Jornalego

 

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ANO IX - Nº. 253, em 30 de junho de 2010. 

 Crônica-ensaio

 

FÉ E RAZÃO 

 

 

            Tive que transpor dois obstáculos até chegar a este texto. O primeiro foi superar a vontade de escrever um conto ficcional, uma boa história, bem contada. Nada me dá mais prazer quando consigo tal proeza! O prazer da criação, da onisciência, da onipotência e da onipresença. Transformar-me num pequeno Deus no meu exíguo universo. Mas, desta feita, não pude contar com as musas porque elas não compareceram ao trabalho, mesmo sendo insistentemente invocadas. O segundo obstáculo foi a tentativa de tratar do tema afastando-me dele, despersonalizando o narrador, sem usar o antipático pronome da primeira pessoa do singular. Mas resolvi assumir o “eu” para ser coerente com o nome do jornal e mostrar minha cara no tratamento do assunto. Assim, evitar a fuga, por mais sutil que pudesse ser. 

            Vamos ao que importa. Foi muito oportuna a matéria do caderno Prosa & Verso, de O Globo, de 26 de junho passado, com o título: Extremismos da Fé e da Razão. Fez-me (re)pensar sobre o assunto, e é esse o exercício que proponho também ao leitor nesta oportunidade.  

            Inicialmente, vale fazer menção à ilustração que emoldurou o texto na página de face. De um lado, a imagem da escultura de Rodin, O Pensador, em sua posição clássica: um homem nu, sentado, de cabeça baixa, circunspecto, com os braços apoiados nas pernas e com o rosto apoiado pelo queixo em uma das mãos dobradas, cismando, cogitando. Do outro lado da folha, a reprodução da mesma escultura, agora de olhos fechados, introspectivo, com os braços também apoiados sobre as pernas e as mãos juntas na frente do rosto, em posição de prece, rezando, orando. Linda e muito sugestiva a composição das imagens.  

            A referida matéria que ocupou duas páginas e meia do citado caderno coloca como principais alvos de uma crítica veemente o famoso biólogo queniano-inglês Richard Dawkins (um dos meus gurus) e o jornalista inglês Christopher Hitchens, ambos na vanguarda da atual militância ateísta.  O primeiro com o sensacional livro, o único que li dos aqui citados: Deus, um delírio. O outro escreveu o livro Deus não é grande: como a religião envenena tudo (Ediouro). 

            A oposição a essa dupla é feita pelo crítico literário, também inglês, Terry Eagleton e pelo filósofo alemão Jürgen Habermas. Aquele tem-se servido muito bem da ironia, tendo inclusive criado o apelido “Ditchkins” para a parelha atacada. Não sei se é simplesmente uma fusão dos dois nomes ou se o eufemismo tem algum significado ou sugere alguma coisa na língua inglesa.  

            Eagleton será uma das atrações da próxima Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), e seu livro, ainda sem previsão de lançamento no Brasil (Reason, faith and revolution – Razão, fé e revolução) critica acerbamente “a apologia do pensamento racional, tão estreita e doutrinária quanto a fé dos fanáticos religiosos”. 

            O segundo grande interlocutor desse debate, o filósofo Habermas, após discutir sobre o assunto com quatro teólogos jesuítas, produziu um livro traduzido do alemão para o inglês com o título An awareness of what is missing, que eu traduziria livremente para Uma advertência de que algo está faltando No caso, pareceu-me que esse algo esteja faltando no campo da razão. Como se alguma coisa mais precisasse ser considerada no processo racional, o que escapa à racionalidade, para entender e explicar “o mistério inefável da fé”, como dizia um cântico religioso do meu tempo de garoto. 

            O que na realidade está sendo discutido nessa “briga de cachorros grandes”, metáfora não depreciativa, só para indicar o grande gabarito intelectual desses senhores, não é uma questão teológica: a existência ou não de Deus. O que se discute é o funcionamento da mente humana: a existência não de Deus, mas da necessidade humana do divino, do sobrenatural, do místico, enfim. Isso é uma questão filosófica e psicológica. 

            Aí está a História para provar essa necessidade. Tantas experiências revolucionárias foram feitas no sentido de abolir a religião, a fé religiosa e o misticismo dos povos. Todas deram com os burros n’água. O Iluminismo, a Revolução Francesa, a Comunista, a Cubana, acredito mesmo a filosofia comtista (de Augusto Comte) cujos princípios estiveram presentes na criação de nossa República e que fizeram perpetuar na bandeira nacional uma parte do seu lema principal. Expurgando pudicamente o Amor, restaram somente a Ordem e o Progresso. Por fim, lembram-se de Marx: “A religião é o ópio do povo”? 

            E olhem-na aí, gente, a religião em grande estilo: imperando neste tempo de aparente falta de ideologias, com inúmeras seitas e fundamentalismos do pior estilo. Este é um assunto que deve ser considerado por nossas democracias liberais, no processo da própria discussão de como melhorar nossos atuais regimes políticos para saber lidar com essa necessidade humana. 

            Conclusão desta nossa crônica ensaística, não explícita no artigo mencionado: a necessidade da fé, do místico e das religiões é inerente à mente humana. Isso, absolutamente, não esclarece o mistério da existência ou não de Deus, ou do divino, em geral. Não é a mente humana que vai criar Deus porque ela necessita da figura divina. Raciocinando melhor, acredito que foi mesmo o homem que criou Deus, por força de sua necessidade; e não o contrário como nos ensinam as religiões. Assim, a religião é uma expediente comportamental das pessoas. Não mais do que isso. 

            Um parêntese: ser crente ou ser ateu, ambas atitudes são produtos de  atos de fé. Não se pode provar nada, nem uma coisa nem outra. Assim, seria melhor aos que se dizem ateus que se autodenominassem agnósticos, isto é, não possuem nenhuma evidência da existência do divino. Logicamente que não valem as evidências fantasiosas, românticas ou idealistas de se associar um lindo pôr do sol, o alvorecer do dia, uma bela flor ou a perfeição de um bebê à obra de Deus.

             Retomando ao raciocínio anterior, a necessidade do místico no gênero humano não quer dizer que, individualmente, ninguém possa viver sem religião ou deixar de acreditar no divino. Não, absolutamente não. Pode-se perfeitamente viver sem nenhuma crença no divino. Principalmente enquanto esse hipotético indivíduo não precisar do consolo e do amparo da religião, por exemplo, na desventura de ser alvo de uma doença terminal. Mas isso não prova nada, é outro assunto que só demonstra a fragilidade e a fraqueza do ser humano. 

            Uma coisa importante derivada da fé é o milagre. Acredito piamente nos milagres. A fé desencadeia um processo de autossugestão que pode muito bem resolver algum problema intricado dos crentes. Agora, não é a fé que vai criar a expectativa de vida depois da morte e outras ideias desse teor. Isso carece de comprovação seja para o crente, seja para o ateu. 

            Um episódio hilário dessas últimas colocações foi a frase que encontrei num plástico adesivo no vidro traseiro de um carro: “Reencarnação, uma questão de justiça”. Como se o conceito de justiça do proprietário do carro fosse provar ou provocar o fenômeno da reencarnação. 

            É essa a conclusão desse exercício de repensar. Acho que dei um passo adiante na minha visão sobre o assunto. Conclui que a razão deve levar em conta esse projeto pós-metafísico do filósofo Habermas. Quanto aos defensores do ateísmo, o que fazem é um movimento político que me parece válido e acima de tudo corajoso. 

            Os autores defensores do ateísmo, aqui citados, discutem a existência divina e, por consequência, rechaçam a fé no sobrenatural e as religiões. Consideram perniciosas as religiões porque, dada a sua necessidade, não é raro extorquir os seus seguidores, como também o fato de que a concorrência religiosa gera a semente de muitos conflitos e guerras, como comprova a História. Os defensores dessa fé, nessa matéria jornalística, simplesmente a defendem sem esboçar a mínima defesa sobre a existência de Deus. É, pelo menos, o que deu para entender lendo o conteúdo limitado do exposto. Não sei até onde vai o desenvolvimento das ideias contido nos seus livros, já que não os li. 

Só a razão pode conhecer o que falta a ela. A razão deve considerar a fé da humanidade como uma necessidade inerente dela, não o objeto da fé, mas a liturgia da fé. Nessa liturgia são indiferentes as várias concepções do que seja a divindade. 

 

Genserico Encarnação Júnior, 71 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

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