ANO VIII - Nº. 231, em 10 de novembro de
2009.
Teatro
ENTRE COXIAS
Cenário:
Palco vazio, destituído de qualquer peça de cenário. Iluminação intensa. O
personagem masculino é o primeiro a entrar, o faz pela coxia da direita, para no
centro do palco, a olhar ao redor. A personagem feminina entra pouco depois pela
coxia da esquerda e surpreende o ator, batendo de leve em suas costas.
– Oi! Como vai, tudo bem? Que coincidência!
Não esperava encontrá-lo por aqui.
(Assustado)
– Olá! Eu vou bem e você?
Também não esperava vê-la tão cedo.
Que grata surpresa!
Por onde você anda?
– Ainda moro em BH. Você também não
está
mais morando por aqui, suponho.
– Estou voltando. Trinta anos depois!
Senti saudades da terra, da família,
dos amigos.
Cuido de negócios familiares.
Aposentei-me com as privatizações.
Privatizei-me.
– De vez em quando eu apareço por
aqui.
Venho e volto rapidamente.
Restrinjo-me ao ambiente familiar.
Que surpresa agradável, faz tanto
tempo!
– É verdade, faz tempo que
a gente não se
via.
Há quantos
anos?
Desde os tempos da
faculdade.
– E do estágio que fizemos juntos.
Cheguei na semana passada.
Vim passar o aniversário da mamãe.
– E como vai ela? Seu pai? Sua irmã?
– Todos bem. Mamãe tá muito velhinha.
Eu também vou bem.
– E você, o que faz?
– Que você se casou, eu soube,
não recebi convites de casamento.
Tem filhos?
– Vamos por partes.
Casei-me sem casamento.
Descasei-me sem divórcio. Prático,
não?
Tenho dois filhos homens, já adultos.
– Vem de lá um abraço.
E um beijinho.
As saudades são muitas!
– Também sinto muito sua falta!
Lembro-me constantemente de você. De nós.
Você frequenta com assiduidade meus sonhos.
Antes que me pergunte: Tenho três filhas.
– Eu sabia.
– Você vai pra lá?
(Aponta para a direita).
– Não. Vou pra lá.
(Aponta para a esquerda).
– Nós sempre nos desencontrando!
– Será que um dia nos encontraremos?
– Hoje, por exemplo. “Ó nós aí gente!”
Você tá bonito! Com os cabelos
grisalhos.
Semblante pacífico. Olhar brilhante.
– Existem encontros e esbarros.
Hoje nos esbarramos.
Você também tá linda! Pele fresca.
Olhar risonho.
Cabelos vermelhos!
Antigamente, as mulheres, ao
amadurecerem,
ficavam louras, agora permitem-se
outras cores.
É mais bonito assim.
– Volto depois de amanhã.
Ainda temos tempo de transformar
esse esbarro num encontro?
– Não acredito.
Mesmo que quiséssemos.
O passado quando se repete
sempre o faz em forma de farsa.
Isso tá me cheirando a Marx?
Se lembra?
– Você ainda não derrubou o seu muro
de Berlim?
– Lógico que derrubei.
Que frustração!
Não pelo muro, nem pelo comunismo,
mas pela esperança do socialismo.
Não só o muro de Berlim,
pus abaixo as torres gêmeas
e, de quebra, a Basílica de São
Pedro.
– Grandes mudanças!
O mundo mudou, mas continua o mesmo.
– Isso é política.
E os sentimentos, permanecem?
– Alguns, imperturbáveis.
E, por isso mesmo não devem ser
perturbados para perdurarem.
– Será o que estou pensando?
– Sim. Claro. Sempre amei você.
Você sabe disso.
Por isso mesmo quero manter esse
sentimento
latente, pulsante, eu quase diria:
lactente.
– Por quê?
(Procurando na mochila).
– Tá escrito aqui ó, deixe-me ver, no
livro que estou lendo.
“O amor que se propala é apenas uma
miserável
história; o amor que se esconde foi
sempre
um admirável poema.” Isso é Artur
Azevedo.
– Você e suas literatices!
Continua aficionado dos contos e
romances?
– Sim, cada vez mais, sem
romantismos.
A literatura e a ficção me deixam
cada
vez mais realista, paradoxalmente,
com a cabeça em devaneios, mas os pés
bem
plantados no chão.
Ademais, o que leio é mais importante
do que acontece em minha vida.
– !!!!!!!!!!!!!!!!
– Se nós tivéssemos assumido o nosso
amor,
hoje, por certo, ele já teria chegado
ao fim.
Nossa relação talvez existisse
sob a forma de pensão.
Ou de um álbum de retratos coloridos,
todos em sépia na memória.
– Daí a sua opinião sobre o
amor?
– Et pour cause.
Você é meu
amor in pectore.
Basta que você
saiba. E sabe.
– Além do mais, ele é
correspondido!
– Nosso amor sempre viverá
enquanto eu viver.
Anacronicamente platônico
ou modernamente virtual;
escolha a qualificação.
"A nível de".
Assim, descobri a fonte de
juventude.
Parei o tempo.
– Você me lembrou o último livro do
Saramago. Ele desinventou o passado
e o futuro. Ficou valendo só o presente: o presente
pra trás e o presente pra frente.
– Exatamente!
– Preciso ir. Tchau meu amor.
Foi um grande prazer encontrar você, digo,
esbarrar em você, te ver.
Recordar é viver; vale esta citação piegas?
Você foi uma grande figura na minha vida.
Deixou saudades e marcas.
Curta o seu presente.
– Vida longa ao nosso presente.
Meu presente é você.
Adeus!
Os atores,
depois dos dois beijinhos protocolares, saem acenando um para o outro,
caminhando para as coxias contrárias às que surgiram e deixam o palco.
A luz
permanece acesa enfatizando o vazio patético.
Cai o pano.