Jornalego |
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ANO VIII - Nº. 247, em 30 de abril de 2010.
Crônica BRASÍLIA, BRASIL
Nesta data o JORNALEGO completa seu oitavo ano de existência. Para comemorá-lo uso como tema desta edição outro aniversário: o cinquentenário de Brasília, nossa capital federal, festejado brilhantemente pelo povo brasiliense (que eu prefiro chamar de candango, em homenagem a todos que a construíram) no dia 21 de abril, dia de Tiradentes. Durante as comemorações do aniversário e nos registros da mídia, não foi feita nenhuma alusão aos primeiros precursores da mudança da capital para a hinterlândia brasileira. Uma informação dá-me conta que desde o Brasil Colônia, o Marques de Pombal já imaginava a capital no interior do país. Outro que assim pensava era o Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrade e Silva. Teria sido ele o criador do nome Brasília. Mas foi o Marechal Floriano Peixoto, segundo Presidente da República, quem constituiu uma comissão para estudar a transferência da capital para o planalto central. As conclusões dessa comissão levaram os constituintes de 1891 a introduzir o assunto na primeira constituição da República (vide nota de rodapé), o que foi repetido pelas constituições subsequentes. Portanto, a ideia de Brasília é acalentada há muito tempo, desde a colonização, passando pelo Império e chegando à República. Depois, lógico, toda a honra e toda a glória para o presidente Juscelino Kubitschek, o grande líder de sua construção que, segundo o jornalista Mauro Santayana, ainda como governador de Minas Gerais, na esperança de ser Presidente do Brasil, já imaginava ser essa uma das grandes obras de seu governo, caso fosse eleito. Também honra e glória a Lúcio Costa, seu urbanista, a Oscar Niemeyer, seu arquiteto, a Israel Pinheiro, o administrador do empreendimento e a toda a legião de candangos que a construíram. Candangos, entendidos aqui, como todos os que participaram dessa aventura, sejam lá em qual função. Um dos meus irmãos se formou em engenharia civil em Vitória no final do ano de 1967 e, no dia seguinte, pegou um ônibus para Brasília. Participou da construção de 400 apartamentos residenciais na nova capital. Telefonei para ele no dia 21, cumprimentando-o pela efeméride, na qualidade de candango que fora, na consolidação da cidade. Sim, foi uma aventura que deu certo, a despeito dos grandes custos envolvidos. Os benefícios, no longo prazo, os superaram. O século XIX já testemunhara a ocupação de toda a extensão do litoral brasileiro pelo povo. Brasília propiciou que o século XX fosse marcado como o da conquista do centro-oeste de seu território. Que o atual século XXI seja conhecido como a ocupação racional, ecológica, social e humana da Amazônia, tão ambicionada pelo mundo. Brasília é a expressão material de um grande país e de uma grande nação. Que país construiu, fez nascer do nada, quatro grandes capitais, do final do século XIX e no decorrer do século XX? Refiro-me as planejadas Belo Horizonte, Goiânia, Brasília e Palmas. Sempre na direção do ocidente, inicialmente com BH, mais a oeste com Goiânia, depois, rumando para o norte com Brasília e, mais acima, já adentrando na região amazônica, com Palmas. Todas visando à inserção no planalto central e no cerrado brasileiro e apontando para a última fronteira do imenso território. Notável! Brasília também foi a emulação para a criação dos estados do Tocantins e do Mato Grosso do Sul, bem como o portal de entrada terrestre para a Amazônia, para os países vizinhos e para a costa do Pacífico. Sem o ufanismo de Afonso Celso, sem a poesia parnasiana de Olavo Bilac, ou ainda, sem a música-exaltação de Ari Barroso, quero enaltecer este país de que todos devemos orgulhar-nos. Brasília é um marco e a materialização desse orgulho. O Brasil hoje vive um grande momento que foi forjado por uma série de acontecimentos positivos, embora por outros tantos negativos, onde Brasília se destaca como grande marco. Contudo foi a recuperação suada da democracia e a continuação democrática do país, neste último quarto de século, que nos levaram a esta situação boa e alvissareira. Assim, esperamos superar os obstáculos e os desafios futuros. E são muitos! Voltando a Brasília. Morei seis anos por lá e senti a cidade como nenhuma pessoa que por ali transita em viagem de negócios ou de turismo. Quem morou e mora na cidade a adora. Quem não gosta de Brasília é porque nunca morou lá. O que caracteriza e estigmatiza Brasília é o poder, mas outra cidade, e maior, está por trás disso. Seu clima bom, sem poluição, seco em meados do ano, mas de temperatura amena ao longo de todo ano, principalmente às noites. Bom nível cultural. A maior renda per capita do país. Sentimento comunitário. Costumes civilizados. Vida pacata. Ah! O céu de Brasília! Costumo dizer que o Brasil tem três cidades cosmopolitas: Rio, São Paulo e sua Capital. Não vou tocar em suas mazelas. Brasília, tal e qual o Brasil. De suas miseráveis periferias. Das invasões e das grilagens de terras. Quando eu cito as periferias não me refiro às grandes Regiões Administrativas, conhecidas como “cidades satélites”: Taguatinga, Ceilândia, Guará, Sobradinho, já estão consolidadas. Para quem não sabe, os dois primeiros são tão populosos e grandes quanto Vitória e Vila Velha, aqui no Espírito Santo. Uma dessas mazelas, da qual decorreram outras tantas, é a autonomia política que foi dada ao Distrito Federal pela Constituição de 1988. A população brasileira e os constituintes estavam saindo do porre da ditadura e sentiam-se embriagados com o sentimento de democracia. Daí advieram alguns erros. Em minha opinião, um deles foi essa tal autonomia que levaram populistas, demagogos e bandidos a dominarem politicamente a Capital Federal. Já passei da idade de ser laudatório. Aprendi com o conterrâneo Rubem Braga que a crônica deve ser enxuta; e o cronista contido. Mas, como este texto é comemorativo das duas efemérides aqui citadas, nesta oportunidade são permitidos alguns excessos de louvor. Continuemos, portanto na caminhada democrática e na da melhoria deste país maravilhoso. O Brasil está pronto para vir a ser a primeira grande civilização multirracial dos trópicos, o grande sonho de Darcy Ribeiro. Maria da Conceição Tavares prefere “democracia” em vez de “civilização”, baixando o tom deslumbrante do sonhador. Como também “pronto” não quer dizer que tudo esteja “perfeito”. A realização desse sonho é perfeitamente racional, embora não destituído de emotividade. Não baixemos a guarda. Abaixo, sim, as críticas com os ranços preconceituosos, eivadas de inferioridade e de pensamentos colonizados. Compreendamos a realidade, principalmente em sua contextualidade histórica, e não nos impressionemos com as comparações descabidas com países tidos como modelos. Mantenhamos alta a nossa autoestima. Assumamos nossa peculiar e multifacetada identidade desse país continente. Viva o Brasil! Viva Brasília! Viva o Jornalego! Viva eu! Viva tu! Viva o rabo do tatu!
NOTA DE RODAPÉ: Constituição Federal de 1891, a primeira da República: TíTULO I Da Organização Federal DISPOSIÇÕES PRELIMINARES Art. 3º - Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabeIecer-se a futura Capital federal (*). (*) O atual Distrito Federal tem menos da metade dessa área.
Genserico Encarnação Júnior, 70 anos. Itapoã, Vila Velha (ES)
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