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ANO VIII - Nº. 246, em 20 de abril de 2010.
Conto CECÍLIA E EU I Em 22 de novembro de 1950, nasceu Cecília, minha única irmã. Não tive mais irmãos. Sou cinco anos mais velha do que ela. O nome lhe foi dado porque nasceu no dia da santa xará. Afinal, quem é xará, ela ou a santa? Nesses cinco primeiros anos de minha vida sem ela, sentia uma solidão imensa, vivia introspectivamente em meu mundinho interior de criança, não tinha amigas e não freqüentava a escola. Foi quando ouvi dizer que mamãe ia ganhar um bebê. Eu fiquei radiante! Queria uma irmãzinha, um nenê só pra mim, pra eu brincar, pra dividir com ele, preferencialmente com ela, o meu mundo fechado. A rigor, eu mal falava, não sabia me comunicar com as pessoas, mesmo com mamãe e, eventualmente, com o meu pai, quando ele raramente parava em casa. Acredito que possuía uma racionalidade condizente com a idade. Mas não expressava o que pensava. Quando queria uma coisa, chorava, berrava, mas não articulava palavras. Quando balbuciava alguns sons, ninguém me entendia. Aí eu me recolhia mais. O nascimento de Cecília foi para mim como o descobrimento de um novo mundo. Minha vida se transformou, passei a sorrir e só ficava ao lado do seu berço, olhando para aquele bebezinho lindo, extasiada quando aquela coisinha mimosa sugava o peito da mamãe. O nascimento se deu em nossa casa, com a ajuda da parteira vizinha e eu ouvi, assustada e ansiosa, o seu primeiro choro. Depois, presenciei o primeiro banho, com aquela surpreendente linguiça escura pendurada na barriga, a primeira roupinha rendada que usou, todos esses cuidados que cercam uma criança recém-nascida. Duas semanas mais tarde eu lhe ofereci coxinhas de galinha, um dos meus petiscos prediletos, pensando que lhe estivesse fazendo um grande favor. Descobriram a tempo de evitar o desastre e ralharam muito comigo. Eu me refugiei num cantinho do meu quarto e passei horas pensando no autocastigo, sem atinar por quê. Passei a lhe oferecer meu peito, sem seio, sem leite, que ela recusava. Assim brincava com ela. Só brincava com ela. Passava os dias inteiros com ela. Cuidando dela. Ela, ela, ela. Era o centro de minha vida. Nossa mãe adorava o meu carinho e meu cuidado por ela. Ensinei-lhe a andar. Quando começou a falar eu também soltei minha língua. Foi Cecília que me levou pro parquinho em frente de casa pra com outras crianças brincar. Fui pro colégio com ela. Eu com dez anos. Ela com cinco. Sentávamos juntas à mesma carteira de uma escolinha pequena, na própria casa de D. Lulu, a professora. E assim completamos o curso primário. Eu destoava do tamanho dos nossos poucos coleguinhas. Mas, por outro lado, era mais esperta do que todos. Por exemplo: sabia me guiar bem pelo trajeto que nos levava e trazia da escola, sem ajuda de adultos, pelas calçadas de uma cidade ainda pacata. Era, portanto, sob a minha guarda, de mãos dadas, que Cecília ia e vinha. Não me separava dela. Isso só se dava quando eu ia ao médico e ela ficava em casa. Não sabia pra que eu ia tantas vezes ao médico. Fazia muitos exercícios lúdicos no consultório dele e tomava muitos remédios. Cecília não precisava nada disso. Aos poucos, com os contatos constantes com Cecília, sua alegria, sua energia, sua esperteza e aquela algaravia, o relacionamento com os amiguinhos dela, agora nossos, que ela levava para casa ou com eles brincávamos no parquinho, eu fui ficando também mais alegre, mais sociável, mais loquaz e até fui promovida na escola, para uma classe mais adiantada, separando-me de Cecília. Foi um desabrochar na minha vida. Na minha adolescência, ela, com dez anos, já me acompanhava às matinês dos cinemas, às novenas da igreja e sempre me elogiava quando estreava um novo vestido ou me encorajava nas audições de piano em que eu participava morrendo de medo de errar, tímida que sempre fui, e, de fato, por vezes errava. Sua companhia me foi milagrosa. Ajudou-me a alçar o meu voo solo. Terminei meus estudos básicos e ingressei no curso de psicologia. Queria entender melhor a evolução de minha vida. Do casulo inicial fechada em mim mesma até me libertar e comportar-me como uma pessoa normal. Ela testemunhou e aprovou o meu namoro de adolescente que resultou em casamento. Casei-me e tive uma vida profissional muito boa. Sempre com Cecília ao meu lado, me apoiando, me incentivando, me libertando de minhas amarras, com sua alegria, simpatia e amor. Com muitas provas recíprocas de amor, vivíamos a nos abraçar, num transbordamento de carinhos mútuos, que não tínhamos por parte de nossos pais. Meu marido foi transferido e com isso tive de mudar de Estado. Senti muito a falta da minha terra natal, dos parentes e principalmente da companhia de Cecília. Mas achei tudo muito válido para o enriquecimento de minha vida pessoal. Tivemos filhos. Dois rapazes bonitos e sadios. Depois ela se casou, meus pais morreram, e acho que não interessa mais contar nossa vida, de tão normal, igual à de todo mundo. O que vale dizer é que de um início tão precário, não muito esperançoso, consegui me estruturar psicológica e profissionalmente, para o que contei com a preciosa participação de Cecília. Bem, vamos ficando por aqui, mesmo porque, que me desculpem os leitores, a história não é bem essa.
II
Cecília é uma figura que nunca me poderia faltar. Mas faltou. Minha querida maninha morreu. Morreu há quase sessenta anos! Cecília, minha irmã real e personagem fictícia, é uma especulação, ela não existe, nunca existiu, está a existir somente na minha cabeça como personagem literária. Cecília, natimorta, só viveu vida intrauterina, não viu a luz da vida. Neste ano, em novembro, estaria completando seu sexagésimo aniversário. A verdade é que mamãe ficou traumatizada com o parto frustrado. Ficou muito debilitada, de cama. Quem cuidava de mim era uma tia solteirona carrancuda, ríspida, introspectiva, sem carinho para dar. Mamãe morreu logo depois. Meu pai sumiu, casou-se outra vez e eu continuei a morar com a tal tia. Com a morte dela, passei a ser adotada por uma clínica especializada, onde vivo até hoje. Continuei minha vida fechada em mim, no casulo intrauterino de mim mesma. Igual a uma natimorta para a vida. Este conto é uma declaração de amor e de saudade. Não da saudade de uma ausência muito sentida, mas de uma presença que nunca existiu, mas que eu posso sentir agora escrevendo este texto. A história de alguém com quem eu poderia dividir a minha vida de filha única, sair do meu casulo e romper com o meu cordão umbilical. Nada do que contei acima me aconteceu. A única saída que encontrei para viver foi a literatura. Ler e escrever. Sou autista. Tornei-me uma escritora autista. Só consigo me comunicar através da minha precária escrita. Afinal, observo que todo escritor é meio-autista. Eu sou uma autista meio-escritora. Só me liberto dessa cela em que me encerro, imaginando o que foi, o que seria, o que será, por meio da fresta da literatura. Neste caso, sou também uma personagem de mim mesma. E assim, tenho meus poucos momentos de liberdade. Dessa maneira, continuo levando a vida como uma nova das tantas versões de lendária Scherazade, prisioneira do meu senhor sultão, para poder sobreviver às Mil e Uma Noites.
Genserico Encarnação Júnior, 70. Itapoã, Vila Velha (ES)
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