ANO VIII - Nº. 232, em 20 de novembro de
2009.
Fragmentos de um romance
inconcluso
"OS ATORES"
Abertura
“Meeeeeeeeerda!”
O grito ecoou alto e
uníssono, por detrás das cortinas cerradas do teatro, coroando um exercício de
aquecimento de músculos e das cordas vocais de todo o elenco. De mãos dadas, os
atores começaram entoando baixinho aquele som da ioga: ôôômmm que,
segundo dizem é o som do Universo. Com movimentos delicados de braços,
coordenados com a respiração, o ôôômmm foi aumentando num crescendo,
crescendo, até desaguar naquele grito escatológico que, na tradição teatral quer
dizer “sorte, bom espetáculo, sucesso, principalmente de bilheteria” e, em
alguns casos, por força das constantes rixas, invejas e intrigas tão comuns no
seio da classe, merda mesmo.
Assim gritada por
detrás das cortinas, a merda não saiu tão clara, não sendo mesmo compreendida
pela maioria dos espectadores na plateia, desconhecedores dos intestinos
teatrais.
Imediatamente após o
grito tribal, o espetáculo começou pontualmente, com o tradicional atraso de
quinze minutos (!), mesmo sem os três sinais anunciadores do início da peça. Nem
tampouco com aquele baticum de cabo de vassoura no chão, lá dos bastidores,
baixinho, no início, depois aumentando a frequência e o volume até aquele
tum-tum-tum nervoso que se transforma em cena aberta. Não houve também aquele
esmorecimento de luzes na plateia, que vão se apagando de mansinho até cederem
lugar aos refletores do palco.
Ah! A liturgia do
teatro, tão bonita, não se respeita mais, pensou Teodorico, sentado nas
primeiras filas do auditório. Ele viajara mais de mil quilômetros de carro, para
assistir a estreia da segunda peça dirigida por seu filho.
Quando acendeu o
foco de luz vertical no centro do proscênio, ali já se postara o apresentador da
peça, depois de caminhar no escuro os dez passos estudados que media a distância
entre os bastidores e aquele local. Quem, senão, o próprio filho, o diretor da
peça, no papel de mestre de cerimônias.
Vestia um terno
escuro, impecável, uma camisa branca, alvíssima, e sapatos pretos, lustrosos.
Gravata colorida (Hermès) de executivo moderninho. Contrastando com tal
indumentária séria, sua cara estava pintada de várias cores berrantes, a linha
da boca aumentada, as sobrancelhas alongadas e aquele narigão vermelho de
bolota. Corpo de executivo burguês e cara de palhaço.
Empostando a voz,
saudou as senhoras e os senhores ali presentes. Com aquela saudação tradicional
de um espetáculo circense; entoando propositalmente uma prosopopeia primária,
digna das mais representativas audiências interioranas.
”Bem-vindos
ao espetáculo de estreia desta maravilhosa montagem teatral do tragicômico
espetáculo da vida. Aqui encontrarão o belo e o feio, sonhos e pesadelos, amor e
ódio, esperança e frustração, violência e candura, prazeres e dores, riqueza e
miséria, vida e morte severinas”.
“Bem-vindos
todos à roda-viva da vida!” E, pulando feito criança, cobriu (ida e volta) toda
a extensão da ribalta, cantarolando: “Roda mundo, roda pião, roda a baiana,
rodamoinho, rodapé, rodopio, roda a roda; roda, roda e avisa, tá na hora dos
comerciais. Alô, alô, Tereziiiiiiiiinha!”
“Sejam muito
bem-vindos à encenação autofágica da vida. Aqui verão a representação do rodar
incessante da mó que a todos e a tudo tritura, transformando-os em pó.”
“Para começar,
permitam-me que me apresente”. “Sou o palhaço narrador”. “O único personagem que
se perpetua ao longo dos tempos, num processo transcendental; aquele que sempre
foi, é e será; o único que sempre resta para contar a história: eu, o narrador,
aqui ó, neste caso, o palhaço.” “A história dos atores que fazem parte de um
elenco chamado Humanidade”.
“Bem-vindos,
senhoras e senhores.” “Com vocês os atores deste maravilhoso espetáculo, do qual
todos nós aqui presentes temos a honra de também ser participantes.”
Abre-se a cortina e
começa o espetáculo.
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(Aqui jaz um
romance, “Os Atores”, natimorto.)
Fechamento
Caiu o pano
após o ato final seguido do agradecimento ensaiado dos atores. O
apresentador-palhaço volta à ribalta. Não há mais foco solitário iluminando-o
por sobre a cabeça. Tudo está iluminado, palco e platéia. Os aplausos foram
poucos, porém sinceros. Parte da plateia chegou mesmo a aplaudir de pé, mas o
palhaço notou que eles estavam se apressando para sair.
Ainda retendo
os espectadores por um par de minutos, alguns já a caminho da porta de saída,
transmitiu a todos os seus agradecimentos, as costumeiras boas noites e, ao
final, uma saudação irreverente, bem teatral, desta vez dita em alto e bom som,
bastante clara, para não ficar incompreendida, mas que não foi muito bem
entendida pelas pessoas estupefatas a se entreolhar.
“Meeeeeeeeeerda para
todos nós!”