ANO VIII - Nº. 229, em 20 de outubro de
2009.
Ensaio curto e grosso
A DIGNIDADE DOS
IRRACIONAIS
Disponho de muito tempo para
pensar e o utilizo o mais que posso. Penso enquanto ainda existo. Observo e
penso. Quando penso, registro escrevendo. Mais do que pensar, filosofo.
Principalmente sobre a vida e seus entornos.
Inicialmente observo a vida dos
animais em sua irracionalidade. Recentemente escrevi uma fábula a respeito.
Vivem, basicamente, em função dos seus instintos naturais que, por sinal, são
muito parecidos com os dos humanos, senão os mesmos. O instinto da defesa, o da
sobrevivência e o da reprodução. Os animais são dignos e admiráveis em sua
exígua capacidade intelectual. Não falam. Andam nus sem pudicícia. Praticam sexo
livre sem se esconder, atendendo ao instinto natural da perpetuação da espécie,
nos períodos de cio. Não planejam. Eles nos ensinam muito sobre o fenômeno e o
sentido da vida que, no meu entender é, simplesmente, viver. Nosso DNA não
difere muito do deles!
A seguir observo os bebês.
Embriões a vicejar fora do espaço da concepção. Não falam, apenas choram e
sorriem e assim se comunicam. Mamam e dormem. Não sabem a que vieram. Seus
instintos ainda são precários e só se concretizarão totalmente mais adiante,
especialmente o da reprodução, embora sejam sexualmente ativos. São vestidos,
asseados, alimentados e protegidos pelos adultos. Fazem suas necessidades
fisiológicas sem controle. Mas que dignidade, no olhar, na postura, em suas
brincadeiras, em sua descoberta da vida, do falar, da afeição! São admiráveis!
Tem gente que ao ver um bebê morre de pena de eles serem completamente
dependentes dos pais e responsáveis, o que ainda levará um bom tempo até que
amadureçam.
Agora, a velhice. Quanto mais
velhas as pessoas, melhor se faz a observação para os propósitos deste ensaio. A
senilidade avançada, a perda de controle vital e das atividades intelectuais
mostra a volta do ser humano aos seus primórdios, parecendo-se, em parte, com a
vida dos animais e dos bebês. Que dignidade deveria envolver sua decrepitude!
Reverência, respeito. Isso, em lugar da pena que dá ao ver suas gastas figuras,
mais por saber que um dia poderemos chegar àquele estado, se não tivermos a
infelicidade (ou felicidade) de morrer antes. O senil nos ensina também os
segredos da vida.
Isso me leva a pensar que a
racionalidade ocupa, no ser humano, um tempo limitado, embora o maior da vida
média das pessoas. E como é festejada! Período no qual tudo pode acontecer, para
o bem e para o mal, do próprio, da sociedade e da humanidade. Lógico que existe
dignidade nesse período. E como! Mas, é exatamente nesse período que se exercem
as mais desastradas vontades, as mais desvairadas ideias, as mais devastadoras
ações que se têm testemunhado neste mundo. Fruto da irracionalidade da
racionalidade! Guerras, paixões, vinganças, perseguições, e por aí vai, sem a
necessidade de alongar muito a frase, nem tampouco recorrer a outros desvãos
nebulosos da mente humana.
A razão é a tragédia da
humanidade. É por isso que Tomás de Aquino dizia que ”a razão é a imperfeição da
inteligência”. Concordo com essa parte da célebre frase. Contudo, ela tem
continuidade: “sua plenitude é a intuição”. Aí eu faço alguns reparos. Ora,
direis: o pretensioso ensaísta peitando Tomás de Aquino! Ora, retruco eu: não
tenho a formação intelectual do cogitado, mas sou mais bem informado do que ele,
principalmente porque vivo na modernidade e não no século XIII. Darwin, por
exemplo, o mestre que desvendou os segredos da evolução vital, desconhecia a
existência dos genes, o homem moderno o conhece e que a teoria darwiniana é
também aplicada neste contexto primário da vida. Talvez o cientista até
desconhecesse que a “sua” evolução também pode ser estendida desde os genes ao
Universo como um todo. Admito, portanto, a intuição, é lógico. É exatamente o
que estou a fazer, puxando por ela. Mas ele, Aquino, santo da Igreja Católica,
por certo cultivava a intuição para justificar o divino. Aí entramos no campo
das opiniões, das questões de fé, e não dos fenômenos passíveis de constatação.
Não há espaço para demonstrações lógicas, nem do lado crente, nem tampouco do
lado ateu. Eu me calo, apesar de discordar da especulação do scholar
nesse terreno nebuloso. Esse tipo de intuição só pode aflorar no domínio da
razão.
Numa conversa com uma humilde
mulher religiosa ela me criticou por usar a razão dos homens nas minhas
considerações. Ora, esse é o exíguo espaço que disponho para pensar. Daí, mais
uma evidência da limitação da racionalidade diante do mistério da vida e do
Universo. Paradoxalmente, procuro luzes observando o irracional ou os períodos
nos quais, no humano, a racionalidade ainda não aflorou ou quando ela já
pereceu.
Para que servem tais
considerações? Só para preencher pauta do JORNALEGO? Apresso-me a responder sem
fazer firulas: para especular sobre os limites da razão e tentar disciplinar seu
cavalgar. Disciplina esta que evitaria alguns desastres e controlaria a
montaria e seu peão sem deixá-los soltos, ao sabor de todos os
ventos, pelos espaços imensos da mente e da sua criatividade, o que poderia
levá-los a lugar nenhum. A alguns desastres. A alguns delírios. Surtos
psicóticos e que tais.
Embora tanta maravilha seja
criada pelo engenho humano!