ANO VIII - Nº. 227, em 20 de setembro de
2009.
Crônica
CAROS AMIGOS
– “Como uma pessoa inteligente e
culta como você pode ser petista?”, dizia-me um amigo. Retruquei: – “Toda essa
frase é uma grande mentira!”. Mesmo se essa assertiva correspondesse à
realidade, isso é uma coisa que não se diz para ninguém. O meu amigo não se deu
conta de que ele estava me chamando de burro. Que não compreende o
contraditório. Acha correto tão-somente o seu posicionamento político. Isso é
comum acontecer com relacionamentos íntimos e como tal deve ser tolerado.
Os amigos de formação acadêmica
“exata” geralmente não gostam do que escrevo. A exceção ficava com um deles, que
agora não mais lê meus escritos; evita-os enquanto convalesce de um surto
psicótico que o acometeu.
– “Você escreve bem demais”!
disse outro. “Demais para o meu gosto“, complementou.
Nasceu com saúde fragilíssima,
ninguém poderia imaginar que pudesse sobreviver. Sua coordenação motora era
precária, seus membros tinham movimentos desordenados. Tinha problemas com a
fala. No entanto compartilhava das brincadeiras da infância, das peraltices da
juventude e das aventuras da adolescência. Comemoramos o seu 50º aniversário, o
60º e, mais recentemente, o 70º. Estamos combinando festas de aniversário com
maior frequência, bienalmente talvez, sem esperar o octogésimo ano. Não estamos
muito seguros quanto a nossa saúde e presença nessa efeméride.
Recebo mensagem de um amigo
muito religioso que diz somente ter, nessa fase macróbia de sua vida,
preocupações transcendentais, como sua salvação e a salvação do seu irmão.
Espero que essa fraterna palavra tenha acepção genérica e não se refira
especificamente ao redator que lhes escreve. Na sua concepção, a sua direção e
seu caminho se constituem na verdade absoluta. Esse pensamento norteou a Santa
Inquisição da Igreja Católica que pensava que matando o corpo do infiel, lhe
salvava a alma para a vida eterna. Não que o meu amigo tenha intenções
homicidas. Longe dele! Antes que ele me replique sobre as heréticas opiniões
exaradas em alguns dos meus textos, digo-lhe que as emito sem querer fazer
proselitismo de nada. Não quero “salvar” ninguém, mesmo porque eu me sinto
perdido. Como eu gostaria de poder acreditar na salvação divina! Tão prático.
Tão simples.
Nessa mesma linha de raciocínio,
tenho outro grande amigo que está preocupado com a minha reconversão, uma vez
que fui, outrora, religioso. Diz que chega a rezar para que isso aconteça. O que
me lembra um depoimento do Frei Betto em um dos seus livros. Dizia ele que as
freiras vizinhas do convento dominicano onde habitavam, no tempo da ditadura dos
governos militares, rezavam pela conversão deles e para que eles deixassem de se
opor ao governo, com palavras e obras, tais como o acobertamento de elementos
altamente subversivos ao regime. Regime que tinha tido o suporte do Movimento da
Família com Deus pela Democracia em suas grandes passeatas nos principais
centros urbanos do país.
Confessei numa mesa de bar: Não
passo um dia sequer sem ler a coluna social do principal colunista da cidade,
onde o autor se preocupa em ensinar “à sociedade” (e à saciedade!) “o que é
chique” e “o que é o fim”. Divirto-me com aquele festival brega! A seguir,
também confessei que assisto com estupefação aos programas religiosos na tevê,
tanto católicos como evangélicos, para aquilatar até onde vão a credulidade e a
ingenuidade das pessoas. O amigo não notou a ironia subreptícia dos meus
comentários e me criticou pelo baixo nível cultural das minhas predileções.
Paciência!
Nessa mesma linha de raciocínio,
estava eu no Mac Donald doido para comer um sanduíche rápido para pegar a sessão
de cinema que se iniciaria em poucos minutos. Isso foi no tempo da privatização
selvagem. Apesar de ter feito um pedido simples, o atendimento demorava muito.
Então eu me insurgi: “Precisa privatizar esta porcaria!”. Vira-se um amigo
circunstancial, ao meu lado: “Mas o Mac Donald já é privado!”. Eu, replicando:
“Então estatize esta porcaria!” Imagino a pobre testemunha desta cena a comentar
a posteriori: “Não é que o imbecil pensava que o Mac Donald fosse
estatal!”
Ainda numa mesa de bar fomos
abordados por um vendedor ambulante de carros de brinquedos, com as cores e
escudos de times de futebol. Olhando para mim, para aquela cara de burguês bem
sucedido, o mascate me ofereceu um carrinho com as cores e o escudo do
Fluminense. Que eu rejeitei: sou Flamengo. Virando-me para um dos amigos
comentei: não sei por que todos pensam que eu torço pelo Fluminense e que sou
eleitor do Serra (candidato tucano que perdeu a eleição pro Lula na campanha
presidencial de 2002, em quem eu votei). Meu amigo respondeu: Eles pensam que
você é gente do bem! Dei uma enorme gargalhada pela oportunidade da suposta
piada. Passados alguns dias, quando a ficha caiu, é que notei que os comentários
poderiam ter um fundo da verdade do meu amigo.
Na mesma linha, numa discussão
em que acusávamos um amigo por um caso bobo, ele, para se safar, teve que apelar
para a Justiça Divina. Todos nós achamos também engraçada a saída que, por
sinal, encerrou a gozação. Como no caso anterior, alguns dias depois,
raciocinando melhor, eu cheguei à conclusão de que o apelo à Justiça Divina,
pelo meu amigo, não fora tão desprovido, como pensava inicialmente, da fé nessa
instância superior.
Que me desculpem os amigos,
protagonistas não identificados e ocasionais desta crônica. Que não me venham
cobrar a total realidade dos causos relatados! Um escritor que se preza sempre
adiciona um pouco de sua imaginação. Nem tampouco tentem vestir a carapuça!
Prezo muito os amigos que tenho.
No entanto, peço a eles, especialmente aos mais irreverentes, que não me
aconselhem fazer o que Zé Besteira sugeriu ao Careca quando ele disse, numa
reunião formal, que gostava do Lauro Sarué.