Jornalego

 

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ANO VII - N° 209, em 30 de janeiro de 2009.

Artigo 

 

CEGUEIRA PARADIGMÁTICA

 

            Essa expressão foi tomada do Leonardo Boff. A ideologia desse ex-sacerdote da igreja católica é-me simpática. O seu idealismo religioso é que não se coaduna com a minha maneira de pensar. Esse meu parecer serve igualmente para Frei Betto. No entanto admiro ambos. 

            Neste artigo, estarei me ocupando e me preocupando, mais uma vez, com a crise econômica, social, política e ambiental que assola o mundo nestes dias que correm. Um verdadeiro tsunami com culpados bem definidos, dispensando assim os genéricos Deus pai e a mãe Natureza. A serpente foi gerada e criada no ninho do paradigma sobre o qual foi erguida a estrutura de nossa atual maneira de viver. Falando menos eufemisticamente: o regime capitalista e seus filhos diletos, o consumismo e a gaiafagia (neologismo para a agressão à Terra).  

            Esse paradigma não mais satisfaz a humanidade, assim como também não o fez o paradigma comunista. “O velho já morreu, e o novo ainda não nasceu” (Gramsci). 

            Recentemente fui gozado por um amigo sobre a hecatombe socialista na União Soviética, à luz da avassaladora e arrogante onda do capitalismo triunfante que se seguiu ao fim da experiência soviética, trazendo no útero o seu terrível pimpolho: o neoliberalismo. Na realidade zombava da minha postura esquerdista que nutria (e ainda nutre) a esperança de ver a humanidade mais bem servida do que com as migalhas do banquete capitalista. Não seria o caso de zombar dele agora com a crise do regime dominante? 

            Existe um slogan em uma instituição de ensino que eu muito aprecio. O slogan, não a filosofia da instituição. Mesmo porque a desconheço. A frase é a seguinte: “Em prol da superação humana”. Será isso uma quimera? Acredito que tal proeza possa ser conseguida, ou pelo menos perseguida, embora muito paulatinamente, talvez sem nunca atingir totalmente o objetivo, mas com possibilidades de grandes progressos, com uma nova concepção política que ainda não vigorou plenamente no planeta. 

Não é necessário dizer que estão descartadas de nossa argumentação todas as experiências com o mesmo fito dos autoritarismos nazi-fascista e comunista. 

            É costume argumentar em favor do capitalismo dizendo que ele é o regime econômico que mais condiz com as características do gênero humano. Mas isso não impede a necessidade e a possibilidade de modificar esse regime e, a partir daí, superar o lado sinistro da condição humana nas relações humanas. É uma tarefa de gigantes que, necessariamente, tem que ser levada à frente pela vontade política dos povos e por seus governos. Uma tarefa eminentemente política, com a participação forte dos Estados nacionais e organizações internacionais. 

            Ora direis: a condição humana é imutável. Pois eu digo: não. O processo civilizatório está aí para corrigir essa tal de condição humana dos desvios que não são aceitáveis para se viver em sociedade. Os animais, incluindo as pessoas, têm seus instintos. Nas pessoas, todo o intricado complexo que compõe a mente, juntamente com os instintos, deve ser disciplinado, orientado e até reprimido para se chegar a um ponto aceitável de convivência em sociedade. Para os animais temos coleiras e outros instrumentos de coerção. Para o gênero humano, educação, legislação e regulamentos que lhe imponham uma ética adequada. 

            Desde crianças a educação serve para transformar os indivíduos em cidadãos e pessoas civilizadas. Quando isso não acontece, tem-se o rigor das punições. Liberdade é a faculdade que você tem de atravessar uma rua, na faixa de pedestres, com o sinal aberto para você, depois de olhar para os lados e principalmente para a reação dos motoristas que lhe dão passagem. Portanto, há regras para dar vazão à prosaica vontade de atravessar uma rua. 

            Assim também, como é sabido, o regime econômico. A competição, o lucro (e sua terrible enfant: a ganância), o livre mercado, enfim, esses dogmas do sistema capitalista têm que ser revistos e disciplinados. É o que os governos fazem para cercear as tentativas de monopolização em algum setor da economia. 

            Outro exemplo radical é o que regula as vontades nos testamentos e nas transferências de propriedade e de riqueza para herdeiros. Se algum desses últimos se sentir prejudicado ou preterido pelo doador, pode recorrer à justiça e embargar o processo de transferência da herança até um julgamento que seja considerado justo. O testamento, como um ato de vontade individual, não é soberano. Só o é em termos. Nada mais claro ao cerceamento da incensada livre iniciativa. Além disso, os governos, em geral, tributam as heranças, mais ou menos pesadamente, e a filosofia socialista advoga a pura não transferência dos bens e riqueza para herdeiros por um princípio de igualdade na geração seguinte.  

            Assim como nesses exemplos, é falacioso dizer que o regime capitalista, por ser o que mais se coaduna com o comportamento humano, tem que prevalecer. Não necessariamente. 

            A experiência socialista/comunista da ex-União Soviética vem sempre à baila para impugnar qualquer discussão ou tentativa de se aprimorar ou mudar o regime capitalista. Regime este que se caracteriza por crises constantes, causadas exatamente porque não são corrigidos os seus excessos. 

            A crise atual nos oferece um bom caso para análise. Em primeiro lugar, não é dentro do mesmo paradigma que a criou que se vai encontrar a solução para a saída. Existe, ao lado da cegueira paradigmática de alguns, praticada principalmente pela mídia que informa e opina sobre ela, um cinismo paradigmático dos causadores da crise. 

            Quem são esses vilões? São os mesmos titãs (ou seus lídimos representantes) que se reúnem anualmente em Davos, na Suíça, no Fórum Econômico Mundial, para analisar a situação e se aparelharem para novos e proveitosos botins. Com que cara de pau eles aparecem agora, como se não tivessem nada a ver com a crise causada por eles próprios! Que, por sinal, lhes permite ganhar fortunas e continuar ganhando quando ela for superada. A eles interessam, e muito, essas crises capitalísticas, principalmente pela abertura das cornucópias governamentais subsidiando suas atividades desequilibradas e aviltando o fator trabalho. Foi o que tentei passar num artigo recente intitulado “Que Delícia de Crise”. 

            Eles são os primeiros a alardear a crise (seguidos pela grande mídia) para exercerem as suas demandas aos governos e porem em prática a carnificina do desemprego, sem grandes desculpas a não ser “A Crise”.  

            A primeira reação é demitir empregados. São milhões de pessoas que se jogam na rua da amargura a se baterem por novos empregos, onde vão ganhar menos, e se ocuparem em reciclagens profissionais para se candidatarem a novas colocações, nem sempre com sucesso. Tenta-se resolver o problema ao nível do fator trabalho, quando o problema é mais em cima, da superestrutura do sistema, na cúpula. 

            O resultado é o constante aviltamento do valor do trabalho, dos salários. Quando esses contingentes de trabalhadores voltarem ao trabalho (se voltarem) estarão com os seus níveis salariais situados bem abaixo do que foram antes. É uma chacina! Principalmente na periferia do sistema. A canalha, assim chamada pelos burgueses de antanho. 

            A crise capitalista mundial não vai melhorar com paliativos de natureza capitalista. Aqui não vale a máxima da homeopatia: combater o mal com o próprio mal. Só com cirurgia drástica. Se não esses preconizadores do receituário homeopático/capitalista vão continuar a ganhar rios de dinheiro nas costas de muita desgraça humana ao perpetuar o sistema. Afinal, a desgraça humana não faz parte da condição humana, se o faz é por causa dos sistemas econômicos prevalecentes. 

            No caso brasileiro, em plena crise, os banqueiros que já dispensaram milhares de funcionários, continuam com suas aquisições de outros bancos e apresentando grandes lucros. Depois da junção do Banco Itaú com o Unibanco, agora é a vez do Banco do Brasil adquirir o Banestes (Banco do Estado do Espírito Santo). No setor siderúrgico fala-se da aquisição da CST, do grupo Acelor/Mittal pela Vale e os chineses da Baosteel. Eis, na verdade, os canalhas. 

            Estou irado. E daí? Deixem-me destilar minha ira. 

            Fala-se em reforma na legislação trabalhista brasileira para enfrentar a crise com o enxugamento dos direitos do trabalhador. Igualzinho ao recente enfrentamento do terrorismo com o relaxamento dos direitos civis, nos Estados Unidos da era Bush. Que isso passe pela diminuição dos encargos trabalhistas do patrão sem prejudicar o empregado. Muito pelo contrário, acho que é hora de privilegiar com subsídios a parte mais fraca do sistema e não a parte mais forte. Ajudar exatamente a parte que está pagando o pato. Políticas que aprimorassem o auxílio desemprego, subsidiassem diretamente famílias carentes e implantassem algo como um imposto de renda negativo seria até mais barato do que esses grandes pacotes para beneficiamento de empresas. 

            Quanto às empresas elas precisam ter consideração maior pelo emprego de seus trabalhadores, compartilhando com um pedaço de sua poupança para a manutenção de sua mão de obra. Os governos, com suas medidas protecionistas e xenófobas precisam pensar menos nos interesses particulares e ter uma visão cooperativa globalizante. 

            Uma advertência: o problema atual não se resolve com o romantismo do amor e do idealismo religioso. Por sinal, todas as vezes em que se misturou religião com política, o resultado foi guerra fundamentalista. Assim também a psicanálise e psiquiatria servem ao indivíduo. Tais métodos funcionam muito bem no nível pessoal. O problema geral está para ser resolvido no campo político. 

            Um novo sistema passa pela cooperação e não pela competição, pela regulação, pela visão ecológica. Esse sistema é necessariamente de caráter socialista (ou que outro nome queiram dar), nem que isso seja, para começar, a negação do capitalismo. Um socialismo globalizado, internacionalmente cooperativo, ecológico, democrático e humano. Isso seria respeitar a condição humana. Uma tentativa de socialismo. A Internet, num futuro próximo, pode vir a ser um bom instrumento para viabilizar isso, criando uma nova ágora planetária. 

            Uma área muito interessante da grande mudança que urge ser discutida e revista é a do processo democrático. Essa democracia representativa que aí está faliu também. Embora haja mudanças: Lula no Brasil e Obama nos Estados Unidos, eles, com ligeiras diferenças, são a continuação do mesmo esquema ortodoxo que vem dominando seus países por gerações. 

Quando a democracia pare (do verbo parir) um Lupo, um Morales, um Correa ou um Chávez, com todos os seus defeitos congênitos, a terra treme e eles são passíveis de cair, como novas versões de Allende e Goulart. Esse é o medo de muitas lideranças comprometidas com as mudanças que, para se elegerem e se manterem no poder, aderem ao sistema. 

            A mudança é possível. Tem que ser tentada. Tenho a impressão de que Marx ainda vive, pois quando sua filosofia foi usada para justificar o comunismo soviético de estado (que, não obstante, nutriu muitas e sinceras esperanças) o foi como farsa. Sua filosofia está aberta a novas experiências. A mais valia está mais válida do que nunca. Salta aos olhos. 

            Finalmente, se a mim é permitida a crença no socialismo é justo que também seja a Boff e a Betto a crença no divino. 

  

Genserico Encarnação Júnior, 69.

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