Jornalego

 

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ANO VII - N° 207, em 30 de dezembro de 2008.

 

Palimpsesto: Ficção sobre fatos

  

PAÍSES BAIXOS

ou

MEU AMIGO VIETNAMITA 

 

            Não sei por que, nos documentos oficiais brasileiros se convencionou chamar aquele pequeno país no noroeste da Europa de Países Baixos, assim mesmo, no plural. Seu nome oficial é Nederland, que deve significar terra baixa no vernáculo deles. Em inglês, o nome já vai para o plural, incluindo também o artigo: The Netherlands. Talvez, por isso, tenhamos optado pelo plural, traduzindo diretamente desse idioma, e em vez de terras, achássemos mais simpático adotar países. O nome Holanda, como a gente o conhece por aqui, é tão-somente o de uma região do país. Aliás, são duas as regiões com esse nome: a Holanda do Sul e a Holanda do Norte. É na primeira que se encontram as principais cidades (Amsterdam e Rotterdam), incluindo a capital oficial (Haia). 

            Nós estávamos cursando o ano letivo de 1974/1975, no Instituto de Ciências Sociais (ISS, sigla a partir do nome em inglês), em Haia. Den Haag, em holandês, The Hague em inglês, La Haye em francês, La Haya em espanhol e ’s Gravenhage em holandês arcaico ou oficial (assim mesmo: com apóstrofo e a letra S antes do nome principal).

            Antes do início das aulas eu conheci Guang (com G final mudo), um sul-vietnamita, que veio a ser um grande amigo meu. Seu país estava em guerra com o Vietnam do Norte, apoiado pelos Estados Unidos da América. Senti algum escrúpulo em dizer que os Estados Unidos estavam em guerra no Vietnam. Não havia declaração oficial americana nesse sentido. Mas era o que, em verdade, acontecia. Oficialmente, a maior força militar do mundo estava sediada ao sul do país, simplesmente para dar suporte a um governo fantoche, que defendia seus interesses na região. Incluindo o de afastar a ameaça comunista sino-soviética da península da Indochina. O grande inimigo, à época, era o fantasma do comunismo internacional, agora substituído pelo terrorismo internacional, pretexto para se invadirem países interessantes do ponto de vista estratégico. Outras justificativas igualmente criativas existem por aí, como restaurar a democracia, destruir arsenais atômicos inexistentes, combater o narcotráfico ou proteger o meio ambiente. 

            Na noite em que cheguei, hospedei-me num hotel ao lado do Instituto. No dia seguinte, logo cedo, fui visitar o local onde passaria um ano. A primeira pessoa que conheci estava ao meu lado no balcão da Secretaria para as devidas inscrições: o Guang. A partir daí estivemos sempre em contato. 

            Uma grande vantagem do Instituto era que, nos procedimentos de admissão realizados nos países de origem, todos os candidatos deveriam comprovar conhecimento e fluência no idioma inglês, a língua oficial do Instituto. Portanto, a comunicação se dava fácil entre os alunos, apesar dos diferentes sotaques. O ISS era e ainda é um dos instrumentos do governo holandês para prestar ajuda aos países em desenvolvimento. As bolsas eram contabilizadas nas contas nacionais como tal ajuda. A ONU sugeria (o que nunca foi devidamente cumprido) aos países ricos que destinassem um por cento de sua renda para esse tipo de investimentos sociais no, assim chamado, Terceiro Mundo. A vantagem para eles, nesse caso, é que isso era feito dentro de seu próprio território. 

            O ISS tinha várias turmas nos diferentes cursos. Congregava quase duas centenas de alunos bolsistas, lídimos representantes dos países em desenvolvimento (eufemismo para designar os subdesenvolvidos), da América Latina, da África e da Ásia. O meu curso tinha 20 alunos de 18 nacionalidades diferentes (Brasil, Bolívia, Chile, Equador, Colômbia, Peru, Panamá, Somália, Tanzânia, Sudão, Iraque, Etiópia, Filipinas, Sri Lanka, Bangladesh, Malásia, Coréia do Sul e Tailândia). O objetivo de todos os cursos era o de fornecer instrumentos aos participantes para que, na volta a seus países, pudessem colaborar mais adequadamente nos seus respectivos processos de desenvolvimento. Um alerta: nada é neutro, ideologicamente falando, nem instrução, nem cultura, nem informação. 

            Eu não era colega de classe do Guang. Ele freqüentava outro curso, o que não impediu que continuássemos amigos. No dia em que o conheci, também conhecemos Catherine, uma francesinha, um dos pouquíssimos representantes dos países ricos lá no Instituto; havia uns dez, se tanto, até um dos Estados Unidos, feroz anticapitalista. 

            Guang imediatamente caiu de amores por Catherine. Encetou com ela um papo em francês, língua dos seus antigos colonizadores, a qual dominava satisfatoriamente, o que não precisava fazer, só para mostrar serviço, pois todos nós falávamos inglês. Sentamo-nos a uma mesa na sala de recreação do Instituto e assim ficamos várias horas engatando altos papos. Em inglês. Ainda não conhecíamos ninguém, aliás, fomos uns dos primeiros a chegar ao Instituto. Ela estava muito interessada na delicada situação em que se encontrava o Vietnam e na ditadura militar brasileira. No caso do meu país, especialmente na indexação dos valores monetários, correção monetária, que passou a vigorar por aqui em face das altas taxas inflacionárias e no intuito de contê-las, ou pelo menos conviver com elas da melhor maneira.  

Guang, desde o início mostrou-se muito interessado pela menina que preenchia as suas fantasias sexuais, formadas pela aculturação da então colônia francesa aos padrões do colonizador: aquela mulher superior, inatingível, sensualíssima, a despeito de ter em seu próprio país belos espécimes do sexo feminino. 

            Lembro-me que ela vaticinou a derrota americana no Vietnam. Já acumulava a experiência mal-sucedida do seu próprio país por aquelas bandas. Eu, querendo dourar a pílula, tentava amenizar o que estava acontecendo no meu país. Ouvi dela uma frase que passei a usar ao explicitar o meu ódio pelas ditaduras: “prefiro a pior das democracias a uma ditadura”. “E mais, prefiro uma ditadura de esquerda a uma ditadura de direita”. Catherine era extremamente politizada. 

            Guang começou a sofrer com a corte não correspondida por Catherine. Pedia-me conselhos e ajuda para interceder por ele junto à bela francesinha. Estávamos sempre juntos, principalmente nos primeiros meses, nos almoços no Instituto. Assim se passou todo o ano. Quando as aulas terminaram, ele ainda estava fissurado por ela. Ela a esnobá-lo. Mesmo depois que voltei ao Brasil ainda recebi uma carta chorosa dele, contando das dores de amor por que passava. Nunca conseguiu alcançar seus objetivos afetivos e sexuais. O Vietnam e os vietnamitas valiam para ela como caso de estudo. Guang iludiu-se com o tipo de interesse dela. Interessada mesmo Catherine estava pela Secretária do Instituto, uma mulher grandalhona com saúde de vaca holandesa premiada. 

            Guang freqüentava a nossa casa e contava as vicissitudes por que passava no Vietnam. Eu tinha levado mulher e filhos e alugáramos um aconchegante e pequeno apartamento, mobiliado, nos limites da cidade. As crianças freqüentavam escolas holandesas. Diante do “luxo” em que vivíamos, confessou-nos que era casado, deixara mulher e um filho em seu país e se preocupava muito pelo que estavam passando por lá. Em sua casa havia poucos talheres, pratos e copos e eles se revezavam no seu uso. Ele era funcionário de um Departamento governamental. Foi conosco à Bélgica, de carro, num passeio familiar, num fim de semana, como meu convidado. Era muito amável com as crianças. 

            Numa viagem de estudos, nossas turmas foram visitar a Áustria, cada uma visitando uma instituição internacional diferente sediada em Viena, mais afeita aos interesses dos nossos respectivos cursos. Na folga do final de semana fomos, com um grupo, passear em Salsburgo e cidadezinhas vizinhas, enquanto outro grupo foi a Budapeste. 

            Foi interessante essa divisão. Vivíamos em plena guerra fria. Os alunos de países sob governos autoritários ou da órbita americana ficaram na Áustria, foram para Salsburgo. Os outros foram para a Hungria, ainda um dos países satélites da União Soviética. Eu não tinha visto de entrada nem autorização da Embaixada Brasileira para pisar solo comunista. Como funcionário de uma empresa estatal brasileira, possuía um passaporte oficial, azul, que restringia os meus passos ao estrito cumprimento do objetivo da viagem. Era quase como uma missão oficial. Estávamos a 60 km de Budapeste e o mesmo tanto de Salsburgo; Guang e eu “optamos” por visitar a cidade onde vicejou o talento de Mozart. Os outros foram atraídos por Budapeste. 

            Ao final do curso, voltei para o Brasil, Catherine voltou para Paris. Guang não pôde voltar para casa. Os Estados Unidos haviam perdido a guerra no sudeste asiático. A sua bela Saigon, agora Ho Chi Min, e todo o resto da península estavam totalmente ocupados pelas forças do norte. O exército americano escafedeu-se, e quem servia ao governo do Sul fez o possível e o impossível para sair. Foi deprimente o assalto à Embaixada Americana na capital vietnamita e a tentativa de embarcar nos helicópteros que evacuavam os americanos e os vietnamitas que conseguiam galgar as aeronaves. 

            Guang, como funcionário de uma agência do governo defenestrado não pôde voltar. Mulher e filho ficaram. Depois de algum tempo ela veio se juntar a ele na Europa. O filho ficou com tios e avós. 

            Recebi carta sua contando sua situação como exilado e cogitando até vir para o Brasil. Eu o aconselhei a não fazer isso. Vivíamos o auge da ditadura militar e achava que não seria bom para ele, nem para mim como anfitrião. 

            Durante a minha estada na Holanda às vezes eu pensava: se houver uma reviravolta política no meu país e forças de esquerda ganharem o poder por lá, eu vou ter que ficar exilado por aqui, com passaporte oficial de um governo militar, sem nada ter com qualquer facção política. Caio na armadilha que pegou o Guang. Sonhava em invernos intermináveis e nunca mais voltar para o tropical sol do meu país. Imaginem a real situação psicológica dos milhares de exilados brasileiros que se espalhavam pelo mundo afora! 

            Depois de apaziguados os ânimos bélicos, a situação do Vietnam foi aos poucos se normalizando, e Guang pôde voltar com a mulher e lá, espero, tenha refeito sua vida pacificamente. Pelo que sei, não sofreu nenhum constrangimento maior do novo governo, dado que não era politicamente militante nem engajado no que foi deposto; nada tinha a ver com as forças americanas de ocupação. Depois disso perdi o contato com ele. 

            A partir daí eu comecei a associar a denominação “países baixos” a todos aqueles dominadores de diferentes povos subjugando-os, explorando-os até o sabugo dos ossos. Conquistadores, colonizadores, seja belicamente, economicamente ou culturalmente. Baixos de praticantes de baixaria. 

            Recentemente recebi um e-mail do Guang. Que surpresa! Que alegria! Ele fez uma pesquisa no Google com o meu nome que o remeteu para o site do Jornalego e, mesmo sem conhecer bulhufas de português, descobriu ao final dos textos o meu endereço eletrônico, e, daí para a minha caixa de entrada de mensagens na Internet foi um pulo. Estão bem, obrigado, o Guang, a família e seu país. Convidou-me insistentemente para visitá-los. É o que farei no ano de 2009.

 

– Mulher, arruma as malas, vamos ao Vietnam, vamos visitar o Guang!

– Você ficou maluco marido? Não era você que dizia que não viajava mais. Agora quer se bandear para o Sudeste Asiático. Ficou louco? Se for para viajar que seja um passeio pela Europa, para recordar o tempo que passamos na Holanda.

– Deixa de baixaria mulher! Vietnam: aqui vamos nós! Estou tão animado que, depois do Vietnam, quero ter ainda muita saúde e vigor para, em curto prazo, poder rever Bagdá e ver Kabul, livres de ditadores e invasores. Quem sabe, numa outra viagem, a gente não vai até Guantánamo. Talvez, até lá, aquela região se transforme num belo balneário. Sou capaz até de dar um mergulho nas águas do Caribe. Espero que sejam mornas e não tão gélidas como as águas do mar capixaba, nas quais eu não ponho sequer as pontinhas dos pés.

                  

 

Genserico Encarnação Júnior, 69.

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