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ANO VIII - Nº. 240, em 10 de fevereiro de 2010.

 

Conto

VOCAÇÃO

 

Row, row, row your boat

gently down the stream.

Merrily, merrily, merrily!

Life is but a dream.

(Canção popular americana)

 

 

            O quintal de sua casa dava para os fundos da igreja. Seu avô, depois da aposentadoria e da viuvez, passou a morar com eles e a frequentar todos os ofícios religiosos que ali aconteciam. Ficou cada vez mais carola à medida que via o fim da vida se aproximar. Muito mais do que nos seus tempos de atividade como funcionário público municipal. Fazia parte da irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição. 

            Contava ao neto histórias bíblicas e a vida de santos, que fascinavam o pequeno. Carregava o menino para as missas, ladainhas, procissões e adorações do Santíssimo. Transformou-o em coroinha. E mais: incutiu naquela cabecinha idealista e romântica a vocação de sacerdote. Os pais nada diziam, eram um tanto ausentes, deixavam a educação religiosa do menino aos cuidados do velho. 

            Naquela época, na cidadezinha pacata do interior do Espírito Santo, só existia escola de curso primário. Quando terminou esse período, foi morar na casa de umas tias solteironas em Vitória, passando a estudar no Ginásio dos padres Salesianos, onde também exercia as funções de coroinha.

            Completado o ginásio, os padres, sabedores de sua intenção, o que não era segredo para ninguém, providenciaram sua transferência para o Seminário Salesiano de São João Del Rey, na vizinha Minas Gerais. Começou bem, interessado pelos estudos (era aluno brilhante) e respirava os novos ares das alterosas que lhe fizeram muito bem. Simpático e sociável chegou mesmo a conhecer algumas garotas que o achavam um gato. Em suas andanças até o Correio, agora exercendo a função de encarregado da correspondência do Seminário, ia três vezes por semana ao centro da cidade. Aos domingos e feriados também escapulia com algum colega para um passeio pelas redondezas. Essas saídas propiciavam-lhe travar conhecimento com o povo do lugar. 

            Nessas andanças ficava interessadíssimo pela beleza das meninas e pela criatividade das mães e costureiras na confecção dos seus vestidinhos domingueiros. Os “estrangeiros” do seminário chamavam-nas de “minhocas” (da terra). Chegou até a flertar com uma ou outra, era assim que se dizia, com conversinhas nos portões de casa e nos passeios ao longo do riacho que corta a cidade. Não usavam batinas nessas incursões: imagina! Só a vestiam dentro dos muros do Seminário. Havia mesmo possibilidade de alguma pegada; o que jovens, e principalmente as jovens, nessa idade não fazem superando quaisquer obstáculos! Mas ele era tido como respeitador, as mães até gostavam desses papos, pensando que pudessem ser mais elevados do que os dos rapazes da cidade. Eram poucos esses jovens da terra, a grande maioria ia estudar em Belo Horizonte e a cidade, digo, as meninas ficavam mais disponíveis. 

            Com o tempo, na calada da noite, no silêncio de sua cela (que repartia com um companheiro) pensava muito em sua vida futura como padre. Passaram-se os primeiros anos, ele voltava sempre à sua terrinha natal, em tempos de férias, revia os pais, o avô (sempre muito interessado em seus progressos no Seminário) e os colegas de infância. A maioria deles também já tinha saído para Vitória e voltavam a se encontrar nos finais de ano. 

            Ao completar o quarto ano de Seminário, depois de muito ruminar sobre sua vida, voltou à sua casa para as férias anuais. Seu avô estava nas últimas. Durou pouco. Morreu quem o incentivava a prosseguir na carreira eclesiástica. Durante o período final da vida do avô, teve tempo para decidir o que realmente queria da vida. Ou melhor, o que não queria. No dia do enterro do velho simpático, pegou seu terço pessoal, que havia ganho no Seminário e, delicadamente, solenemente, à vista de todos, entrelaçou-o nas mãos cadavéricas do velho, na noite do velório, com o que foi enterrado. A família achou esse ato de grande simbolismo, de afeição pelo avô e de refinada fé cristã. 

            Terminadas as férias, não voltou mais para o Seminário. 

            Sua educação, nas Alterosas, foi primorosa, encerrando o ciclo correspondente ao Curso Colegial de então. Estava pronto para ingressar numa universidade. Começou assim o discurso de seu pai, um simples funcionário da agência de Correios local. Engenharia era o curso da moda e Vitória tinha inaugurado a sua Escola Politécnica. Para atender a insistência do pai, numa fase em que o jovem geralmente se encontra perdido quanto ao que fazer, submeteu-se ao vestibular e foi bem-sucedido, vindo a fazer parte de um seleto número de acadêmicos, muitos vindo de fora do Estado, principalmente da Bahia.  

            O pai não cabia em si de contentamento, vendo o filho com a cabeça raspada, por força do trote, de boina azul, com um E de engenharia estampado na parte frontal. Era a sua realização, seu garoto, seu alter ego. O rapaz passou a ser duramente assediado pelas meninas, não tendo se fixado em nenhuma. 

            Pronto! Sua carreira estava assegurada, pensava o pai. Daqui a cinco anos, ele se forma, faz concurso para uma empresa estatal, casa-se, tem filhos, constrói uma bela casa, compra um carro, tá feito. Não precisa mais pensar em nada. Pode levar os meninos à Disney World. Ver o Papa em Roma. E aposentadoria gorda assegurada.  

            A primeira parte desse planejamento foi perfeitamente concluída. Bela festa de entrega dos diplomas, baile de formatura, quando dançou com a mãe e a prima, que lhe fez as vezes de namorada na valsa das casadoiras. 

            A Engenharia civil, contudo, pela objetividade dos cálculos e a concretude dos seus produtos, a ausência do artístico na atividade de construção que, talvez, pensava ele, pudesse ser o campo da arquitetura, não atendia às suas aptidões e nem preenchia sua busca pelo belo. 

            Logo depois da passagem do ano, morreu-lhe o pai de um acidente vascular agudo. Muita dor. Mãe desconsolada. Ele, o filho, pensando... Durante o velório, sem a atenção do ralo pessoal que por ali ficara para passar a noite, ele tirou do bolso um envelope, onde se encontrava dobradinho o diploma de engenheiro, e, sorrateiramente, enfiou ao lado do caixão, por debaixo das flores que o enfeitavam. ”Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera*”.   

Nunca exerceu a nobre profissão de engenheiro, não teve aquela vida idealizada por seu pai. 

            Foi quando conheceu um jovem, empresário competente e ativo da área de confecções que começava a dar os primeiros passos, junto com outros ousados empreendedores, no polo de confecção da Glória, em Vila Velha. 

            Papo vai, papo vem, ficou empolgadíssimo com os mirabolantes planos de seu novo amigo e entrou de cabeça, junto com o parceiro, na execução dos seus sonhos. Seu dom para o desenho, aprimorado na Escola de Engenharia, fez com que ele se quedasse na concepção das vestimentas femininas, enquanto o outro tocava o barco, a empresa, os negócios. Este chegou a fazer parte da elite industrial do Estado, tendo participado da direção da Federação das Indústrias local.  

            A empresa vicejava. Os modelos eram aprovados pela clientela. Imediatamente, com o patrocínio da Federação e a sua exposição nos eventos promovidos pelo nascente polo de vestuário, nosso herói passou a sobressair e a ser respeitado nacionalmente como estilista. Daí para o reconhecimento internacional foi um pulo. 

            Mudaram-se para São Paulo e são figuras badaladíssimas nas Fashion Weeks de lá e do Rio e dos acontecimentos do gênero por esse mundo de Deus. Estão ricos. Felizes da vida. Tornaram pública a sua ligação afetiva, tendo inclusive adotado um casal de lindas crianças, cuja educação vem sendo, temporariamente, monitorada pelo Conselho Tutelar da cidade de São Paulo. Almejam agora a oficialização da união, assunto que está sendo chocado no Congresso Nacional até virar lei.  

É uma questão de tempo.  Esperam tranquilamente a realização desse outro projeto pessoal. Enquanto isso eles continuam...

 

...a remar a canoa,

gentilmente, ao sabor da corrente,

até que possam completar  

o sonho de suas vidas.  

 

 

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* Augusto dos Anjos

  

Genserico Encarnação Júnior, 70 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

www.ecen.com/jornalego

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