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ANO VIII - Nº. 239, em 30 de janeiro de 2010.
Ficção ou realidade?
SOCIALISMO PELA CULATRA
Alguma coisa acontece no meu coração sul-americano, que só quando cruza o Orenoco, o Amazonas e o Prata... Ah! Essas lembranças musicais, poéticas e românticas com que o Caetano fica assediando minha pobre memória! Isso, em plena era do capitalismo imperialista, globalista, financeiro, guerreiro e hegemônico! Estão lá os Estados Unidos invadindo o Iraque, o Afeganistão, ameaçando o Irã e agora o Iêmen (aparentemente o novo quartel-general do Al Qaeda, de onde foi instruído aquele nigeriano que quase detonou um avião no Natal e, é lógico, por força das riquezas petrolíferas ainda não exploradas nesse último país). Legítima defesa da pátria, da democracia, do meio ambiente, das drogas, ajuda humanitária! Bandeiras nobres para esconder objetivos bem pragmáticos. Não que a América do Sul esteja passando por um período de grande desenvolvimento econômico, de paz política e justiça social. Nada disso. Mas é um momento de transformação que deve ser bem observado, interpretado e quiçá as expectativas se realizem. A América do Sul está vivendo um momento diferente. Muito diferente das últimas ondas que assolaram o subcontinente com autoritarismo, ditadura, militarismo, seguido da onda de neoliberalismo que quase afogou o povão, sempre com o apoio incontestado da grande nação do norte. Neste exato momento, a Alca está acabando com a indústria mexicana. Mas ele, o povão, é “antes de tudo um forte”, não se entrega. Já tem as costas bem curtidas com as atrocidades dos portugueses e dos espanhóis colonizadores e dos ingleses exploradores. Aguardemos novos e bons ventos. Estou me referindo ao advento de novas lideranças abaixo da linha do Equador. Lideranças que engrossaram as fileiras aos regimes de opressão e do neoliberalismo. Não que sejam os suprassumos das lideranças. São consequências de regimes oligárquicos, ditaduras e do neoliberalismo. Afinal, Hugo Chávez não é nenhuma pérola, nem tampouco o casal peronista de esquerda, os Kirchner. Mas o colar é vistoso. Pra início de conversa todos foram eleitos e reeleitos por via democrática. A despeito de o coronel venezuelano aqui citado ter tentado um golpe militar, ele foi eleito e reeleito e a Constituição mudada quanto ao instituto da reeleição por intermédio de dois plebiscitos (perdeu o primeiro e venceu o segundo), portanto por via democrática. Dos Estados Unidos veio um observador na última eleição: o ex-presidente Jimmy Carter, que atestou a lisura do pleito. Com isso não se estão defendendo os rumos de sua desastrada administração, acrescida da falta de chuva e de competência para fazer investimentos na geração de energia elétrica e conter a inflação. Ele corre o perigo de perder a próxima eleição ou alguma coisa pior. Mas conquistou com sua política popular (populista vá lá) uma grande parte da população de baixa renda. Se a oposição ganhar não há como reverter a caminhada iniciada aos trancos e barrancos em prol da camada mais miserável da população. Veja-se o que aconteceu no Chile. A oposição venceu oferecendo talvez muito mais ao povo do que os programas executados por governos ditos de esquerda. Não há volta. Até aqui no Brasil. Outro dia ouvi atônito um depoimento cínico de um senador da oposição segundo o qual o salário mínimo deveria ser muito maior do que os R$ 510 atuais. Exatamente um representante da oligarquia e dos governos passados que ficaram sentados em cima de um salário mínimo de menos de US$ 100 por vários anos. Agora, depois dos grandes progressos nesse particular, com ganhos reais acima da inflação, e contando especialmente com reajustes cada vez mais cedo (de maio, passaram para abril, para março, para fevereiro e agora foi reajustado no primeiro dia do ano), vem aquele senhor constatar que o salário mínimo ainda não atende à totalidade dos gastos básicos de uma família. Deveria ser muito maior, diz, criticando o governo. Num ano de eleição, acaba de descobrir a pólvora! Continuemos a falar de Brasil, o maior país da América Latina. Nunca esteve tão bem. Depois do regime militar, com advento da democracia, da Constituição de 1988 (com essa Carta Magna o país é ingovernável, lembram-se de Sarney dizendo essa bobagem?), das eleições diretas, da estabilização monetária conseguida com a implantação do Plano Real, tudo está indo bem, sem solução de continuidade. Lamenta-se a desastrada política de privatização da indústria já implantada no país, bem como o pecado do mensalão. Até o estatuto da reeleição (cujo parto foi vergonhoso) está comprovadamente dando certo. Com crédito para o Lula que rejeitou a segunda reeleição, o que, com essa aprovação popular ele poderia abiscoitar facilmente. Nem F. D. Roosevelt, nos Estados Unidos, resistiu ao terceiro e ao quarto mandatos. Aumentamos o mercado interno, superamos a marolinha provocada pela crise, aumentamos a nossa posição no chamado concerto das nações. Estamos todos de parabéns por todos os acontecimentos recentes, desde o impedimento do Presidente Collor. Ainda há muito por fazer, isso vai sem dizer, mas digamos, para evitar maiores críticas, além daquelas que necessariamente alguns leitores vão fazer a estes comentários. Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai, Chile, Venezuela, Argentina e Brasil, todos renovaram suas lideranças no sentido de melhorar os direitos das suas populações e os valores nacionais. Lamento o momento argentino, a infiltração armada americana na Colômbia e não estou muito a par do que está acontecendo no Peru. Mas de uma coisa estou certo: o Fujimori foi julgado e condenado por seus desmandos na presidência daquele país. Voltando ao Brasil, o governo prepara um anteprojeto de consolidação das leis sociais (CLS), a exemplo do que fez Getúlio Vargas, em 1943, quando promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A CLS englobaria projetos como o ProJovem, o ProUni, o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Pronasci e a Renda Básica de Cidadania (RBC). A RBC já foi aprovada consensualmente por todos os partidos no Senado, em dezembro de 2002,e na Câmara dos Deputados, um ano depois. (Informações colhidas em artigo do Senador Suplicy, na Folha de São Paulo, de 03-01-2010). É isso o que eu chamo de socialismo pela culatra. A coisa está andando no sentido da socialização nesses países. Queiram chamar assim ou não. Aliás, esse nome assusta muito os menos avisados. Os americanos, por exemplo, tremem com esse tal de socialismo; chamam até o Obama de socialista, quando ele quer simplesmente colocar ordem na desordem que encontrou. Ou será que o programa de saúde em votação no Parlamento americano vai a outra direção que não a do socialismo. Os irmãos do norte só pensam em concorrência, não em solidariedade. Seria isso, o que está acontecendo na América do Sul, efetivamente, um progresso socialista? Ou, simplesmente, são sonhos de uma noite de verão? Acho que está muito longe de ser socialismo. Principalmente num mundo em crise de valores, especialmente degradado em sua natureza. Trata-se de um socialismo de demanda (de consumo), onde e quando se dão meios ao povo para usufruir, em parte, das benesses da economia e da riqueza de seus países. Não se trata do modelo marxista de socialismo de oferta (de produção) e internacionalizado, quando o povo, mais precisamente, a classe trabalhadora, tem o controle dos fatores de produção e não só se beneficia do consumo dos bens e serviços. Nesse caso a mais-valia do trabalho é apropriada pelo povo e não pelos capitalistas. É por causa disso que digo que o socialismo está saindo pela culatra sem ser o objetivo claro das políticas adotadas. Será que o grande público está interpretando essas mudanças do modo como eu vejo a coisa. Acho difícil. Mesmo porque a parcialidade da imprensa nacional não transmite e não permite, por interesses políticos e empresariais, esse tipo de visão. O observador precisa ficar atento a essa escamoteação clara e propositada da informação. Por exemplo: dois eventos recentes, muito importantes, não tiveram a necessária cobertura jornalística. A Conferência Nacional de Comunicação e a discussão sobre o Programa dos Direitos Humanos. A imprensa só se preocupou em criticar as conclusões, não divulgou os trabalhos de âmbito nacional e não participou das discussões. A divulgação de tais ocorrências deveria ser bem maior para incentivar a maior participação da população. Nada disso aconteceu. Agora restam as críticas, principalmente aquelas que anunciam o cerceamento da lei de liberdade de imprensa. As empresas de comunicação se valem dessa bandeira para manterem as coisas como estão. Programas de televisão como Big Brother são um escárnio para a boa formação da sociedade brasileira. A nossa imprensa está cheia de notícias sobre catástrofes e denúncias (nada contra isso, deve continuar), mas deveria ser mais participativa nos movimentos cidadãos que objetivam melhorar a Nação, melhorando a formação e a informação da população. Uma alternativa ao título deste artigo seria O Idiota, o livro que leio, de Dostoievski. Outra alternativa seria A Velhinha de Taubaté, criação do Luis Fernando Veríssimo, ou ainda Cândido, o Otimista, de Voltaire. Se o leitor escolher um desses três títulos alternativos, o presente texto é (para ele) uma ficção. Se, ao contrário, admitir o que encabeça este artigo, este texto é (para mim) um ensaio. Assim é Se Lhe Parece, segundo Luigi Pirandello.
Genserico Encarnação Júnior, 70 anos. Itapoã, Vila Velha (ES)
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