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JORNALEGO ANO VII - Nº. 202, em 30 de setembro de 2008. Conto-ensaio
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA E A LUCIDEZ
Quando me aposentei, vim, com mala e cuia (o resto dei ou vendi) e com esperança de sossego e paz, morar nesta costa maravilhosa e ensolarada, neste pequeno balneário, ainda não maculado pelo turismo, exatamente na metade do grande litoral de minha terra natal, onde o norte o sul fazem seus limites. Desde que, quando jovem, me fui daqui para terminar meus estudos e cumprir uma carreira profissional que teve seus altos e baixos, felizmente mais altos do que baixos, eu sonhava em um dia poder voltar para gozar, nessa praia de pescadores frequentada por surfistas solitários, o tempo livre com a minha fiel companheira. Os filhos, já crescidos, estão a cuidar dos nossos netos alhures. Como seria bom poder ler todos os livros que eu comprara e não lera por força da minha total disponibilidade ao trabalho. Poder passar ociosas horas ouvindo as músicas dos discos que colecionei ao longo dos anos! Escrever alguma coisa. Entre os livros que li, e, mais recentemente, reli, estão dois romances do Saramago, por ele chamados de ensaios, que fundi para nomear estas linhas. Ao termo dessas releituras resolvi contar uma história que é inspirada por eles, mas que se refere ao meu tão sonhado lugar, para onde sempre pensei em voltar (e voltei) e gozar (e ainda não gozei) os melhores dias de minha vida. Logo que cheguei, me vi privado de sentir no rosto, na varanda de minha casa, as saudosas brisas do meu tempo de criança. A memória idealiza a realidade. O que sinto é o forte vento norte que me traz o mau cheiro das indústrias situadas por aquele lado e a poluição dos seus gases siderúrgicos e a dos particulados minerais que viajam em suspensão por sobre a faixa de mar e vêm cair sobre a minha calva. Ainda me lembro: do lado sul vinha o vento, descendente direto do pampeiro e do minuano, que trazia o frio e a chuva. Nesta segunda década do século XXI também traz mau cheiro e poluição das usinas metalúrgicas e siderúrgicas por esse lado instaladas mais recentemente. Não há escapatória, seja qual for o lado para o qual me vire, norte ou sul, o fatídico “desenvolvimento econômico e industrial” está a me azucrinar. As grandes descobertas de petróleo e gás que se seguiram, ao longo da costa, vieram agravar esse quadro. Pelo menos geram royalties. O pum cheiroso. Os outros empreendimentos nos brindam com alguns parques, praças, reservas florestais e outros penduricalhos de igual natureza. Muita poluição e créditos fiscais. As estatísticas econômicas mostram belos índices de crescimento industrial, o maior consumo per-capita de energia do país e outros desempenhos maravilhosos. Nessas estatísticas não há indicações sobre a Poluição Interna Bruta (PIB?). Estou me esquecendo de que, neste texto, eu me sentei para escrever um conto ou um tipo de peça literária e me descubro escrevendo um relatório técnico sobre o desenvolvimento insustentável de minha terra sonhada. O uso do cachimbo fez a boca torta. Estou tentando disfarçar chamando isso de conto-ensaio. Como um Saramago sem virtuosismo. Vamos ver se ainda há tempo de colocar este escrito na senha de um tipo de conto, ficcionalmente realista. É o que tentarei fazer. Depois desses sucessos industriais estrondosos, que contam com a simpatia da população e da sua parcela mais pragmática, contaminada com o vírus do desenvolvimento econômico, a localização do meu paraíso terrestre passou a interessar a outros capitais e atividades. Agora é a vez de um consórcio internacional de capitalistas que quer instalar aqui por perto, no meu município, à vista de minha casa, à beira do mar, uma indústria multipropósito. Constam do projeto também um porto e um extenso píer a violentar a praia, para o recebimento de matéria-prima e o escoamento da produção, como se verá adiante. A que vem essa indústria multipropósito? Explico-me: seus produtos vão servir para várias finalidades: fertilizantes para a agricultura, ração para criação de peixes, combustível e outras utilizações correlatas. Excrementos orgânicos, humanos e de animais, serão utilizados como insumos e transformados em produtos que servirão para aqueles fins. Os fertilizantes orgânicos são muito melhores do que os de outras origens, daí a sua grande demanda. Será produzida também uma ótima ração para alimentação de peixes criados em cativeiros, utilizando-se técnica milenar conhecida pelos chineses que, exatamente, por esse detalhe, participarão da composição do capital da empresa. Eu, particularmente, não estou muito seguro quanto ao gosto que terá esse pescado! Isso me lembra Josué de Castro, ao descrever o rodízio da fome: os caranguejos se fartavam do alívio da população nas palafitas do Recife a qual, por sua vez, aliviava a carência de alimentos comendo o crustáceo. Finalmente, a industrialização da escatológica matéria-prima levará à produção de um gás biocombustível, a ser usado na geração de energia elétrica, inclusive para o consumo da própria fábrica, e a ser utilizado em veículos e em motores em geral. Enfim, uma genial realização da iniciativa privada! A exigüidade de matéria-prima local necessitará de sua complementação via importação, de outros pontos do país e mesmo do exterior, dada a enorme necessidade do input para a produção dos, assim chamados, outputs. Logicamente, todos os cuidados quanto à preservação do meio ambiente serão tomados e vêm expostos nos bem-elaborados e ilustrados relatórios de impacto ambiental (Rima). A única coisa que pode acontecer pela movimentação de grandes volumes de excrementos e sua transformação nos ditos produtos é provocar certo desconforto olfativo que, contudo, não levará nenhum perigo à saúde dos habitantes do lugar. Só a ligeira sensação de que defecaram no mundo. Como o capital majoritário será francês, permitiu-se a essa nacionalidade e ao seu belo vernáculo o privilégio de batizar o empreendimento. Numa concessão à beleza litorânea do lugar, em homenagem às suas praias e falésias costeiras, a iniciativa receberá o sonoro e poético nome fantasia de MER DE TOUT LE MONDE (*); muito significativo seja pela cacofonia, seja pela insinuação de que esta terra é de ninguém ou de todos (o que dá no mesmo), que aqui aportam para elaborar o que não podem fazer, por alguma razão, em seus países de origem. A população cega exulta com a possibilidade de novos empregos, o que permitirá a continuação do desenvolvimento do município e do estado e mais divisas para engordar o balanço de pagamentos do país, já que a grande maioria da produção será exportada, não gerando impostos, só créditos fiscais. Continuo a me insurgir contra tais empreendimentos no solo de nosso estado. As mesmas conseqüências maléficas desses tipos de indústrias manufatureiras já instaladas continuarão a ocorrer, agora em maior escala, sem grande oposição dos habitantes. Nada abala o plácido estado de espírito santo dessa gente de valor que não tem medo de fumaça. Eu já estou a fazer uma pesquisa para ver para onde levo as minhas tralhas para viver os meus derradeiros e, como já disse, pretensamente, os melhores anos de minha vida. Curtir o que resta de minha aposentadoria sem tanta aporrinhação como as por que passei e passo por aqui, ao assumir esta posição crítica e pública a esse tipo de desenvolvimento. Deixo aos mais jovens essa batalha inglória, porque sei qual será o seu fim. Simplesmente: o fim. Só há uma única esperança para que este último empreendimento não venha a se viabilizar, isto é, dar em merda: se a previsão dos pessimistas se confirmar, isto é, faltar merda! Quem viver verá! Em terra de cego, quem tem um olho é lúcido, embora, literalmente, ou como simples figura de retórica, mal-visto. Vou-me embora para Pasárgada.
(*) Lembranças do Pasquim.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES).
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