Jornalego

 

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ANO VIII - N° 219, em 30 de maio de 2009.

Conto (quase paródia) alegórico

              

A ESCALVADA 

 

            Vocês podem me chamar de Ismael. Assim eu costumo me apresentar, porque fui batizado e registrado com o estranho nome de Samael.  Nome de anjo de significado pouco lisonjeiro. 

Eu fazia parte de uma turma de garotos ainda infantes e andávamos sempre juntos, nos banhos de mar, nos saltos ornamentais do Calhau, nas peladas ao cair da tarde e nas rondas noturnas procurando travessuras. Éramos meninos e estávamos a gozar as férias escolares em Guarapari. As meninas formavam grupos à parte, olhadas de longe; eram pouquíssimas as interseções com elas. Durante as temporadas de férias no balneário desfilava uma fauna de diferentes espécies e origens. Convivíamos bem com os nativos do lugar, com o pessoal de Muqui, de Cachoeiro, de Bom Jesus do Itabapoana, com os mineiros em geral e com mais gente da nossa idade que por lá pintasse. Por incrível que pareça, os cariocas (poucos) eram os que mais se isolavam; mais precoces, pedantes, tidos como escolados, malandros e conquistadores. E não é que eram “mexmo”! As menininhas adoravam esse puxar dos Ss no sotaque deles. (Ele é carioca, ele é carioca!).  Segundo eles, nós, os capixabas, falávamos “mermo” por mesmo. Jamais atentamos para isso. 

Um dos componentes de nosso grupo, participante principalmente das peladas vespertinas, porque ele trabalhava pela manhã, era Arrá, de quem falo mais adiante, protagonista desta fábula. Quando subíamos nas pedras da arrebentação, ele apontava para o horizonte e dizia: – “Estão vendo aquela ilha lá onde o mar termina e o céu começa, pois eu ainda vou lá, conquistá-la, dominá-la, a ela e a esse mar desafiador.” Sonhos de verão na primavera da vida! Não se tratava literalmente de uma conquista ou de domínio territorial, mas de um objetivo a ser alcançado de afirmação juvenil. 

Arrá nasceu de família pobre em Guarapari e ali vivia modestamente. Era um garoto branquelo, quase albino, com a pele do nariz toda esfolada, queimada de sol, lábios marcados de antigos herpes provocados pelo mesmo sol, quando ainda não existiam protetores a não ser chapéus, que ele não usava. Pela manhã, era vendedor de pirulitos nas praias da cidade, a dez tostões a unidade (*). Vendia fiado, ninguém levava dinheiro para a praia. Logo depois do almoço fazia o périplo pelas casas dos consumidores faturando suas vendas. Seu nome de fato era Arabelo; Arrá seu esquisito apelido. Tinha os cabelos encrespados, louros quase brancos, sarará miolo, como os baianos chamam esse biótipo. 

“Aquela ilha” era a Escalvada, um pequeno pedaço de terra cercado de mistérios por todos os lados. De vegetação rala, superfície careca, calva, daí seu nome. Perdida no cocuruto do curvo horizonte que se descortina das praias, cuja curvatura, nós pensávamos, fosse a mais verdadeira prova de que a Terra é redonda. Agora sei que essa percepção é uma ilusão de ótica; o pedaço do planeta exposto à visão é relativamente pequeno, não dá para perceber a borda do planeta. Uma ilusão de ótica como também enxergar os navios que por lá cruzam como pequenos barquinhos a flutuar no horizonte, o que não quer dizer que eles sejam daquele minúsculo tamanho. 

            A ilusão de ótica, neste texto ou contexto, vai ser outra personagem importante. Não somente essa ilusão qualificada, mas a ilusão nua e simples, despojada de adereços, substantivada tão-somente. Por falar em ótica, olho vivo, portanto, leitores! 

            A primeira vez que fui à Cidade Saúde, que desde então já era conhecida como tal, foi logo depois do fim da Guerra. Atravessei de balsa, a bordo de um velho ônibus com porta-malas no teto, o braço de mar que se embrenha por Guarapari, sem circundá-lo totalmente. Não é como Vitória, uma ilha cercada de continente por todos os lados. Ainda não tinha a ponte a ligar o pequeno centro do povoado a Muquiçaba. Daquela primeira estada, o que me ficou marcado na memória desde sempre, foram os bolinhos de arroz vendidos pelos moleques de minha idade, pés descalços, pele morena, desde as primeiras horas da manhã, para o café dos veranistas e nativos. Quinhentos réis cada um (**). Todo escritor tem a sua madeleine

            Voltemos à Escalvada, ela é uma ilha encantada, todos diziam. Eu ainda digo. O seu encantamento, no entanto, se deu muito depois, ou melhor, eu só o testemunhei muitos anos depois, quando comecei a freqüentar aquelas praias na época de minha adolescência, na segunda metade dos anos cinquenta.  Pois é isso mesmo, não estou inventando. Olha que eu não sou dado a mistérios e misticismos: a Escalvada é uma ilha encantada e encanta quem a vê de longe. 

Isso só acontece em tempos de forte calmaria. Trata-se de um fenômeno natural que provoca a ilusão de ótica do encantamento. Eu estava na areia da Praia da Castanheira e ouvi o pessoal correndo para a pedra do trampolim e gritando: a Escalvada está se encantando, a Escalvada está se encantando! Foi um estardalhaço. E chegavam mais banhistas, a gente do lugar, o juiz, o policial, o farmacêutico, Galo Branco – o craque do futebol local –, Antero e Beco – comerciantes do lugar –, e Moacir doido – uma figura popular, andarilho por todo o dia e por toda a cidade que, por vezes, dormia acomodado num galho hospitaleiro de um pé de fruta-pão. E os amigos das várias turmas. 

O vigário da paróquia talvez estivesse lá em cima do morro, à frente de sua igreja, se é que o encantamento era visto também de lá, capitalizando o “milagre” e aproveitando a crendice do povo para aumentar o número de fiéis e suas espórtulas nas missas, ladainhas e outras solenidades religiosas. – “Este mundo está mudando, é o sinal dos tempos profanos que se avizinham”, apregoaria ele. Para insinuar isso não é preciso muita imaginação do narrador. 

Pode ser que de lá do morro da capela não se visse o “milagre”, mas o discurso é notório e, mudando um pouco as palavras, está na pregação de todas as religiões na arregimentação de fiéis. Não era de qualquer lugar que se via a metamorfose da ilha, isso caracterizava o fenômeno; dependia do ângulo em que o observador se posicionava. Por exemplo, nós na praia, nada víamos, ao subirmos a pedra vizinha o espetáculo se descortinava. 

Como disse, isso é fruto de uma calmaria que de vez em quanto paira sobre aquele pedaço de mar. Meninos, eu vi! A ilha, rasa, como era comum vê-la em tempos normais, se avolumava. O grande volume ora parecia um alto edifício, uma falésia escarpada, um estádio do Maracanã, uma baleia e outras imagens do tipo holográfico. O farol que lá existe compunha a baleia como se fosse o esguicho na cacunda do mastodonte. Não acreditam? Perguntem ao Maneco, ao Rivaldo, ao Sarué, ao Tatina, ao Benedito Bacurau e aos irmãos Toninho e Miltinho que ainda andam pelo pedaço. Meu irmão, Bolão e Nego Vá já se foram, ficaram também encantados, no dizer poético de Guimarães Rosa. 

 Nunca mais deixei de frequentar Guarapari; nunca mais, contudo, vi as transmutações da Escalvada. Pero que las hay, las hay! Mais: Eppur si muove! Sobre essa movimentação eu tenho que confiar nos testemunhos dos pescadores que chegam mais perto da ilha quando em tempo de calmaria: ela se move de um lado para outro querendo confundir o navegante. Calma, não se irritem, não abandonem a leitura. Trata-se de pura ilusão de ótica. Estou sempre repetindo isso. Não é milagre ou coisa sobrenatural. Isto aqui é um conto, mas um conto respeitável. Tem fundamento científico. Vamos adiante. 

Assim se passaram as folhinhas dos calendários. Estamos agora na última década do século passado. Vou contar a história do Arrá, adulto e financeiramente realizado, dono de uma pequena indústria de doces caseiros, que evoluiu satisfatoriamente, desde sua fábrica de fundo de quintal e, principalmente, depois que lançou seu carro chefe: a linha diet. Vende para todo o Estado, para o Rio e Minas. Agora cuida muito bem de sua epiderme, protege-a do sol, fez um belo tratamento na Santa Casa de Vitória, retirando alguns pontos de câncer de pele e as manchas solares desenhadas em seu rosto durante a infância e juventude. 

Foi quando Arrá resolveu comprar uma lancha para, finalmente, pôr em prática sua esperada aventura: conquistar a Escalvada. Comprou-a de um turista mineiro que enriquecera e agora freqüentava o Caribe. Era uma lancha pequena, já rodada, com registro de batismo na Capitania dos Portos com o sugestivo nome de Pequote. Foi informado tratar-se da contração de pequeno com pixote. Nome de um cachorrinho que morreu quando sua dona, filha caçula do antigo proprietário, tinha cinco anos. Para compensá-la da perda, comprou a lancha e deu-lhe o nome do falecido animal de estimação. Nosso herói tomou aulas de direção náutica e passou a ler sobre navegação e as artimanhas do mar. Numa de minhas idas a Guarapari, levei para lhe emprestar o romance “Os Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo, com primorosa tradução de Machado de Assis, com o qual ficou vivamente impressionado e cada vez mais amante das atividades marítimas. Inicialmente se lançava al mare com um marinheiro a acompanhá-lo. Sempre de olho naquela ilha lá longe, que o seduzia como num canto de sereia. Nunca mais houve calmaria, nunca mais houve encantamento. Até que começou a se sentir seguro e planejou zarpar para sua sonhada viagem. Queria fazê-la só. 

Foi no mês de março de 1997 que avisou à mulher e filhos que iria para a Escalvada. Ouviu muitos conselhos para se cuidar. Embarcou num sábado de tempo bom, segundo a previsão meteorológica. Se fosse possível ainda voltaria no mesmo dia. Se não, levava rancho e voltaria no domingo seguinte. Iria se proteger no farol (teria lá um faroleiro?) e portava seu celular com a bateria carregada. Varas de pesca, iscas e que tais. Filtro solar e óculos escuros. 

Saiu antes de o sol raiar por completo. O arrebol da manhã já se desenhava no horizonte quando cruzou o estreito entre o morro da cadeia e a pedra onde começa a Praia do Morro. Navegava eufórico sempre de olho na sua meta, o grande objetivo de garoto e de sua vida. Imaginou o que contaria aos amigos quando de lá retornasse. Levava máquina fotográfica automática para registrar sua façanha. Sentia-se o próprio Darwin em seu Beagle com destino a Galápagos. No meio do longo percurso, lá pelas dez horas, notou o rarear dos ventos. Depois a ausência total deles. Calmaria das bravas! 

Então aconteceu o espetáculo do encantamento da Escalvada.  O volume de terra foi crescendo aos seus olhos, como nunca vira antes, agora que estava mais próximo do cenário. Parecia um bolo de aniversário com uma única vela em cima, o farol. Minutos depois se transformou numa gigante sereia deitada, destacando a curva pronunciada das ancas, em posição de lascívia. 

Deu mais velocidade ao barco já que o mar estava calmo, sem as ondas provocadas pelo vento. A lancha levantou sua proa e voava rumo à ilha. Agora ela se assemelhava a um navio, um grande navio, um transatlântico. Vamos que vamos, em frente, em transe. Estava próximo da realização do seu sonho. 

A imagem de uma grande baleia apareceu-lhe como um milagre esguichando água e batendo sua barbatana traseira. É agora, a reta final. Nisso notou que a ilha lhe fugia de sua frente, a baleia ora se deslocava para a esquerda ora para a direita. Desnorteou-se um pouco, mas se lembrou do que os pescadores contavam, sobre o deslocamento da ilha. Era o outro fenômeno causado pela calmaria. Raciocinou e direcionou a lancha para uma posição intermediária às imagens extremas. É lá que a presa se encontra. 

Depois de alguns minutos extasiado com o espetáculo foi surpreendido com uma ligeira mudança no tempo. A calmaria durou enquanto os ventos trocaram de direção. Rapidamente uma enorme tormenta encapelou as águas até então paradas do grande mar. A lancha pulava por sobre as altas ondas, batendo com um barulho surdo novamente quando pousava na superfície do oceano. – Que desgraça, logo agora que estamos a chegar me acontece essa tempestade. Ainda via a baleia, cada vez maior, a deslocar-se para lá e para cá. E ele na direção intermediária desses deslocamentos

Foi quando uma vaga maior catapultou o barco ainda em grande velocidade totalmente no ar, bem próximo à ilha. A lancha deu uma cambalhota para trás, capotando e emborcando de proa no mar. 

Golpeado, Arrá desfaleceu imediatamente e preso na lancha pelo cinto de segurança, afundou com ela. Com a hélice ainda em funcionamento, a embarcação foi sendo impulsionada para longe da ilha num mergulho cada vez mais profundo, como um submarino, um caixão submarino. À medida que submergia, bolhas de ar subiam à superfície, marcando o rastro. Depois, as águas serenaram temporariamente, no refluxo da onda assassina, cobrindo Arrá, seu barco, seu sonho, sua quimera. 

            A família esperou e exasperou-se com a sua ausência que se prolongava. A imprensa noticiou e as autoridades náuticas registraram o desaparecimento. Das buscas empreendidas, nenhum resultado. Como, então, eu soube de tão trágico acidente e o narro aqui com riqueza de detalhes, se não houve testemunhas oculares?! As musas, que andam azarando à minha volta, me contaram tudo, com uma pequena ajuda de Herman Melville. Se você não o conhece, pergunte ao Google, esse, por certo, você sabe quem é e aonde encontrá-lo.

 

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(*) Dez centavos de cruzeiros, equivalente hoje a R$ 0,10.

(**) Cinquenta centavos de cruzeiros, equivalente hoje a R$ 0,50.

 

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