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JORNALEGO ANO VII - Nº. 200, em 10 de setembro de 2008. Crônica
O TEMPO NÃO SE BLOQUEIA
“Ele vem dum outro mundo, duma outra era”. “O mundo moderno fica além da compreensão dele”.
Por ocasião de um número anterior deste prestigioso órgão da imprensa alternativa (Nº 198 - O Tempo Bloqueado), recebi várias opiniões a respeito. Coincidentemente, li alguns artigos jornalísticos, publicados naquela oportunidade, e dois livros, que tocavam no mesmo assunto. Um desses últimos foi o “Diário de um Ano Ruim” (*); o outro foi “Diálogos Criativos”, de Domenico De Masi e Frei Betto. O mais interessante, no entanto, foi uma conversa que tive com minha filha, professora de comunicação. Diálogo, aqui reproduzido com um pouco de criatividade literária. Ela me fez ver que eu estou inserido de corpo e alma no mundo pós-moderno e no presente século, sobre os quais fiz desabar uma tempestade de críticas. – Sou do século passado, este século não me pertence, nem eu a ele. Sou mero sobrevivente nele. – Ledo (Ivo, pensei) engano, retrucou-me ela. – Você usa instrumentos pós-modernos, a mais apurada tecnologia eletrônica e virtual, a Internet, lança suas histórias e idéias no mundo cibernético da telemática usando uma linguagem moderna (o que não quer dizer que use a linguagem cifrada dos internautas). – Você não pode fugir do tempo: você é pós-moderno. – Você não é filiado a nenhuma instituição, não pertence a nenhum partido político, não é religioso, não defende nenhuma ideologia cristalizada, acredita que nem votará na eleição para o próximo Presidente da República, sua visão global é individualizada (o que não implica ser egoísta), nenhuma paixão, nenhuma crença, a despeito de sua preocupação humanística. – Você é o próprio PM (!). – PM? PM! (entenda-me como quiser): Sou pós-moderno! Tá bem filha, não posso me furtar de viver neste século novo e usar as ferramentas disponíveis que ele me oferece. Também não sei como me esconder das idéias vindas com ele. Mas não abro mão: sou do século passado! – Já entendi, pai. Você não cultua o século passado. Ele tem cada pecado que não convém que seja objeto de culto! Você tem é saudades de sua juventude! – Contudo, filha, permita-me ser ranheta, casmurro, ranzinza, rabugento, seja lá o que for. É meu direito de quase setuagenário. Raciocinando: acho que minha mente foi formada num tempo de certezas e determinismos, newtoniano, cartesiano, idealista, ideológico. Não necessariamente estático, mas dinamicamente previsível e estimável. Linear. No século XXI, regendo nossos corações e mentes, prevalecem novas leis da física que, por sinal, vêm do início do século passado. A mudança foi tão radical que os próprios criadores do novo esquema mental, a física quântica, inicialmente não quiseram admiti-la. Até Einstein, um dos seus fundadores, disse uma grande besteira (se é que disse): “Deus não joga dados”. As novas leis mostram que o mundo é aleatório. Deus ou a matéria jogam, sim, os seus dadinhos. No entanto, a matéria é que é quântica. Nenhum deus pode ser probabilístico, quântico; por sua própria natureza os deuses são determinísticos, a não ser que abram mão de sua presumida onipotência. “As leis probabilísticas da física quântica nos oferecem um modo melhor de entender o universo do que as velhas leis deterministas. Melhor, porque a substância do universo é, em certo sentido, indeterminada, e tais leis estão, portanto, por sua natureza, mais de acordo com a realidade. O modo de pensar sobre a relação entre presente e futuro, tipificado pela previsão, depende de um sentido de tempo arcaico”. (**) Nesse particular, lamento que, muitos teólogos, crentes e espiritualistas tenham passado a usar, de maneira apressada, os princípios da teoria quântica para tentar explicar cientificamente sua fé. Como demonstrado acima, a divindade não se coaduna com os princípios quânticos. Mas, que eu não pertenço a esse mundo pós-moderno é uma realidade palpável em mim. De certa forma, rejeito-o. A propósito e por oportuno, que troço chato essas olimpíadas modernas! Panem et Circens dos tempos que correm. “Por que o mundo precisa ser uma arena de gladiadores (...), em vez de, digamos, uma colméia ou um formigueiro, intensamente colaborativos?” Vejam bem: esses são meros pensamentos ultrapassados revestidos de quimera, utopia, idealismo. Não existe mais lugar para isso. “No country for old men / Onde os fracos não têm vez”, como no filme premiado com a estatueta do Oscar, no início deste ano. “Primeiro, Adam Smith, pôs a razão a serviço do interesse; agora também o sentimento é posto a serviço do interesse.” Onde jaz o pensamento helênico e a sabedoria oriental, o espírito cristão dos primeiros tempos, os ideais renascentistas e iluministas? Sob sete palmos de terra, numa cova chamada mercado. E a compor o quadro, aí estão onipresentes, o povão e as massas deslumbradas de sempre, de todas as latitudes e longitudes: nas comemorações de fim de ano, nas celebrações religiosas, nas competições desportivas, nos grandes shows musicais! Os ooohhhs! Os aaahhhs! Os êxtases visuais e sentimentais! Depois de cada espocar de fogos de artifício. As explosões orgásticas depois dos tentos marcados! As olas e a coreografia dos braços erguidos em palmas ritmadas acima das cabeças das galeras nas arquibancadas e das multidões a lotar os grandes espaços do show bizz! Também “olho os meus contemporâneos que envelhecem e vejo muitos deles consumidos pela ranzinzice, muitos a permitir que sua impotente perplexidade sobre o rumo que as coisas estão tomando se transforme no tema principal de seus anos finais”. O tempo, não só urge como ruge. Ninguém pode se furtar a ele. É tempo, pois, de aturar a velhice pós-moderna.
(*) Todas as citações deste texto foram retiradas desse livro, de autoria do prêmio Nobel de literatura, J. M. Coetzee. (**) Fiz pequenas modificações nessas frases para melhor adaptar a citação ao meu pensamento.
Genserico Encarnação Júnior, 69. Itapoã, Vila Velha (ES)
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