Jornalego

 

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Nº 350: Bakhtin etc.
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JORNALEGO

ANO VII - Nº. 196, em 30 de junho de 2008.

Arte de viver

 

POR UM TEMPO ECOLÓGICO

  

Dei-me conta, quando da comemoração dos 457 anos da cidade onde atualmente me aposento, com duplo sentido, de que essa terra é muitíssimo mais velha do que sugerem as comemorações natalícias do mês passado. Os quase cinco séculos acima citados são contados a partir da “colonização” do solo capixaba, quando aqui aportaram os seus nobres “donatários”. Às vezes, nem tanto, representados que foram por seus bastantes procuradores. Essa terra, como todas as terras do planeta, existem desde a sua formação e, mesmo antes desses ilustres “descobridores” terem aqui chegado já tinha gente no pedaço. 

            Aqui, algures e alhures, houve necessidade de cooptá-los, escravizá-los, vencê-los ou, simplesmente, eliminá-los. O diabo é que alguns deles não desapareceram! Que pessoinhas aborrecíveis! No caso pátrio, aos 508 anos de sua descoberta, pode ser considerado, no mínimo, mais um milênio, de gente que existia por aqui, antes do cab(r)alístico 1500. Assim como o conteúdo brasileiro, o continente americano. 

            Alguns fundamentalistas religiosos também acreditam que o mundo foi criado por Deus e só admitem o tempo a partir do Fiat Lux divino, que teria se dado há uns 50 milênios. O que quer dizer que os dinossauros não existiram, já que eles andaram por aqui há 250 milhões de anos e viveram por uns bons 200 milhões de anos. Isso teria sido eliminado da história do planeta? 

            É errada a concepção de que “o tempo começou com o homem”. A leitura de Moby Dick, de Herman Melville, de onde tirei essa citação e a seguinte, excita-me diante de pensamentos dessa natureza. “O horror me acomete diante da existência antemosaica e sem origens dos terrores inomináveis da baleia, que, anteriores ao tempo, ainda existirão depois do fim das eras humanas”. 

            Nossa “civilização” (como estou pródigo na distribuição de aspas neste texto!) está chegando a um patamar insustentável, de saturação. Um ponto de mutação é extremamente necessário para que o gênero humano não sucumba. Para expressar o perigo e o terror da atual conjuntura só mesmo uma palavra tão feia como “sucumba”.           

Tudo já foi tentado. Desde o advento do Cristianismo, para só ficarmos nesta versão religiosa, a mais chegada ao mundo ocidental. Eu, que não sou religioso, admiro a mensagem do Cristo, deturpada e locupletada pelos poderosos (o império romano e a Igreja Católica Romana). Afinal, já se passaram mais de dois mil anos da encarnação do divino, segundo seus seguidores, e isso não resolveu muito a vida por aqui, pelo contrário até deu abrigo a muitas das investidas de poderosos interesses, guerras san(gren)tas, sempre In Nomine Dei. 

            Depois veio uma série de acontecimentos e aventuras políticas que, indubitavelmente, acrescentaram algo, mas não apresentaram solução. A revolução burguesa francesa, a revolução proletária soviética, etcétera, etcétera. Sem contar, a tragédia do nazifascismo. 

            Acontece que o tsunami malthusiano está mais presente do que nunca. A população mundial cresce numa progressão impressionante! Quando nasci, ela era menor do que a metade da atual, e ainda não cheguei aos 70 anos! 

            Já citei o “bum” (sic) populacional. Outro agravante é a forma jurássica das fontes energéticas que movem a vida no planeta. Não se descobriram formas alternativas de energia, com viabilidade econômica planetária, que desbancassem as atuais. Por seu turno, as necessidades de alimentação levam ao desbravamento de novas terras agricultáveis. Por incrível que pareça, a agricultura e a pecuária, tanto quanto as atividades industriais e a dos transportes, são atividades das mais poluidoras do planeta. A rigor, a atividade humana o é! 

            Enfim, o limite suportável chegou com a agressão incontestada ao meio ambiente da Terra. Repita-se: um ponto de mutação urge. Nas cabeças. Nas ações. 

            Novas premissas, novas concepções, novos tipos de pensamentos têm que prevalecer. Como os que estão sendo insinuados por este texto. O progresso, essa palavrinha às vezes me irrita... Já passamos muito tempo da visão positivista de Augusto Conte que, inclusive, nos legou o lema Ordem e Progresso, inscrito em nossa bandeira, totalmente ultrapassado. Será que perseguimos o Progresso inumano, injusto, espoliador, autoritário, imperialista e poluidor que ora grassa na China? Ou a saída será correr atrás do “sucesso” do império americano, com milhares de seus jovens a morrer em campos de batalha para defender o direito de continuar poluindo as cidades com os gases do petróleo? 

O Amor, contido na frase de Conte, pertence a outros departamentos: o plano pessoal ou o amor humanista. Mas, como muito bem colocou o mestre, ele vale como princípio. É assunto para outros tipos de considerações diferentes das que aqui faço. A não ser que quisesse dar um cunho idealista e romântico às minhas opiniões, o que não é o caso. 

            As concepções de progresso: capitalista, neoliberal, acumulador, egoísta, privatista, patrimonial, financeiro, consumista, imperialista, guerreiro, globalizante, por um lado e as de um socialismo utópico, igualmente tão bem/mal qualificado como o fiz para o seu contraponto político, devem ceder lugar a uma filosofia ecológica, planetária, humanista, holística. Vade retro para qualquer concepção religiosa que essa última palavra possa conter. 

            Eis o que nos legou a rapacidade do mundo. Urge a contraposição de uma mentalidade heterodoxa à ortodoxia reinante, a derrubar por terra a visão consagrada e cristalizada de progresso e desenvolvimento que entorpece o planeta. Pelo menos retirar dos altares a santíssima dupla (Mercado e Propriedade Privada) e fazê-los exercer seus papéis destituídos do dogmatismo quanto à sua inviolabilidade em qualquer situação, em qualquer lugar. 

            Essa propalada mudança começa com a compreensão de que não foi o homem, muito menos o homem branco, que inventou a vida e lhe deu começo. De que ele não tem o monopólio de usufruir do planeta que o pariu. De que houve e ainda há outros viventes neste planeta a serem contemplados. Não somente para admirá-los de maneira contemplativa, em jardins zoológicos ou botânicos, mas talvez eles possam nos oferecer exemplos alternativos à civilização que tanto nos deixa boquiabertos e que tanto está a nos sufocar. 

            Um capítulo triste na evolução da atividade econômica humana (tão desumana!) é o tratamento dispensado à mão-de-obra, ao fator trabalho, de uma maneira geral, ao redor do mundo e na trajetória da história. A renda do trabalho vem sendo ultrapassada vertiginosamente pela renda do capital na constituição dos PIBs dos países, como acontece no Brasil. Uma espada de Dâmocles paira sobre todas as cabeças de trabalhadores no mundo inteiro: o espectro do desemprego. Triste também é a necessidade de incorporação de grandes contingentes de trabalhadores pelo processo explorador capitalístico de produção ao mercado mundial de mão-de-obra; seja pela entrada da mulher no mercado de trabalho, seja pela contratação de mão-de-obra barata, sem benefícios sociais e justiça trabalhista, como é o caso da China. 

            Lógico que muita coisa boa foi criada, a nossa civilização tem suas maravilhas. Contudo, ao lado da espantosa evolução tecnológica que testemunhamos, há um vazio no pensamento político atual. 

As belezas da civilização que nos foram legadas (não existe ironia nessa afirmação) por si só tornam-se ilhas de civilização, se não são complementadas com medidas de incorporação de toda a humanidade e de sua perene sustentabilidade. 

Espero não ter sido movido, ao escrever este texto, por sentimentos paranóicos ou apocalípticos. Nem tampouco escrevi sobre terrorismo internacional. Recentemente, assisti ao filme Fim dos Tempos (The Happening), do diretor indiano M. Night Shyamalan. Embora alguns personagens sugerissem que os acontecimentos ali expostos tenham sido produtos de ações terroristas, não foi o caso. Trata-se de uma crise ambiental em larga escala, isto é, de “fogo amigo”. 

A propósito, num dos seus últimos pronunciamentos na tribuna do Senado, o saudoso Senador Jefferson Perez, disse que o grande inimigo da Amazônia é o próprio brasileiro, isto é, “fogo amigo”. Nessa linha de raciocínio também se pronunciou o embaixador Rubens Ricupero, em artigo recente na imprensa. Contudo, nem por causa disso se pode desprezar o “olho gordo” dos interesses alienígenas, mas não façamos terrorismo psicológico ao transformá-lo no único bode expiatório do problema. 

Ainda relacionado ao assunto aqui tratado, aguardo ansioso o metafórico filme Ensaio sobre a Cegueira, do brasileiro Fernando Meirelles, baseado no romance homônimo do José Saramago; já o li e o considero também um excelente libelo contra a insensatez humana. 

 

 

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 69.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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