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JORNALEGO ANO VIII - Nº. 224, em 30 de julho de 2009. Conto
O MENINO QUE NÃO QUERIA SER GENTE
Desde pequenininho, mesmo antes de gatinhar, ele já se identificava muito com os bichos da casa. Cresceu pensando que era um deles ou desejando ser um deles. Esta é a curta história de sua curta vida. Seus pais eram artistas plásticos e moravam numa casa afastada do centro urbano, onde um grande galpão anexo servia de atelier ao casal. Ele, pintor. Ela, escultora. Trabalhavam nesse espaço muito bem arejado, iluminado e completamente equipado com quase tudo de que precisavam. O local de trabalho era bonito, e era agradável ver a faina dos dois. Conheceram-se em eventos artísticos, chegaram a frequentar os mesmos cursos e, por fim, casaram-se. A casa era ampla, mas grande mesmo era o vasto quintal. No interior da bela moradia e em suas cercanias vivia uma gata siamesa de pelo sedoso, olhos dourados e muito dengosa. No quintal imperava um cão policial alemão que somente tinha acesso à casa quando devidamente permitido por seus donos, períodos em que Sinhá, a gata, escalava os muros e ficava a flanar pelo telhado. Portanto, tinha tempo de Sinhá e tempo de Adriano, daí o narrador dizer que ele imperava em todo o terreno circundante. Eram os xodós da casa, depois dos trabalhos artísticos em execução. No atelier, nenhum desses agregados tinha acesso, só ficavam a espreitar pela porta sempre aberta e pelas janelas baixas. Adriano a farejar o interior, com as patas apoiadas no parapeito de uma das janelas, curioso, ofegante, hiperativo. Sinhá, deitada, com seu ar blasé, em seu interminável banho de língua, nunca no mesmo parapeito, com seu grande rabicho enrolado ao redor do corpo. Os artistas estavam agora preocupados com o curso de pós-graduação que o Governo Federal, através de uma de suas agências competentes, lhes concedera em Paris, para aprimoramento de suas habilidades. Preocupados, agitadíssimos, entusiasmadíssimos, esse era o estado dos personagens. Além da viagem, planejavam com quem iria ficar a guarda da casa, do atelier (que, logicamente, ficaria fechado), mas, principalmente dos animais de grande estimação. Foi quando a natureza, travestida de destino, se fez notar na ausência de uma rigorosa regra que de tempos em tempos assinava o seu ponto na vida do casal, mais precisamente na da mulher. E não poderia ser de outra forma, pois eles se garantiam com os mais avançados contraceptivos mecânicos ou produzidos pela indústria farmacêutica de vanguarda. Notaram com quase dois meses de atraso a falta da menstruação. Exames. Bingo! Gravidez. Foi um sufoco, uma agitação, que fazer? Insônia, dores de cabeça e briguinhas conjugais, estresse, enfim, só o aborto poderia resolver a situação. Era o céu despencando sobre suas cabeças, quase às vésperas de concretizarem o grande sonho de toda a vida, de uma viagem de estudos ao exterior, juntos, garantia de sucesso de carreiras altamente promissoras. O ginecologista teve os seus escrúpulos, e o casal também. Afinal, a gestação já entrava no terceiro mês. Viveram momentos sofridos. Seria indiscrição do narrador dizer que maldiziam o acontecido, o que, absolutamente, não era exteriorizado por nenhum dos dois. Mas o ar continuava pesado. Nos momentos de rixa, sem palavras, sem gestos, sem violência, os dois se valiam de seus bichinhos de estimação e passavam horas abraçados ora com o cão, ora com a gata, acariciando-os. Eram seus fios terra por onde descarregavam toda a angústia contida e, na falta de se valerem um do outro, transferiam o seu afeto para os bichinhos tão queridos. Praticamente não saíam de casa. A barriga a crescer, a crescer, incomodava muito a eles que já tinham que dar explicações aos amigos e aos apreciadores de seus trabalhos e o que fariam quanto ao curso que, antes, alardeavam a todos. Até aquele amigo, um colunista social brega, já tinha registrado a futura viagem do casal numa de suas edições, sempre muito lidas pela sociedade local. Inevitável. Chegou a hora do nascimento que resultou num belo rebento, ainda sem nome. Iriam escolher depois. Depois de prorrogar a ida para a França por alguns meses, seguiram viagem, deixando o recém-nascido com os avós. Contrataram uma babá para o dia e uma enfermeira para a noite. Os avós foram morar na mansão do casal, o que resolveu também o problema de cuidar dos animais. Ali se passaram mais de dois anos. Voltaram cheios de novidades e com um cabedal notável de conhecimentos que, necessariamente, iria contribuir em muito para os futuros trabalhos dos já muito bem-comentados artistas. Apareceram em jornais e entrevistas na tevê, suas fotos (nas quais não podia faltar a Torre Eiffel ao fundo) saíram na coluna social daquele jornalista aludido. O amigo brega, lembram? E mais, foram convidados para montar um curso numa faculdade particular que, por certo, faria um grande sucesso na comunidade. O filho, ah! O filho? Dois anos e meio de idade. Não andava, não falava, não ia ao banheiro, e vivia a brincar com Adriano e Sinhá, no recesso da casa, cujo acesso agora lhes era permitido sem restrições, ou mesmo no amplo quintal. Engatinhava tão rápido que não ficava atrás das movimentações dos seus amiguinhos. Sua avó vestia-o de calças compridas de moletom para evitar ralar os joelhos em suas incursões pela grama e terra batida. O seu desenvolvimento anormal não foi explicado à luz da pediatria. A recepção pelos pais foi calorosamente gelada. Os avós ainda continuaram por ali durante a primeira semana passando o bastão para os genitores. Aquele pequeno ser totalmente desconhecido dos pais. A babá e a enfermeira, já na terceira leva, dada a rotatividade decorrente do trabalho pesado, permaneceram até chegada a hora de contratar novos abnegados. Todo o trabalho com a criança era realizado pelas empregadas contratadas. A maior parte do tempo, os artistas passavam-no no atelier que, a partir do seu retorno, ficou bastante movimentado. Não raras vezes, o menino chegou a ser descoberto dormindo com o Adriano em sua casinha de fundo de quintal e comendo a ração dos animais, juntamente com eles. Nessas condições viveu ainda por mais oito anos, com e como seus parceiros animaizinhos, com quem queria ser parecido e como tais, amado. Uma percepção instintiva que lhe tomou de assalto desde sua vida intrauterina. Nas noites imediatas que se seguiram ao enterro, seus pais passavam-nas abraçados a Adriano e Sinhá. Todos eles sentindo nos choros, miados e grunhidos a rápida passagem pela vida daquele que poderia ter sido a grande obra-prima do casal de artistas.
Genserico Encarnação Júnior, 70. Itapoã, Vila Velha (ES)
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