ANO VII - N° 211, em 28 de fevereiro de 2009.
Crônica
EXCELÊNCIA
REVERENDÍSSIMA, EXCOMUNGAI-ME
Coitada da infante
nordestina que ia ser mãe de gêmeos! Aos nove anos já se tem um início de
descortino das coisas. Mas tudo ainda muito precária e desordenadamente. Tiro
essas conclusões pelo meu neto, de mesma idade. Numa conversa com ele eu disse
que o corpo humano tem nove orifícios. Ele me retrucou imediatamente: – a mulher
tem dez. Fiquei atônito e surpreso com a sagacidade do pequeno.
Mas uma criança de
tão tenra idade por certo não sabe por que aquilo estava acontecendo com ela: o
estupro do padrasto, sua gravidez, o aborto realizado e toda essa polêmica
gerada pela insensibilidade, obscurantismo, radicalismo e conservadorismo de Sua
Excelência Reverendíssima o Arcebispo de Olinda e Recife.
Faço uma
confissão pública a Vossa Excelência Reverendíssima: eu também sou a favor do
aborto nesse caso, como também da descriminação do aborto, do uso das
células-tronco embrionárias e contra esse tratamento irracional dispensado a
esses assuntos pela Igreja Católica. Eu, o Presidente da República, o Ministro
da Saúde, a maioria da classe médica e dos jornalistas e a torcida do Flamengo.
Até a legislação brasileira admite o que foi feito.
Então, por
favor, rogo a Vossa Excelência Reverendíssima que me excomungue também, como fez
com os médicos e enfermeiros que participaram do aborto da infeliz menina!
Vossa
Excelência Reverendíssima argumenta que o aborto é um crime maior do que a
pedofilia e o estupro, e que a lei de Deus é superior à lei dos homens. A
propósito, quem escreveu a lei de Deus, senão os seguidores das várias seitas,
onde não se descartam posições eminentemente corporativas? Não seria mais
próprio falar na lei da Igreja?
Mas, já que Vossa
Excelência Reverendíssima nem tomará ciência desta crônica, perdida a vaguear
pelo espaço cibernético do meu pobre site, presto-lhe um favor, antes que atenda
ao meu. Não precisa se incomodar: eu já me considero excomungado.
A propósito
pergunto: que diferença faz isso na minha vida? Nada, nadica de nada. A
não ser que partilhe da sua fé, na crença de uma vida eterna, o que não é o meu
caso. Mas, se houver essa vida eterna, eu gostaria de não a compartilhar na
companhia de pessoas com os seus posicionamentos. Mas não há perigo de nos
encontrarmos. Se isso vier a acontecer, com certeza estaremos ocupando
diferentes departamentos dessa Divina Comédia.
Lamento ao recordar
que essa arquidiocese esteve dirigida pelo preclaro Dom Hélder Câmara, de
saudosa memória, de quem comemoramos neste ano o seu centenário de nascimento.
Aliás, que limpeza o senhor fez no que ele deixou, para que nada restasse de sua
passagem e da prescrita Teologia da Libertação! Ah! a Igreja e seus partidos,
suas ideologias, nada diferem da política profana!
Em que batina
justa o senhor colocou toda a Igreja (poderia simplesmente ficar calado), a
sediada em Roma (que por sinal é contumaz em posições dessa natureza, neste
papado e também no anterior), mas também a tão prestigiosa e vanguardista (em
termos, é verdade), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)! Essa, nem
sequer, em seu comunicado, fez alusão à excomunhão.
É triste! O meu
respaldo para fazer estas considerações apressadas e iradas são também as
conhecidas histórias envolvendo personalidades tais como Giordano Bruno, Galileu
Galilei, Charles Darwin, Sigmund Freud e toda a gama de personalidades que
contribuíram para a evolução da humanidade, apesar dos entraves colocados pela
Igreja, por suas instituições e por seus inúmeros seguidores.
A Humanidade
tem feito progressos admiráveis na trilha do conhecimento, fazendo com que
evoluamos num sentido mais aceitável, embora ainda caminhando num terreno cheio
de injustiças sociais e políticas. A Igreja Católica e o pensamento religioso em
geral, ao assumirem posições retrógradas e dogmáticas, inclusive nessa seara
social e política, vêm contribuindo, e muito, para o atraso dessa marcha.
Religião é
algo que deve se circunscrever ao foro íntimo de cada pessoa e não ocupar
posições políticas e públicas. Sempre que isso acontece, quando transpõe os
limites do que deveria ser o seu círculo de giz, dá nisso. Discussões,
incompreensões e, pior, briga, violência, guerras. Quantas guerras e mortes a
história registra que se fizeram in nomine Dei!
Vade retro!