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ANO VIII - N° 217, em 10 de maio de 2009.

Conto 

 

O PRISIONEIRO DO SONHO

 

            – Jurandir, o chefe do Departamento do Pessoal tá te chamando. 

            (Será que vão me convocar para fazer horas extras nos feriados da semana santa? Já estou com tudo programado. A patroa fazendo as trouxas, as duas filhas ouriçadas para a temporada na praia, o carro revisado, tanque completo, pneus calibrados e a paciência cheia para encarar o engarrafamento na saída da cidade). 

            – O senhor me chamou chefe? 

            – Sim. Tenha a bondade de sentar-se. Veja bem, Jurandir, sempre lhe consideramos um bom operário, cumpridor dos horários e das tarefas para que foi escalado. O que atrapalhou um bocadinho na sua boa avaliação foi essa fixação em participar nas atividades do sindicato, principalmente na liderança de greves. Esse negócio de sindicato só dá camisa para os políticos profissionais do sindicalismo e, logicamente, para o mais safo deles que hoje é considerado o “Cara”, o “Boa Pinta” pelo Presidente americano. Vê se pode? 

            – Você já está conosco há pouco mais de dez anos e estamos muito satisfeitos com seu trabalho. Progredimos juntos durante esse tempo. Mas acontece que, com essa crise mundial e a marolinha brasileira, nossa matriz lá nos States nos obrigou a dar uma enxugada no pessoal daqui, uma decisão também de amplitude mundial. Mesmo porque já estamos produzindo só sessenta por cento de nossa capacidade e incorrendo em prejuízos. Até a dispensa de um bom número de empregados vai onerar ainda mais os custos da empresa com o pagamento dos encargos trabalhistas devidos. Você conhece bem isso, como tais encargos gravam as atividades produtivas no Brasil. Se ainda considerarmos a alta carga tributária deste país, aí mesmo é que a vaca vai pro brejo. Qualquer dia a nossa matriz manda esta unidade para a China, literalmente. 

            – Indo aos finalmentes: a empresa resolveu demitir você, agradecendo pela contribuição prestada. Antes do feriado você pode passar pelo Caixa e receber o que lhe é devido. Em nome da Diretoria eu lhe desejo boa sorte e novamente agradeço o seu empenho enquanto trabalhou conosco. 

            Jurandir saiu cabisbaixo do gabinete do Chefe do Pessoal, despediu-se dos colegas que ainda continuariam trabalhando, passou pelo Caixa e se mandou pra casa. Passou antes pelo bar, pediu um chopps e dois pastel fazendo hora para retornar para casa só depois do expediente, como de costume. 

            Quando chegou, beijou Adelaide, que o sentiu meio abatido, tomou banho, comeu calado o lanche, enquanto as filhas continuavam a jogar um game no computador. 

            Deixou para informar a mulher no dia seguinte sobre a demissão, na sexta-feira da paixão, quando estava programada a viagem para a praia. Decidiriam então sobre a sorte do fim de semana no litoral. As filhas, forçosamente, não abririam mão do passeio. Vamos aguardar e ver no que dá. 

            Essas folgas longas, além das férias protocolares, eram sempre bem-vindas. Aqui no Brasil, com essa montoeira de feriados religiosos, quando em comemoração a cada ascensão aos céus ou a cada descenso aos túmulos de um santo, de Nossa Senhora e do próprio Jesus (trânsito intenso), e mais, a cada dia destinado aos padroeiros dos municípios, dos estados e do país, a vida para e vão todos para a praia. Habeas Corpus Christi! Além desses, ainda têm aqueles festejos globalizados pela civilização ocidental, cristã e consumista. 

            Deitou-se cedo e dormiu incontinenti. Depois da primeira hora de sono profundo começou a sonhar. 

            Estava agora trabalhando numa grande fábrica. Não sabia que diabo de fábrica era essa, o que produzia, nem o que fazer. Não conhecia os colegas. Ficava andando pra cima e pra baixo, às vezes sentava-se, observava o movimento, ouvia o barulho tradicional de uma unidade fabril, mas nada atinava. O ambiente era bom, agradável. Ao fim do expediente surpreendeu-se em uma bela casa, uma bem mobiliada residência, mas nada de família. Nada reconhecia. Foi aí que começou a desconfiar e compreender o que estava acontecendo.

            Diante do absurdo dos acontecimentos, aquilo só poderia ser fruto de um sonho. Lembrou-se do dia anterior em que fora despedido de seu trabalho na vida real. Do chopps e dos dois pastel, da chegada em casa, do beijo em Adelaide, do rápido banho, o mais rápido lanche, a cama e o sono que logo o tomou de assalto. Sim, exatamente, estava sonhando. Meno male, vou acordar e enfrentar a situação da demissão, o desgosto da mulher e o fracasso do plano de curtir o feriado alongado com as filhas na praia. 

            Mas, cadê que acordava! O sonho continuava e a ansiedade crescia com a procura frustrada de uma saída do pesadelo. 

            No dia seguinte Adelaide acordou cedo ao seu lado e observou o sono ainda profundo do marido, ressonando quase roncando. Deixa ele descansar mais um pouco antes de nos prepararmos para a saída. Afinal, da parte que lhe cabe, a de motorista, tudo já fora providenciado. 

            Passaram-se as horas, subia a agitação da mulherada e Jurandir dormindo. Às nove horas fizeram o primeiro intento para acordá-lo. Infrutífero esforço. As dez partiram para acordá-lo na marra, agitando aquele corpanzil. Nada! A situação começou a preocupar Adelaide. Ouviu-lhe a respiração. Normal. Abriu-lhe os olhos. Nenhuma reação. Pelo contato com as mãos e beijos na face notou que a temperatura do corpo era normal. A cor da pele também. 

            Chamaram a vizinha e por fim a ambulância. O médico mediu-lhe a temperatura. Pulsação. Estetoscópio a auscultar-lhe os pulmões e as batidas do coração. Tudo normal. – Jurandir, Jurandir, amô, atenda a sua Adelaide, por favor. – Pai, por favor, não brinca conosco, acorda, vamos. Nada de nada! Sono profundo. O pessoal do Pronto Atendimento não o removeu, pois não diagnosticaram nada de anormal, a não ser o sono profundo. 

            Por outro lado (bem aplicada, neste contexto, essa expressão) Jurandir vagava atoleimado pela casa, pelos corredores da fábrica e pelas ruas vizinhas ao fim dos expedientes e se impacientava. Como sair dessa, desse sonho? Não tinha ideia de quanto tempo estava sonhando ou por quanto tempo ainda sonharia. Sabia que já fazia algum tempo. Como acordar? Gritava, corria, beliscava-se, golpeava a cabeça. Nada mudava. 

            Numa de suas andanças no vai e vem da casa para a fábrica notou uma loja de armamentos, localizada nesse trajeto pelas artimanhas da mente e pela liberalidade da ficção. Rapidamente raciocinou e achou uma provável saída para o seu problema. Pensou e entrou. Talvez, se se matasse no sonho, pudesse voltar ao mundo real. Não lhe faria mal nenhum morrer no pesadelo. Nada sentiria. Deu tratos à bola, arquitetou uma abordagem segura ao simpático vendedor, simulou uma compra de uma boa arma. Escolheu um revólver calibre 38 com olhos atentos de bastante conhecedor da matéria, pediu balas, colocou-as no tambor, sempre apontando para o chão, indagou sobre o preço e, claro, não pagou. Adeus vida onírica ingrata! Prefiro a marvada da real. 

            Rapidamente apontou a arma para a têmpora direita e... Pum. Ouviu-se um baque seco provocado pela queda de uma bandeja mal colocada na beirada da mesinha de cabeceira, com uma jarra cheia de água e dois copos.  Caíram ao chão espatifando-se em pequenos e cortantes pedaços de vidro. Fruto de um pequeno descuido e de um esbarro da estressada mulher. A água escorreu por debaixo da cama onde estava jacente o adormecido. Ei-lo de volta ao seu corpo, acordadinho, conforme planejado, ao lado da aflita e nunca-tão-bem-vista Adelaide. Não sabia quanto tempo dormira e sonhara. Acordou assustado, feliz pela armação tão engenhosa para voltar a viver normalmente: um prosaico suicídio. 

            – Oh! Meu querido, como estava preocupada! Você dormiu durante dois dias. O que passou? Como está se sentindo? As crianças foram pra casa da avó. Nosso passeio gorou, logicamente. Sente-se. Dá para levantar? Vou avisar a mamãe e as crianças que você acordou bem. 

            – Estou ótimo e feliz. Vou tomar uma ducha e volto doido por um café. Estou faminto. Depois vamos ter uma conversa, tenho algo para contar.

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 70.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

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