ANO VIII - Nº. 228, em 30 de setembro de
2009.
Proesia (Prosa poética).
PENA, PENA,
PENA (*)
O inverno chegava ao seu
término. Um inverno seco, quente, com espasmos de frio ao seu final. A estação
nos trouxe notícias de terríveis sentenças que desabaram sobre pessoas queridas.
Réus sem culpas. Condenações odiosas que os aprisionaram por dentro, sem celas
nem grades. Confiamos nos resgates.
Não fiquemos tristes. A
primavera vem chegando. Ainda fria. Com poucas floradas que daqui a pouco vão
explodir em vida, alegrando-nos a todos. Saudando o sentimento constante de
renovação. Vejam: “estão chegando as rosas!” Amores-perfeitos. Margaridas.
Bem-me-queres.
A renovação vem com o verão. O
Sol. Os calores. Os corpos nus. A alegria dos espaços abertos. As praias. Por
tantos e tantas por que passamos e gozamos. Restam imagens e sons da calorosa
infância, da escaldante adolescência, dos amores passados. Dos amigos. Aí vem o
outono.
O outono das folhas mortas. As
estações tropicais não são tão precisas. Mas a poesia tem licença para bem
precisá-las, na necessidade de poetizar o tempo. O tempo da maturidade! Foi
frutífera a estação! Geramos filhos e netos. Novos frutos ainda virão. Agregamos
genros e noras.
Eis que chega de novo o inverno.
A estação da circunspeção. Do agasalhamento. O fechamento do ciclo anual no
círculo do tempo, em sua marcha inexorável. Outras rotações e translações virão
num movimento contínuo. Ficamos tontos com tanto rodar. Mais cedo ou mais tarde
o rodopio chega ao fim. Inevitável.
Tão rápido quanto o passar das
estações no espaço-tempo de um poema é o tempo-espaço de nossas vidas. Como
foram belas as estações! Um caleidoscópio em constante mutação. Como no girar de
um carrossel inebriante, ao som da música felliniana de Nino Rota. Doce (e
perigosa) vida!
Condenados à vida, involuntária
e indistintamente, jogadores na roleta da fortuna, chegamos ao termo do poema.
Onde e quando não há doença, dor, sofrimento, ódio, cansaço; nem esperança,
paixão, amor, sonho, alegria. Medo ou coragem. Guerras e crises. Restará, tão
somente, a transcendência pela poesia.
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(*) De penalidade, de
piedade, de pluma (“que o vento vai levando pelo ar...”).
Texto concebido em setembro
de 2008.