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JORNALEGO 

ANO VIII - Nº. 222, em 30 de junho de 2009.

Fábula (em homenagem aos três patinhos na lagoa deste número).

 

O DEUS DOS ANIMAIS 

 

A serpente, com natural argúcia e perspicácia ofídia, sibilante e rasteira, lambeu os beiços com sua língua bifurcada, e, cheia de malícia, resolveu pôr em prática o plano, com um gostinho de vingança, que vinha arquitetando havia algum tempo, devidamente temperado com muitas doses de seu fatal veneno. Na base de toda essa mágoa represada estava o fato de pertencer a uma espécie animal ofendida pelos homens, desde tempos bíblicos, com certas insinuações caluniosas sobre uma antepassada, imputando-lhe a culpa do pecado original da raça humana.  

Pois bem, foi uma descamada serpentuagenária da velha estirpe que fez reunir a comunidade dos animais mais próximos para uma importante comunicação. Do alto de um tronco de árvore, enroscada desde a raiz por seu corpo comprido, soltou um sombrio silvo, dando início a sua revolucionária conclamação. 

Meus queridos irmãos e vizinhos! Estive, ao longo dos anos, estudando alguns tratados teológicos da raça humana e cheguei à conclusão de que é chegada a hora de resolvermos um importante assunto, buscando justiça e tratamento igualitário para a nossa espécie vis-à-vis dos humanos. Nas legendárias histórias desses, um Deus criou e dirige o mundo, e concebeu o homem à sua imagem e semelhança. Fez o mundo, o céu e a terra, os mares e os rios; colocou neles todos os elementos que os constituem e também a nós outros, os animais que o habitam. Uma história de difícil aceitação para a nossa compreensão. 

Os homens, genericamente falando, ele os separou em machos e fêmeas e em várias etnias, todos com suas características próprias. Mesmo assim, essa fauna humana é muito limitada, no que diz respeito aos sexos, às etnias e mesmo ao número de seres que habitam a Terra. Atualmente, pouco mais de seis bilhões de pessoas perfazem a população dos humanos. Há um século, esse número não passava da metade. Quão pobre é essa humanidade! Nós, animais, somos milhões de milhões de seres, milhares de milhares de raças e espécies, e mais, está provado, povoamos a Terra, muito antes do aparecimento do homem, o que é contestado erradamente pelas escrituras sagradas desses. Somos os seres vivos mais diversificados que existem no nosso pequeno planeta. 

Somos aves, pássaros, peixes, crustáceos, batráquios, répteis, anfíbios, mamíferos, roedores, primatas, insetos et caterva, sem contar os seres microscópicos. Povoamos toda a superfície da Terra, o ar, as profundezas do mar e dos rios, e o mundo subterrâneo. Algumas de nossas espécies habitam regiões inóspitas à vida e sobrevivem. A cobertura é total, feito jamais conseguido e que jamais será alcançado pelos seres humanos. 

Cabe a pergunta chave: por que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Por que preteriu o mundo animal, propriamente dito? Mas ele não é um espírito, uma entidade? Espírito tem, por acaso, imagem, tem semelhança? Acredito irmãos, que os homens é que criaram Deus à sua imagem e semelhança, um Deus antropomórfico ou antropoforme, fruto da concepção antropocentrista deles. Inclusive os desastres ambientais que estão a ocorrer decorrem dessa concepção distorcida da mente humana. Pensar que o mundo foi feito exclusivamente para eles o usufruírem. Não lhes parece? 

Chegou a hora de elegermos também um deus animal ou, se for o caso, deuses animais. Não me refiro aos animais sagrados, como a vaca indiana ou assemelhados. Mas a um deus ou deuses propriamente ditos. Aquele espírito, singular ou plural, que nos criou e nos protegerá, inclusive do assédio humano. Essa é a minha idéia, mas democraticamente proponho a instituição de um concílio, onde e quando, reunidas as lideranças animalescas, possamos discutir e decidir a dimensão teológica de nossa existência. 

Aplauso! Aplauso! Palavras de ordem foram ouvidas: justiça, igualdade. Democracia: a maioria tem que decidir o seu próprio destino. 

Foi, portanto, marcado sine die, um concíliábulo, para o qual foram convidados todos os principais representantes de todas as raças. O local escolhido foi a foz de um rio, muito conveniente para congregar também peixes e outros habitantes, tanto fluviais quanto marítimos. 

A coruja, como se sabe, é um dos mais inteligentes animais da floresta e não poderia faltar à tão importante reunião. Além de ser sábia, transparece sapiência, com o seu ar superior, circunspecto e grave, seus olhos grandes de olhares profundos. Pois bem, foi um corujo de idade provecta, líder das comunidades dos titonídeos e dos estrigídeos, que foi eleito presidente do concílio. 

Do alto de sua idade e de seu galho, rodou a sua cabeça perfazendo um giro de 360º observando toda a audiência ao seu redor, soltou um pequeno e sombrio pio, dando por iniciada a histórica assembleia, para o tratamento de assunto tão transcendental. 

Discutiram, discutiram, discutiram, com a proverbial sapiência dos animais e chegaram a uma conclusão depois de analisarem todos os ângulos da questão, especialmente o que vinha ocorrendo sobre o assunto no mundo dos humanos racionais. Inicialmente, acharam por bem que deveriam ser criados tantos deuses quantas as espécies de animais: o deus dos pássaros e aves, o deus dos peixes, o dos anfíbios, o dos mamíferos, o dos répteis etc.etc.etc., quantos etcéteras fossem necessários para cobrir todas as classes animais. 

Discutindo esse ponto particular, foi decisiva a opinião do camelo, com sua postura majestática, do alto de seu dorso duplamente corcovado. De acordo com a milenar filosofia artiodátila, repisou o que todo mundo sabe: a vida dos animais no planeta teve origem muito, mas muito tempo mesmo, antes do aparecimento humano. Além do mais, a população animal (não-humana) é imensamente maior do que a dos homens e mulheres. Assim, a consagrada evolução das espécies se deu com mais apuro, porque se espraiou por milhares de diferentes raças em diferentes habitats e por muito mais tempo (milhões e milhões de anos), do que nos seres ditos racionais. A natureza agiu notavelmente sobre nós, como é comum à mãe natureza, aprimorando a evolução de nossa vida em seu seio. 

Tal era a verve do camelo. A racionalidade pode ser entendida mesmo como presente nos prolegômenos da vida no planeta, sua fase infante. O seu ápice é a irracionalidade (a superação da racionalidade burra, agressiva e arrogante e da racionalização enganosa). Irracionalidade que vem a ser, segundo ele, o ponto ômega da vida, a ser ainda atingido pelos humanos, e já atingido pelos animais ditos irracionais. Uma irracionalidade superior que se distingue pela vida harmônica e consentânea com as forças da natureza. A compreensão conceitual dessas palavras é uma simples questão semântica dos idiomas falados pelos homens. 

A seguir, mais alguns dos pontos básicos de sua argumentação. A ocorrência do deus antropocêntrico deveu-se, em muito, ao medo que o humano tem da morte, produto das mentes racionais, o que não é o nosso caso. Com isso, foram gerados imensos problemas para a vida do homem sobre a Terra. A principal decorrência negativa foi a criação de vários deuses, religiões e sua institucionalização: as igrejas, para o refrigério das mentes perturbadas e  interessadas na perpetuação da vida. Complementando, a criação de imensas cortes divinas (dos santos e anjos) tendo como contrapartida o reino do submundo das profundezas (dos demônios) e mais as cortes terrenas, a nobreza religiosa das igrejas, indo dos papas, cardeais, bispos, padres, pastores, mulás, rabinos e aiatolás até aos pais-de-santo e pajés. Foram incontáveis os cismas, as guerras e os problemas de convivência entre igrejas, pessoas e povos, tudo provocado In Nomine Dei. 

A resolução final, alcançada em decorrência da sábia argumentação camelídea, foi a de ficarem como estão e, esperar com paciência a evolução da espécie humana até que ela possa atingir o grau supremo da irracionalidade a que chegou o ramo animal não-humano, o que se daria com a total integração dos entes vivos com a natureza. 

Não reproduzamos o modelo humano caótico! Porque, obtemperou a serpente pedindo um aparte, serpenteando entre a audiência para causar melhor impressão: a razão humana, a despeito de grandes progressos tecnológicos e artístico-culturais, levou o homem a se preocupar em dominar a natureza, explorá-la, subjugá-la, incluindo a nós outros animais. Chegou até mesmo a escravizar gente de sua própria raça. Agiram, historicamente, como se fossem os quindins de uma Iaiá que eles próprios criaram. Não adicionemos mais um complicador para aumentar as dores da velha Gaia, nossa querida mãe Terra. Assim terminou a sua sábia proposta, utilizando toda a sua prosopopeia também serpenteante, onde a cabeça pode se encontrar com o final da cauda e às vezes até se confundir com ela.  Vão os humanos entender tão sutil comparação! É uma prova da limitação mental deles.    

O homem é o único animal que se explica, exclamou do alto do chão a nobre girafa, agora tomando a palavra, lembrando uma tirada de um humorista clarividente, apesar de humano. Nós vivemos a vida como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. A razão humana criou suas próprias necessidades intelectuais e, por vezes, sobre ela, monta o seu castelo de cartas de explicações e justificativas irrelevantes. Tentam suplantar emoções, instintos e sentimentos e, com isso criam um mundo idealizado, com ficções falaciosas. O problema não é a ficção, mas a inverossimilhança, inadmissível até mesmo em situações “fabulosas” como esta. 

 Dessa feita, foi encerrado o primeiro concílio dos bichos, assim chamado pela invejável situação de entendimento e conciliação entre todas as cabeças pensantes do mundo animal não-humano, coisa tão carente entre os humanos, dificultado exatamente pelo seu alto grau de racionalidade. 

O movimento convergente da evolução da vida no planeta se dará dos humanos para os animais e não na direção contrária. Assim, quando o homem se integrar totalmente às forças naturais, como se dá no mundo dos animais, talvez possa ele, o homem, vir a prescindir das forças sobrenaturais que hoje tanto cultua.   

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 70.

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