Jornalego

 

Página Inicial
N° 360: O Presente é o Futuro
N° 359: Nave/ave partindo
N° 358:Sua Eminência Reverendíssima
N° 357: Não Dito
N° 356: Memórias de um Leitor
N° 355: Assim se passaram doze anos
N° 354: Ron Mueck
Nº 353: Fúria
Nº 352: Porta-vozes
Nº 351: Um filme e um livro
Nº 350: Bakhtin etc.
Nº 349: Boas Fadas Há
Nº 348: Uma História Incrível
Nº 347: Carta de Alforria
Nº 346: Pretérito mais-que-perfeito do futuro
Nº 345: 1930-1946-1964-1988 - V
Nº 344: 1930-1946-1964-1988 - IV
Nº 343: 1930-1946-1964-1988 - III
Nº 342: 1930-1946-1964-1988 - II
Nº 341: 1930-1946-1964-1988 - I
Nº 340: Especulações Conceituais
Nº 339:Discurso de Despedida
Nº 338: Plebiscitando-me
Nº 337: Francisco
Nº 336: Economia Política
Nº 335: Roda Viva
Nº 334: Eduardo e Mônica
Nº 333: Surfando a Onda
Nº 332: Bodas de Ouro
Nº 331: Gritos do Desassossego
Nº 330: O Papa e o Passarinho
Nº 329: O Tempo Redescoberto
Nº 328: Grifos do Desassossego
Nº 327: Desovando Poemas
Nº 326: O Sobrado Assombrado
Nº 325: Amor
Nº 324: A Realidade da Ficção
Nº 323: Explosões de Catedrais
Nº 322: Rendez-vous com Papai Noel
Nº 321: Nas Cordas da Minha Lira
Nº 320: Sessão de Teologia
Nº 319: Eros e Tanatos
Nº 318: A Caixa de Pandora
Nº 317: Sísifo
Nº 316: Prometeu
Nº 315: Novos Contos de Minha Autoria
Nº 314: Os Contos de Minha Lavra
Nº 313: Comparações Espúrias
Nº 312: Ainda com Ulysses
Nº 311: Ainda na Estrada
Nº 310: Na Estrada com Ulysses
Nº 309: Com Ulysses na Estrada
Nº 308: Doca
Nº 307: Melancolia
Nº 306: Amor de Novo
Nº 305: A Maldição de Ateneu
Nº 304: Barba em Cara de Pau
Nº 303: Admirável Mundo Novo
Nº 302: A Doutrina Kissinger
Nº 301: Poesia Moderna
Nº 300: Jornalego Dez Anos
Nº 299: Catecismo Capitalista
Nº 298: Alegria do Palhaço
Nº 297: Chinatowns
Nº 296: China
Nº 295: Os ginecologistas também amam
Nº 294: A Sétima Arte
Nº 293: Sexo Complexo com Nexo
Nº 292: O Legado de Apolônio
Nº 291: Empregos & Portões
Nº 290: Dodora
Nº 289: Envelhecer é para Macho
Nº 288: Borges, Swedenborg e Eu
Nº 287: O Mistério da Rua Pera
Nº 286: Ódio
Nº 285: Despojamento
Nº 284: Contestando o Senso Comum
Nº 283: Os Sobreviventes
Nº 282: Ode às Primaveras
Nº 281: Cinema
Nº 280: Platônico, Virtual, Onírico
Nº 279: Até que a morte os separe
Nº 278: O Socialista e a Socialite
Nº 277: Frio
Nº 276: Osama x Obama
Nº 275: Esperando Godot
Nº 274: Sarah Vaughan em Vitória
Nº 273: Assino em Baixo
Nº 272: Horror! Horror!
Nº 271: O Dia da Minha Morte
Nº 270: Folhetim - V - Final
Nº 269: Folhetim - IV
Nº 268: Folhetim - III
Nº 267: Folhetim - II
Nº 266: Folhetim - I
Nº 265: Onírica
Nº 264: Mingau
Nº 263: O Haiti é Aqui
Nº 262: Fé e Crendice
Nº 261: Reflexões ao Espelho
Nº 260: Meu Mulato Inzoneiro
Nº 259: Coetzee
Nº 258: A Solidão do Apolônio
Nº 257: O Candidato Ideal
Nº 256: Amazônia Amada Amante - II
Nº 255: Amazônia Amada Amante - I
Nº 254: Crônica, Livro, Sonho e
Nº 253: Fé e Razão
Nº 252: Vida que te quero Viva
Nº 251: Libertadores da América
Nº 250: Tema do Traidor e do Herói
Nº 249: Apanhador no Campo de Centeio
Nº 248: DNA Guerreiro
Nº 247: Brasília, Brasil
Nº 246: Cecília e Eu
Nº 245: O Fado de Fausto
Nº 244: Gnaisse Facoidal
Nº 243: Histórias Hilárias
Nº 242: Tia Amélia
Nº 241: Mensagens do Além
Nº 240: Vocação
Nº 239: Socialismo pela Culatra
Nº 238: Apolônio Volta a Atacar
Nº 237: Contrastes
Nº 236: O Sonho Acabou
Nº 235: Efêmero Demasiado Efêmero
Nº 234: Última Paixão
Nº 233: Contus Interruptus
Nº 232: Os Atores
Nº 231: Entre Coxias
Nº 230: Lançamento de Livros
Nº 229: A Dignidade dos Irracionais
Nº 228: Pena, Pena, Pena
Nº 227: Caros Amigos
Nº 226: Cartas Antigas
Nº 225: O jovem que queria ser velho
Nº224:O menino que não queria ser gente
No 223: Epílogo & Prólogo
No 222: O Deus dos Animais
No 221: Da Caderneta Preta
No 220: O Prisioneiro da Vigília
No 219: A Escalvada
No 218: O Muro
No 217: O Prisioneiro do Sonho
No 216: Jornal/ego - 7/70
No 215: Eros e as Musas
No 214: Um Sujeito Muito Estranho
No 213: O Lirismo dos Besouros
No 212: Tema de Gaia
No 211: Exa. Revma., Excomungai-me
No 210: Até Tu Brutus!
No 209: Cegueira Paradigmática
No 208: Dos Poemas Impublicáveis
No 207: Países Baixos
No 206: Que Delícia de Crise!
No 205: Assim se Passaram os Anos
No 204: Humano, Demasiado Humano
No 203: O Brasil vai virar Bolívia
No 202: Ensaio s/ a Cegueira e a Lucidez
No 201: ¿Por qué no Hablar?
No 200: O Tempo não se Bloqueia
No 199: Relatos de uma Viagem
No 198: O Tempo Bloqueado
No 197: Tempos do Futebol
No 196: Por um Tempo Ecológico
No 195: Pesos e Medidas
No 194: O Fascínio da Literatura
No 193: Bom Apetite
No 192: O Mural
No 191: Retrato de Mulher
No 190: Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
No 189: Existencialismo Caboclo
No 188: Danação
No 187: Saga
No 186: Redenção
No 185: Por que não Callas?
No 184: Destino
No 183: O Frade Ateu
No 182: O Retrato do Artista
No 181: O Retrato de minha Mãe
No 180: O Retrato de meu Pai
No 179: Mensagem de Fim de Ano
No 178: O Admirável Mundo Wiki
No 177: O Futebol da Integração
No 176: O Ser Obscuro
No 175: Uma Mulher e Uma Mulher
No 174: Um Homem e Um Homem
No 173: Cidadela Sitiada
No 172: Uma Mulher e Um Homem
No 171: Literatura de Apoio
No 170: Porque nao sou Religioso
No 169: Um Homem e Uma Mulher
No 168: Fogo Vivo
No 167: O Contrato Social
No 166: Humana Humildade
No 165: Espelho em Mosaico
No 164: Colcha de Retalhos
No 163: Infância
No 162: O DNA do Petróleo
No 161: Amor Ponto com Ponto br
No 160: O Moderno é Antigo
No 159: "Big Brother"
No 158: Nongentésimo Nonagésimo Nono
No 157: A Morte é para Todos
No 156: O Velório
No 155: Movimento dos Sem-Chapéu
No 154: Xarás
No 153: Amigo
No 152: Madame Hummingbird
No 151: Morte e Vida Severina
No 150: Capitalismo Global
No 149: Na Ponta da Língua
No 148: Pelas Costas do Cristo
No 147: Moral da História
No 146: Antes do Antes e Depois do Depois
No 145: Cerimônia do Adeus
No 144: Ode ao Sono
No 143: Ideologias
No 142: Reminiscências
No 141: Fé Demais & Pouca Fé
No 140: Biocombustíveis
No 139: Quarto de Despejo
No 138: Pavana para um irmão
No 137: Anorexia Eleitoral
No 136: O Mundo é um Moinho
No 135: Habitantes de Bagdá
No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
No 130: Vovó Maluca
No 129: De Causar Espécie
No 128: Lula vai Raspar a Barba
No 127: O Pregoeiro de Itapoã
No 126: A República dos Sonhos
No 125: O’
No 124: Rio de Fevereiro
No 123: Seu Boiteux
No 122: Loquacidade Onírica
No 121: Os perigos da literatura
No 120: Entre o céu e a terra
No 119: Globanalização
No 118: Nojo e Luto
No 117: Meu Caso com a Super Star
No 116: Da informação. Do conhecimento. Da sabedoria.
No 115: O Último Tango
No 114: Pelo Sim pelo Não
No 113: Curriculum Vitae
No 112: Eterna Idade
No 111: Guanabara
No 110: Corrupção, Corruptos e  Corruptores
No 109: Quem tem medo de MRS. Dalloway
No 108: O Equilibrista na Corda Bamba
No 107: Conto no Ar
No 106: Divagações Amazônicas
No 105: O Espírito Santo vai virar Bolívia
No 104: "Tristes Trópicos"
No 103: Super-Heróis
No 102: Ilusões Perdidas
No 101: Praia das Virtudes
No 100: Sem
No 99: Brainstorming
No 98: Il Papa Schiavo
No 97: Samba-Enredo
No 96: Decamerão
No 95: Comentários Econômicos
No 94: Batismo Laico
No 93: Boa Convivência
No 92: Tsunamis
No 91: O Drama Do DNA
No 90: Natureza Viva
No 89: Educação Sentimental
No 88: Transbordamentos e Pressentimentos
No 87: A Volta e a Volta de Washington Luiz
No 86: Eros & Onã
No 85: A Viagem
No 84: Soy Loco por ti America
No 83: Mote (I)
No 82: ACRE Telúrico e Emblemático
No 81: Bigode
No 80: Golpes Cruzados
No 79: Rio de Julho e Agosto
No 78: Estado Pequeno Grandes Empresas
No 77: Dinossauro
No 76: Vida Leva Eu
No 75: Quando pela Segunda Vez Lula Treme na Base
No 74: Quotas? Sou Contra!
No 73: Indignação
No 72: O Outro
No 71: Memórias Postumas
No 70: A Outra
No 69: Ave-Maria
No 68: O Enxoval
No 67: Satã e Cristo
No 66: O Buquê
No 65: Belo Horizonte 2
No 64: Belo Horizonte
No 63: O Dia Que Nunca Houve Nem Haverá
No 62: Eletra Concreta
No 61: Motim A Bordo
No 60: O Sul do Mundo
No 59: Conto de Ano-Novo
No 58: O Capelão do Diabo
No 57: Um Ano-Lula
No 56: Conto de Natal
No 55: Desemprego
No 54: Inflação
No 53: O Tempo Poetizável
No 52: Pendão da Esperança
No 51: O Terrorista de Itapoã
No 50: Vícios
No 49: Nós
No 48: Discurso
No 47: Especulação Retrospectiva
No 46: Meu Tipo Inesquecível
No 45: Especulação Prospectiva
No 44: Branquelinha
No 43: Cara a Cara Carioca
No 42: Aquiri
No 41: Iá! Ó quem vem lá!
No 40: O Guardião
No 39: Questão de gênero
No 38: O Fescenino Papalvo
No 37: Imigrações
No 36: A Vigília e o Sono
No 35: O Novelo da Novela
No 34: O Pianista
No 33: Fast Love
No 32: O Nada
No 31: Movimento
No 30: Bagdá
No 29: Literatura
No 28: Estações
No 27: Conto do Vigário
No 26: Cenas da Infância
No 25: FHC.
No 24: Fazendo Chover
No 23: Fênix.
No 22: Operação Segurança
No 21: O Mundo Encantado da Loucura
No 20: O Mundo Encantado da Velhice
No 19: O Mundo Encantado da Infância
No 18: O Povo no Poder
No 17: Monteiro Lobato
No 16: Álcool Revisitado
No 15: Ficção ou Realidade
No 14: Analfabetismo
No 13: De Cabeça para Baixo
No 12: Candidatos e Partidos
No 11:Ao Fundo Novamente
Extra: Acre Doce
No 10: Jacques
No 9: Carta ao Professor N.
No 8: Viagem a Outro Mundo
No 7: do Prazer
No 6: Os Fins e os Meios
No 5: O Tempo da Memória
No 4: A Mulher do Romualdo
No 3: Voto Aberto
No 2: Malvadezas
No 1: O Sequestro
O Autor
Download
Favoritos

 

ANO IX - Nº. 260, em 15 de novembro de 2010. 

Crônica histórica

 

MEU MULATO INZONEIRO 

 

Brasil, meu Brasil brasileiro.

Meu mulato inzoneiro.

Vou cantar-te nos meus versos...

 

Ary Barroso

 

Apolônio morreu!

            Não entrou bem de saúde na segunda metade do mês de setembro. Sentindo cansaço e palpitações, suspendeu as caminhadas e logo depois foi hospitalizado. Esse é o motivo por que não fechei o JORNALEGO do último dia daquele mês e fiquei travado enquanto durou outubro. Estava me preocupando e ocupando-me dele. Ia visitá-lo diariamente, passava as tardes com ele quando, mesmo assim, conversávamos bastante, sempre que a saúde lhe permitia. Saiu na véspera das eleições de 3 de outubro; no dia seguinte acompanhei-o à seção de votação. À noitinha, ouvindo os primeiros resultados da disputa eleitoral, o que o deixou bastante preocupado, pois acreditava numa vitória da candidata do PT no primeiro turno, foi vítima de um enfarte fulminante que lhe tirou a vida, na flor dos oitenta anos de idade. Senti e ainda sinto muito o falecimento do último dos meus amigos e, paradoxalmente, do mais novo amigo de infância.           

Ele se sentia autoconfiante com sua saúde. Já fizera, mas não mais fazia os exames periódicos, pois nada sentia. “Pra quê visitar os médicos?” “Eles andam atrás do meu plano de saúde.” “Vão prescrever uma série de exames e, em decorrência, vão achar algum problema e sugerir uma intervenção salvadora qualquer”.

            É também em sua homenagem que escrevo este texto, onde quase tudo foi ventilado por nós durante as nossas conversas peripatéticas no calçadão da Praia da Costa. Para mim, ele foi a verdadeira testemunha ocular da história recente da república brasileira!

            “O problema social no Brasil é um assunto de polícia”. Esse foi o célebre  pronunciamento do então Presidente da República, o paulista de Macaé, Washington Luiz, ex-governador do Estado de São Paulo.  Assim falou e disse, engomado em sua casaca de casimira inglesa, calça, colete, paletó, almofadinha, colarinho alto, cavanhaque e bigode alvíssimos. Aquela frase resumia o ideário do chefe de plantão da oligarquia café com leite, dita do alto da varanda no Palácio do Catete, aproximadamente a dez mil metros de atitude (sic), acima das nuvens brancas e algumas já escuras, da arraia-miúda, desta gente bronzeada, antecipando a tormenta que iria desabar por sobre esses brasís do início da década de trinta. 

            Transcorria, portanto, o ano de 1930, quando se comemoravam 108 anos da independência do Brasil e 59 anos da proclamação da República, tempo esse que ficaria conhecido pela alcunha de República Velha.   Nesse ano nascia em Portugal a menina Maria da Conceição Tavares enquanto, na cidade de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, foi dado à luz Apolônio Pereira Kuczynski (filho de mãe descendente de portugueses açorianos e de pai polonês), que viria a ser o meu personagem mais freqüente nestas esporádicas linhas do Jornalego.  

            A condução oligárquica dos destinos do país estava em discussão. Minas Gerais, liderada por seu governador Antônio Carlos, não mais queria se sujeitar ao autoritarismo paulista nas conduções da política e da economia nacionais. O país era um litoral só, cercado de imensas terras em sua hinterlândia, sem voz nem vontade, com a exceção mineira. Mesmo assim, restrito à faixa litorânea, quem queria comandar, e de fato comandava, os destinos da infante nação era a emergente força paulista baseada na riqueza do café. Às favas a federação, vivia-se o centralismo e as práticas daí decorrentes: eleições a bico de pena, justiça eleitoral frágil a mando dos poderosos, as mulheres e a grande massa analfabeta sem direito a voto, ausência de justiça trabalhista, enfim, a continuar assim, se perpetuaria ad infinitum o statuo-quo e o latinórum elitista. Mas como até o infinito tem seus impedimentos, o magma político começou a se mover liderado pelos governos do Rio Grande do Sul e da Paraíba a se juntar com os descontentes mineiros.  

            Uma nova eleição foi marcada pela oligarquia no poder que apresentou o candidato paulista Júlio Prestes para substituir o Washington Luiz. Seu opositor era o presidente (antigo nome dos governadores) gaúcho, Getúlio Vargas que seria doravante muito falado e muito recordado na história nacional. Claro, diante das circunstâncias eleitoreiras o Prestes venceu. Mas não levou. 

            Getúlio Vargas se rebelou, subiu com a gauchada e amarrou seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, na capital federal, o Distrito Federal de então, o Rio de Janeiro.  

            João Pessoa, presidente rebelde da Paraíba, foi assassinado num crime passional, explorado politicamente, e desceu à capital federal em esquife mortuário para aí ser velado, enterrado e se encontrar (simbolicamente) com as forças revolucionárias. Fê-lo em viagem marítima, acomodado em seu féretro, aportando nas capitais do percurso. Vovô Juca, então estudante do Ginásio São Vicente, devidamente uniformizado, foi participar do velório, com todos os seus colegas, a bordo do navio que aportara na baía de Vitória. Assim me contou.  

            O Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro aconselhou ao Presidente a se render, cantar vitória e avançar para a retaguarda, se retirando de mansinho da cena, vindo a exilar-se nos Estados Unidos por longo período enquanto durou o poder de seu oponente. Getúlio assumiu. Com ele começou a política de industrialização do país e uma nova fase da República, com maior foco na problemática social. No cenário internacional, convivia-se com a crise econômico-financeira na virada da década com o nosso grande irmão do norte a executar sua vitoriosa política do New Deal. 

            Getúlio, político matreiro e populista, foi levando como pôde o início do seu governo revolucionário. A elite ruralista paulista se retorcia sentindo saudades do poder. Veio a revolução constitucionalista de 1932 que botou a paulistada em armas, tendo sido debelada pelas forças governistas.  

            Era oposição por tudo que é lado, pela direita e pela esquerda, na disputa pelo poder, na prevalência de suas ideologias, tendo como pano de fundo um mundo em agitação que iria desaguar na guerra de 39 e nas aspirações de vingança e poder da Alemanha Nazista, acolitada pelo fascismo de Mussolini e o império japonês. A chamada Intentona Comunista de 1935, o estado dos ânimos e a conjuntura internacional levaram o país ao “inevitável” estabelecimento do Estado Novo, em 1937. A tentativa integralista de golpe, em 1938, reforçou uma ditadura, sob a tutela do próprio Getúlio que só iria terminar com o final da II Guerra Mundial, em 1945.

            A assim chamada “inevitável” ditadura, muito além de suas conquistas, foi uma página negra na história do Brasil, pelas perseguições, perda de liberdade, prisões, torturas, numa avant première do que iria acontecer mais tarde, sob o tacão dos militares, a partir de 1964. “O Estado Novo viria com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio”, diria seu genro, o Almirante Amaral Peixoto.  

            O que aqui interessa frisar é a mudança que se deu no Brasil, com a Revolução de 1930 e com a defenestração da oligarquia conservadora que dominava a nação.  

            Com a revolução de 30 começa uma nova fase na História do Brasil. Chamemo-la de “trabalhismo”, à falta de um rótulo mais inteligente. 1930 (com todas as suas mazelas daí decorrentes) equivale a 1808 (vinda de D. João VI para o Brasil), no que concerne a um novo passo rumo à modernidade em nosso país. 

            A partir daí foi criada a Justiça do Trabalho em 1939, bem como elaborada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. O Conselho Nacional do Petróleo, precursor da tomada pelo Estado da responsabilidade de explorar petróleo, foi criado também durante o Estado Novo.

            Durante esse período foram criadas, sob o patrocínio estatal, a Cia. Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional, bases de sustentação da nova fase industrial que se seguiria e que, mais tarde, viriam a ser privatizadas e vendidas a preço de banana. 

            Com a vitória aliada na guerra, em 1945, a democracia bateu às portas do Brasil, e Getúlio caiu. No entanto, elegeu o sucessor, seu Ministro da Guerra, o General Dutra, demonstrando a força política do que ficou conhecido como getulismo

            Getúlio volta ao poder, em 1950, pela força das urnas. Cria a Petrobras em 1953. A oposição não lhe dava trégua pela voz de seu tribuno maior, Carlos Lacerda. Acharam e denunciaram o diabo descobrindo, enfim, uma trama para matar o Lacerda, que corria à revelia de Getúlio.  Não lhe deram descanso. O presidente suicida-se em agosto de 1954, causando imenso clamor popular. Sua carta testamento é uma obra de arte e um diagnóstico claro sobre a situação político-econômica brasileira. 

            Nesse ano de 1954, fugindo à ditadura lusitana, chega ao Rio de Janeiro, a portuguesa Maria da Conceição. Aqui se viu pasmada. Saiu de uma fogueira para cair em outra. 

            É a vez do mineiro Juscelino que superou não só a tentativa de impedimento de sua posse, por parte das mesmas forças reacionárias de sempre, e também duas ameaças golpistas por parte de militares. Seu governo, à sua moda, foi uma aceleração do processo de industrialização nacional e o desbravamento do interior deste país continental, com a construção de Brasília e a mudança da capital, a despeito de muitas críticas que também sublimou.  

            O aqui rotulado de trabalhismo é irreversível! A oposição ataca. Não consegue vencê-lo democraticamente. É bem verdade que chegou às franjas do poder com a eleição do populista Jânio Quadros, cujo governo durou uns sete meses, se tanto. Em realidade o pensamento reacionário e conservador só vai chegar ao poder de fato, com a ditadura militar que durou pouco mais de vinte anos.  

João Goulart, Ministro do Trabalho do Getúlio e eleito vice-presidente do Jânio, assume a vaga de presidente, sob a forma de um governo parlamentarista. Não consegue, não teve tato, para levar à frente sua plataforma trabalhista e as famosas reformas de base. Caiu com um golpe militar, fortemente apoiado pela Igreja Católica, passeatas urbanas da classe média e conspiração dos EUA.

Nesse período autoritário surge, surpreendentemente, no coração de São Paulo a reação ao autoritarismo antidemocrático, Ressurge a força dos trabalhadores, reunidos em seus sindicatos, sob o comando de um retirante nordestino, logo encampada no âmbito do novo Partido dos Trabalhadores. Uma nova forma de trabalhismo, se é que podemos tratá-la assim. Lula foi extremamente lúcido quando disse: “só através da política a classe trabalhadora será vitoriosa em sua luta”.  

Em rápido resumo, passa a anistia, a constituição de 88, seguidos por uma série de incidentes que pareciam levar o país para o fundo do poço: a derrota das diretas-já, a morte do Tancredo, o governo Sarney, a eleição e impeachment do Collor, a privatização e o desmantelamento do Estado pela visão neoliberal, a discutível emenda constitucional da reeleição, até a quarta tentativa de eleger-se presidente do Lula, agora com sucesso. E sua posterior reeleição. 

Conceição estudou, lutou, foi exilada, voltou, esbravejou, elegeu-se deputada federal por duas vezes pelo PT, participou intensamente desta luta por vezes inglória em prol do povo brasileiro. Enfim, quando completou neste ano seus oitenta anos, no mesmo mês do aniversário do Apolônio, viu o seu país de adoção, finalmente, viver momentos mais felizes do que aqueles que, durante toda a sua vida brasileira, não tivera este prazer. Diferente do Apolônio, da mesma idade, pode comemorar seu octogésimo aniversário na plenitude vitoriosa de uma vida bem vivida e bem lutada. Apolônio sucumbiu por descuidar da saúde e se assustar com a possibilidade de reviravolta política em seu país natal.  

Agora, Apolônio, quem poderia imaginar, testemunhamos a eleição de uma mulher, subversiva (como a chamavam os militares no poder), presa e torturada no tempo da ditadura. Como estaríamos comemorando! Sim, porque, só contigo é que ousaria festejar, por causa da nossa identidade de pensamentos políticos. Não gosto de criar polêmicas com outras maneiras de pensar. 

Meu caro Apolônio, se você vivo fosse, estaríamos conversando sobre a luta de chegarmos (nós dois) ao ponto a que chegamos. Não com o empenho explícito da Conceição, mas desempenhamos o nosso pequeno papel. Estaríamos felizes, tão felizes como estou feliz sozinho, saudoso de seu companheirismo. Sempre derrotados em eleições presidenciais, finalmente chegaríamos a ver nossos sonhos eleitorais concretizados. E, se possível, daquele desejado país do futuro. Lembro-me de você ter-me contado sobre a vitória do Miterrand na França, quando imaginava o dia em que pudéssemos comemorar uma vitória igual aqui no nosso país. Era inacreditável, naquela oportunidade, que chegaríamos a tanto. No entanto, a vitória chegou e parece que com bons resultados e para ficar.  

            Agora é torcer para que o próximo governo continue a dar certo, prossiga na trilha que teve seu nascedouro no ano da graça de 1930 e que, com altos, baixos, baixas e baixarias, chegou até 2010. Que o próximo período de governo, entre outras coisas, sublime os indícios de corrupção que marcaram o que se esvai. Muito trabalho para a Justiça, com competência, é o que se deseja. Torcer também para que a bruxa, que anda sempre solta por aí, você bem sabe disso, não volte a nos perturbar, como, por exemplo, que nossa Presidente não seja impedida de governar, por incapacidade de saúde. Já bastou Tancredo! Vade retro! Porque aí seria o retrocesso, com essa coligação que lhe foi propícia para a eleição, que pode ser útil para a governabilidade, mas que por certo não será boa para a sucessão.  É igual a suplente de senador, ninguém votou no vice.  

            Lamentavelmente, Apolônio não viveu para ver novamente raiar a merencória luz da lua neste nosso país, “que tinha tudo para dar errado” na visão de alguns paranóicos e catastrofistas. “É que eles não conhecem este povo” já dizia JK. Contudo, a possibilidade de isso acontecer não está descartada. Cada eleição é um risco a correr, até, como se viu, pela possibilidade da existência de “fogo amigo”. 

            Apolônio baixou a guarda e acabou indo embora, sem a possibilidade de ver a aurora de uma nova experiência governamental a se iniciar brevemente.  

            2010 se liga umbilicalmente a 1930. Aquele repercute este, o corrente ano é caudatário da revolução de oitenta anos atrás. As  células-tronco embrionárias daquele cordão vital regeneraram o tecido podre que, vez por outra, foi gerado nesta trajetória de altos e baixos, obstáculos e precipícios, conquistas e desastres. Entre mortos e feridos, golpes, ditaduras, denuncismo, paranoias e medos, chegamos até aqui. Levaram-se de vencida a soberba bairrista, os preconceitos cristalizados e os mais recentemente plantados. E melhor do que tudo, sucumbiu (Até quando? Oxalá para sempre!) a visão neoliberal que gerou o recente atraso latino-americano e o desmantelamento de parte do Estado brasileiro. 

Descanse em paz, velho Apolônio.  Saudades! 

Vida longa, Conceição!

  

Genserico Encarnação Júnior, 71 anos.

Itapoá, Vila Velha, ES.

jornalego@terra.com.br

www.ecen.com/jornalego

 

                                          Hit Counter