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ANO VIII - N° 218, em 20 de maio de 2009. Crônica O MURO
Voltei de uma curta estada no Rio de Janeiro, onde vivi por 26 anos, a partir de 1965, ano do seu quarto centenário. Nessa cidade, onde tivemos nossos filhos e amadurecemos pessoal, acadêmica e profissionalmente, vivemos momentos maravilhosos. Acabo de comemorar meus 70 anos de idade na Cantina Fiorentina, no Leme, um dos cenários de minha vida carioca. Vida desportiva, não artística. Esta última é que caracteriza aquele restaurante. No entanto, eu era frenquentador assíduo do vôlei de praia nos fins de semana e, depois, do chope nas calçadas da Fiorentina. Uma cena memorável da bela época foi a que, em pleno verão infernal, minha mulher e eu saímos de uma festa lá pelas três horas da madrugada e fomos dormir na areia da praia, esperando o nascer do sol. Sem perturbações. Bons tempos! Mas não quero fazer a crônica de minha vida. É a crônica da cidade que me interessa. O fato novo é que vão construir um muro, um grande muro, no Morro da Rocinha para impedir o avanço da favela sobre a Mata Atlântica que a circunda. De fato, a favela tem avançado muito sobre a bela Mata Atlântica dos morros cariocas. A construção vem sendo chamada pelas autoridades que a conceberam de muro de proteção da floresta, talvez eufemisticamente. Isso porque pode também ser tratada como muro de contenção da favela. Uma questão de ótica ou, mais rigorosamente, de óptica (já que ótica tem relação com a audição e a visão e óptica somente com a visão). Mais um muro, portanto. O mais antigo e famoso parece-me que é a histórica e turística Muralha da China, para proteger o Império do Meio dos seus invasores. Muito depois vieram os não menos famosos Muro de Berlim, para os comunistas se defenderem do capitalismo; a Linha Maginot, mais que um muro um conjunto de fortificações, para os franceses barrarem o avanço dos alemães; o Muro ao Sul dos Estados Unidos, para os americanos conterem a imigração mexicana; e o Muro na Palestina, para os judeus defenderem suas conquistas territoriais dos palestinos. Agora, aumentando a lista, que deve ser bem maior, teremos o Muro da Rocinha. Esse expediente segregacionista já foi aplicado também nas praças e jardins do Rio e de algumas cidades brasileiras para proteger da população (e não a população), principalmente a miserável, os belos jardins e parques. Ainda não o fizeram com o Aterro do Flamengo. A continuar, não tenho dúvidas que o farão. Depois restarão as praias. Por falar em praias, lembro-me bem da abertura dos túneis que ligam a Zona Norte e os Subúrbios à Zona Sul, permitindo o fácil acesso dos banhistas das zonas centrais à bela orla da cidade. Na ocasião foram criados bandos de moradores nos bairros praianos com o objetivo de barrar os intrusos, como se as praias fossem exclusivamente dos moradores da Zona Sul. Mais tarde, deu-se o troco com o aparecimento dos infelizes arrastões na areia, quando foi cunhada a expressão: “vamos invadir a sua praia”. Quem sabe não está em gestação (com muro ou sem muro) um novo mote: “vamos invadir a sua mata”. Alguns argumentos a favor se escoram nos muros que construímos para proteger nossas casas e condomínios, enfim, nossas propriedades particulares. Acredito tratar-se de um equívoco. Nesse caso são propriedades privadas e não públicas como a floresta, os jardins, as praças, os parques e as praias. Não há dúvidas de que esses espaços públicos, quando gradeados, ficam mais bem guardados do vandalismo, do mau uso e principalmente de sua transformação em dormitórios. Era comum verem-se malandros, bêbados ou simplesmente sem-teto dormindo em bancos de praça. Esses dormitórios, com o advento das cercas, foram simplesmente transferidos para as calçadas das ruas protegidas com marquises. Agora, é comum, em cada canto da cidade, verem-se crianças, homens e mulheres, inclusive velhos, dormindo em caixas de papelão improvisadas em camas. A realidade social permanece, foi simplesmente transferida de local. Tiraram o sofá da sala. Esses acontecimentos são produtos de uma sociedade, como a nossa, que vem crescendo desordenadamente. Sociedade com alta desigualdade entre seus membros. Desde sua origem. A última, no mundo, a banir a escravidão dos negros escravos. Não se podem culpar os mendigos, os pedintes, os malabaristas, os doentes, as crianças, os maltrapilhos e, vá lá, os bandidos, que habitam as ruas e morros de nossas cidades. Nem por isso, que não haja condescendência para os últimos. Se eles tivessem outra opção, não seriam o que são. Tenho certeza disso, com as exceções de praxe, é claro. Quanto aos traficantes, sua fonte de renda principal, como se sabe, é o consumo de drogas pelas classes de maior poder aquisitivo que moram no asfalto. A classe média alta é tão ou muito mais apropriadora de espaços públicos do que a favela que, para muitos entendidos é mais uma solução do que problema, dadas a má distribuição de renda, a carência de moradias para o pessoal de menor poder aquisitivo e a falta de transportes convenientes para se chegar aos seus locais de trabalho. O somatório de todos os espaços públicos tomados pelas grades que circundam os condomínios do pessoal mais bem aquinhoado da cidade, avançando sobre as calçadas de pedestres, possivelmente perfaça espaço maior do que a maior das favelas. Sem contar as áreas ocupadas com mesas de bar nos passeios públicos. Lembro-me de Dom Hélder Câmara: “o problema do Nordeste não é de seca, é de cerca”. A consciência social por vezes só aflora quando os privilégios de um indivíduo ou de uma classe estão a perigo. Daí porque tem muita gente “boa” defendendo o projeto do muro. Daí também, à luz do alto nível de paranóia no ar, a existência de muita gente do “bem”, formada nos mais rígidos princípios cristãos, que é contra a descriminalização do aborto (pensando na preservação da vida), mas que votou em plebiscito recente pela comercialização de armas (preocupados unicamente com a defesa e se esquecendo do outro lado da equação, o ataque) e que, paradoxalmente, é a favor da instituição da pena de morte no país. É notório, na atualidade brasileira, repartir a sociedade entre “nós” e “eles”, os “do bem” e os “do mal”, e usar expressões do tipo “essa gente”, “esse povo”, “povinho”, às vezes com adjetivos bastante pejorativos depois de tais coletivos. Logicamente que “eles”, “esse pessoal” são os outros, onde Sartre situou muito bem o inferno. Nós somos os anjos do paraíso. O muro é a concretização simbólica da “Cidade Partida” (crédito para Zuenir Ventura) e da apartação reinante em nossa querida Cidade Maravilhosa. Como em tantas outras por este Brasil. Terminei a viagem e termino esta crônica com o mesmo sentimento já expresso em outras ocasiões: com paixão pelo Rio.
Genserico Encarnação Júnior, 70. Itapoã, Vila Velha (ES)
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