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ANO VIII - Nº. 236, em 30 de dezembro de 2009.
Crônica de fim de ano politicamente incorreta
O SONHO ACABOU
Eu não tive um sonho! Assim digo eu, na contramão da célebre frase (“I had a dream!”) do reverendo Martin Luther King, em célebre discurso proferido na esperança da eliminação da questão racial nos Estados Unidos. Esse sonho foi, em parte, concretizado com a eleição de um presidente negro, embora até isso venha acirrando o que ainda existe de preconceito naquela sociedade com a volta triunfal do pejorativo “nigger”. Sou mais para o título desta crônica tomado de empréstimo a John Lennon que, com a sua visão artística, percebeu com muita antecedência o “assim caminha a humanidade”. Eu não tenho mais sonhos quanto à evolução dessa humanidade. Não me refiro à evolução tecnológica. Mas à solidariedade humana planetária, incluindo a preservação ambiental. As evidências são por demais flagrantes para alimentar sonhos. Sou cético, para não dizer pessimista. Na quadra das citações, cito Arnaldo Jabor (AJ), em minha opinião, bom analista dos costumes à luz de sua visão artística e discutível analista da política nacional à luz de suas preferências pessoais (ou das minhas, sei lá!). “Não há mais solução para o terrorismo, para a boçalidade, para o mal, para a miséria, para o meio ambiente.” “Não dá para entender os acontecimentos à luz de um antigo humanismo, de uma tradição racional que nos prometia um futuro de harmonia”. Seria romântico, diante da experiência acumulada e da realidade atual, pensar numa sociedade sem guerra, sem droga e sem fundamentalismo religioso. Enfim, num organismo limpo. O homem é um animal racional, mas insensato. “Só nos resta o catastrofismo esclarecido.” (AJ) Estou sob o impacto da frustrada Conferência sobre o Meio Ambiente (COP-15), recentemente encerrada em Copenhagen. Também respiro a atmosfera pesada da obra de Emile Zola, Germinal, revista em DVD logo após a leitura do livro. Romance que pela primeira vez na história da humanidade introduz o proletariado na literatura internacional. Estou verdadeiramente impactado! Daí esta hemorragia, este vomitar de bílis nesta crônica de fim de ano politicamente incorreta, nessa mistura de assuntos, que na realidade têm a mesma raiz: as constantes derrotas do fator trabalho pelo cínico capitalismo neoliberal vitorioso e o caótico mundo guerreiro e devastado neste início do século XXI. O romance do Zola (Germinal) é de 1885, 37 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848), seis anos antes da Rerum Novarum de Leão XIII (1891) e 32 anos antes da Revolução Proletária da Rússia e da criação da União Soviética (1917), quando ainda se respirava uma época de esperança, não comunista, mas necessariamente de cunho socialista. Esperança que nascera em 1789 com a revolução burguesa na França. Não vou citar os revolucionários pensamentos de Jesus Cristo porque eles foram manietados pela sua (!) própria Igreja durante mais de um milênio e quando, por vezes, alguma de suas facções quis aplicá-las (por exemplo: com a Teologia da Libertação, na América Latina) a mesma Igreja se prontificou a pôr fim a essas louváveis experiências. Mais valia (e isso não é um ato falho) um monumento ao operário e ao trabalhador desconhecidos do que ao soldado desconhecido. Que é o que se vê por aí. Ou, ironicamente, que seja um reconhecimento em mármore da mais-valia pelo capitalismo neoliberal vitorioso e cínico quanto à dilapidação do planeta. Quanto ao problema do meio ambiente ele é muito mais sério do que a nossa vã filosofia pensa, ou melhor, que o mundo desenvolvido, industrializado, poluidor e capitalista pensa. Não é com regulação que se conserta isso. Só com uma reforma radical do regime econômico explorador e dilapidador em vigor. O processo de degradação do planeta tem, entre as suas principais causas, o aumento da população, principalmente a urbana. Quando eu nasci o mundo tinha a metade da população de hoje. Não sejamos, no entanto, radicais, cínicos, fascistas ou piadistas para propor a eliminação da humanidade ou parte dela para resolver o problema. Para atender a esse aumento de população, a atividade, senão a maior, uma das mais poluidoras, é a agropecuária. Na tentativa de alimentar a grande população, estendem-se os limites agropastoris sobre novos campos, como no caso brasileiro, devastando as florestas (Mata Atlântica, inicialmente, agora a Amazônia), o cerrado e outros biomas até então deixados intactos à disposição da mãe natureza. Seguem como dilapidadores do planeta o setor industrial, o de transportes e o da energia. Os sucessos na área médica e na farmacologia têm sua nobre participação no aumento populacional, mas também, não é inibindo a sua evolução que se resolve o problema. Muito pelo contrário, o objetivo da vida é viver e viver com dignidade. Mas não adianta fazer nada, mantido o regime econômico prevalecente (capitalismo de mercado e seus subprodutos, consumismo, globalização capitalística e financeira generalizada). Mesmo a melhor distribuição de renda provocaria uma demanda maior sobre os recursos do planeta dentro do atual regime, que dificilmente seria suportado. Vide China. A propósito, interessante seria notar e tentar esclarecer o pronunciamento da Ministra Dilma Roussef, muito criticado pela imprensa, quando presidia nossa delegação em Copenhagen. Mais ou menos assim: “a preservação ambiental prejudica o desenvolvimento sustentável”. Isso não faz sentido! Contudo, acredito que o que ela quis dizer por desenvolvimento sustentável seja um desenvolvimento com a sustentação das altas taxas de crescimento, tais como as do padrão chinês atual e as japonesas ou brasileiras de anos atrás. A preservação ambiental não se coaduana com essa faina desenvolvimentista do capitalismo selvagem. Deveríamos perseguir um desenvolvimento menos pujante dentro de um novo paradigma econômico e energético, outro que não o atual, aliás, que vem vigorando desde os primórdios da revolução industrial: de exploração do ser humano e da natureza. Isto é, desde o século XVIII. Acredito também que, além do regime econômico prevalecente estejam em jogo o regime político predominante, refiro-me à democracia representativa, o menos pior já descoberto pelo ser humano. Mesmo permitindo que um bem intencionado político tenha ganho as eleições, como eu acredito seja o Obama, ele tem as mãos e os pés atados pelos interesses econômicos representados nas várias instâncias de poder do seu país. O que colocar no lugar da democracia representativa e como? Sei muito bem perguntar, não sei responder. As medidas governamentais, principalmente as dos americanos e europeus, utilizadas para minorar a crise econômico-financeira recente, distribuíram dinheiro a rodo ao capital, coisa nunca imaginada ao setor trabalho. Como disse, não existe um monumento ao operário desconhecido. Tudo que foi feito no mundo, inclusive as grandes obras que nos deixam extasiados: pirâmides, igrejas, pontes, estádios, palácios, navios etc. foi feito por operários. Um desses dias, caminhando pelo calçadão, ouvi um peão da construção civil, visivelmente embriagado, dizer em altos brados para sua companheira e para que eu também ouvisse, apontando para um belo edifício: “eu construí esta porra!” Não tendo a menor dúvida quanto a essa entusiasmada declaração seminal, prossegui a caminhada saudando-o com a mão fechada e o polegar para cima. Não sei como se sai desse imbróglio em que o mundo se meteu e se encontra. O cenário futuro é catastrófico! Só mudanças estruturais radicais, econômicas e políticas, podem reverter as expectativas. Como fazer isso? Não sei. Só sei mal-combinar algumas palavras para expressar minha angústia. Eu não tenho um sonho!
Em tempo: O cenário brasileiro é otimista dentro do atual paradigma global que se mostra insustentável em longo prazo, apesar das muitas mazelas que temos. Estamos revertendo a tendência do aumento populacional, com os casais, em média, tendo menos de dois filhos. Também diminuíram as taxas de migração interna para os centros urbanos, em relação às registradas nas décadas anteriores. Complementarmente, ainda contamos com o grande projeto de produção de petróleo e gás natural no pré-sal que, se bem administrado, incluindo um novo e apropriado marco regulatório, poderia se constituir em grande fonte de riqueza para a Federação Brasileira como um todo (e não somente para os Estados limítrofes às bacias de Santos, Campos e Espírito Santo), induzindo fortes desenvolvimentos em outras áreas. Temos tudo para ser uma grande Nação! Parece que o assim chamado país do futuro, está no limiar desse novo tempo. Mas que adianta sair bem na foto com moldura destoante?
Genserico Encarnação Júnior, 70 anos. Itapoã, Vila Velha (ES).
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