perfumava num pet shop junto com alguns cachorrinhos de madame. Ah! Se a mãe Olga soubesse disso! De carro fiz algumas incursões sempre a outros apartamentos onde mora a maioria das pessoas por aqui. Gostei mesmo é quando me levavam para o parque do Flamengo, aos domingos, aí eu me libertava um pouco, sempre vigiado pelos meus donos, para evitar brigas e latidos ensurdecedores quando topava com outros exemplares da minha espécie. Eu não sou muito sociável porque não sou urbano, diria até que peco quanto à minha civilidade. Sou cachorro de quintal, fuçador de buracos na terra, em busca de roedores. Meu DNA não nega. No Rio, quase só me deslocava de carro, mas (que pavor!), viajava encurralado aos pés da minha família humana e não via nadinha de nada. Do pouco que vi cheguei a observar até cachorrinhos de apartamento calçados de sapatilhas para que o calor do asfalto e das calçadas com pedras portuguesas não queimassem e ferissem suas patinhas. Pra mim isso beirava à frescura. Juro que jamais usei isso. Repeliria. Tá certo isso? Só me permiti vestir uma camisa do Fluminense quando o time se sagrou campeão brasileiro, mas isso é o de menos porque eu morava junto à República das Laranjeiras, reduto da torcida pó-de-arroz. 

            Dormia numa casinha de plástico na copa ou por vezes, usava um pequeno sofá na sala que eu o emporcalhei todo ao utilizá-lo para tirar minhas sonecas solitárias. 

            Sim, porque o pessoal da casa, com a exceção da empregada, quase não aparecia por lá. Os meninos tinham aulas de natação, de futsal, de judô, disso e daquilo, fora o horário normal do colégio. Descia todos os dias, de elevador (que passei a conhecer no Rio) para levá-los e buscá-los na condução contratada. Que vida mais estressante! 

            Meus grandes donos, os pais, viviam a estudar, e passavam grande parte do dia em suas ocupações doutorais. Minha companhia constante era a Marlene que me levava de dia, à tarde e de noite para passear no quintalzinho que ainda restou da construção do prédio, onde eu fuçava a terra e fazia minhas necessidades fisiológicas. Até nisso eu mudei, antigamente, lá no Acre, eu fazia mesmo era cocô e xixi. 

            Nos finais de semana é que eu dava um daqueles rápidos passeios já referidos quando os meus donos se divertiam a valer, num barzinho ou visitando alguém, sempre em apartamentos limitados.  Quando não me deixavam sozinho para assistir alguma partida, ao vivo, do Fluminense. Que vida! 

            É! O Rio de Janeiro pode ser muito lindo, principalmente na parte que eu habitava, pode ser ainda a Cidade Maravilhosa, mas eu gosto mesmo é do meu pedacinho de terra lá na Amazônia, sem os entraves de toda ordem dessa cidade grande. Todo mundo correndo, estressado, as crianças ocupadíssimas pela manhã, colégio à tarde, e voltar já no início da noite, comer, fazer os deveres de casa e dormir. Ah! E toma televisão e joguinhos eletrônicos! Eu sempre esquecido.  

            Vida boa é na Vila Acre. Perguntem aos meus pequenos donos onde eles querem morar! No Rio ou no Acre. E mesmo aos meus grandes donos. A cidade grande é muito dispersiva, especialmente esta. Fui-me embora para o Acre. Levaram-me os grandes donos que viram a minha angústia. Como pessoas caridosas que são providenciaram a minha volta.  

            Agora espero por eles no final do ano que vem. Espero que passe rápido esse próximo ano. Desejar-nos Feliz Ano-Novo neste fim de ano é desejar-nos um Próximo Ano-Novo bem curtinho. 

            Finalmente, desculpe-me, exigente leitor, se esta confissão não lhe agradou, pela simplicidade de sua descrição. Sabe, né, coisa de cachorros, uma pequena cachorrada! Paciência! Não sou o Quincas Borba e nem tampouco meu ghost writer passa perto do talento de Machado de Assis nessas patuscadas caninas.  

  

Sugestão de leitura correlata: O GUARDIÃO, clicando o Jornalego n° 40, na relação ao lado ou utilizando o atalho: http://ecen.com/jornalego/no_40_o_guardiao.htm

  

Genserico Encarnação Júnior, 71 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES)

jornalego@terra.com.br

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