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JORNALEGO

ANO VII - Nº. 193, em 30 de maio de 2008.

Artes Cênicas

 

BOM APETITE

 

            Recentemente, assisti a um premiado filme brasileiro – Estômago – dirigido por Marcos Jorge, com excelentes interpretações, como a do ator João Miguel, protagonista principal. Se você pretende assistir a ele e fizer questão de surpreender-se com seu final, guarde a leitura deste número para depois. É verdade que tanto o filme quanto o presente texto sugerem desde o início o seu desfecho. 

Um conto de autoria de Lusa Silvestre, Presos pelo Estômago, deu a base para a montagem do filme. Não o li ainda. A partir do filme, vou imaginar como poderia ser a estrutura original do referido conto. 

            A história é a mesma. A sua apresentação é que, por suposto, deve ser diferente, diferente também da que foi mostrada na linguagem cinematográfica, com pequenas invencionices de minha lavra. Portanto persigo outra forma de apresentação. Um simples exercício literário.

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Raimundo Nonato depois de exaustiva viagem desde a Paraíba, chega às celas do Carandiru, na bela e sufocante cidade de São Paulo. Esse é o trajeto de muitos retirantes, a não ser que algum deles tenha sorte e capacidade para se tornar Presidente da República. Sem nenhum preconceito contra nordestinos. Muito pelo contrário, são as condições de desigualdade e os preconceitos de todas as sortes que eles encontram no sul maravilha que conduzem alguns infelizes para tais fins. 

Quase todo nordestino que teve problemas no nascimento, seja por a mãe ter morrido durante o parto, seja por ele ter nascido de cesariana, leva o nome do santo que, da mesma forma, sobreviveu ao parto e à morte da genitora: São Raimundo Nonato. 

            No seu périplo para a prisão, Raimundo desembarca à noitinha na Rodoviária e vaga pelas ruas escuras da periferia da capital paulista à procura de alimento e pousada. Suas poucas economias desapareceram na viagem, na compra da passagem de ônibus e de croquetes nas paradas pelo caminho. 

De porta semicerrada, por volta da meia-noite, encontra o bar do Seu Zulmiro, um misto de português bronco e paulistano igualmente bronco, metido a capitalista. Pede um copo dágua, que lhe é servido contra a vontade do dono do estabelecimento, sozinho a tocar o boteco, a partir da imunda bica da pia. Num relance vê duas coxinhas de galinha na vitrinazinha sebosa em cima do balcão. Pede tais iguarias e as devora sofregamente, antes que as baratas o fizessem quando do apagar das luzes. 

            Alvo dos impropérios do proprietário lesado na falta de pagamento de suas coxinhas, o humilde Raimundo se presta a lavar a louça amontoada pelo patrão na cuba da pia da cozinha. 

            A tudo lava enquanto o patrão vai dormir no andar de cima do sobrado. Depois desaba de sono numa esteira em cima de um estrado que permite a liberdade dos ratos a transitar por debaixo. Trágico organograma da vida: lá em cima o proprietário, aqui em embaixo o retirante, mais embaixo os ratos. 

            Nova vida começou para Raimundo, agora com pouso e comida, a oferecer seus serviços a Seu Zulmiro. Sem salário, sem carteira assinada, sem benefícios, e com os contínuos esporros do patrão. Entre fazer a faxina do bar, lavar a louça e as panelas e servir às mesas aprontava algumas coxinhas de galinha. Humilde observador da vida, desde a cozinha da velha Severina, sua mãe de criação, e os costumes dessa paulicéia desvairada, incrementou com temperos que conhecia desde pequeno o que lhe fora ensinado ali. 

            O ponto virou point, as mesinhas tomaram a calçada frontal ao bar e a freguesia bombou. Eram multidões sedentas por um chope gelado e as deliciosas coxinhas. “Mano, um chopps e duas coxinha” virou o pedido da hora. 

            Íria, morena bonita, de rosto largo, olhar intimista, sorriso sensual, bem cheinha de carnes muito bem distribuídas pelo corpo de gostosa, sentou-se ao balcão, do lado da vitrine das coxinhas, numa folga de suas andanças pela região, no trabalho extenuante de caçar fregueses. Meio irônica, começou a instigar o Raimundo com aquele ar de caipira, que lavava, à sua frente, na pia do balcão, os copos, pratos e talheres usados. 

            Mano, essa coxinha aí é boa mesmo? É fresquinha? Vim provar pra ver se é mesmo à vera tudo o que dizem a respeito dela. Dona, a senhora percisa provar, é feita por mim mesmo, com todo o carinho. A senhora quer uma? Que mais, um chopin? Humm! Bom mesmo! Dá mais outra. Mano, diz lá: quanto é? Né nada não, dona. ‘Proveita que seu Zulmiro subiu, e fica por isso mesmo. 

            Sempre o pessoal de cima, os donos do pedaço! Da parte superior do beliche, Bujiú comandava a cela; um homenzarrão com vários crimes na ficha, muitas entradas e saídas da prisão. Cheio da responsa, acorvadava seus companheiros com muita agressão e ameaças e, assim, era muito bem respeitado até pelos agentes penitenciários, que já o conheciam de longa data. Uma senhora autoridade a botar ordem naquela gaiola com o seu corpanzil e a manha adquirida ao longo dos anos de prisão. 

Chegou Raimundo. Falou Bujiú: chega mais mano. Qualé sua graça? Raimundo Canivete, respondeu o recém-chegado. Uma gargalhada geral, comandada pelo chefe, ecoou pelos corredores da penitenciária. Raimundo, durante a sua ida para a prisão onde iria cumprir pena, bolava um apelido que fosse compatível com o ambiente que iria encontrar. Mas Canivete é coisa de boiola, ô mano, toma tenência rapá. 

            Sua esteira ficava no chão, sem a regalia de um estrado como o que tinha no quartinho dos fundos do bar do seu Zulmiro. A única cama, o beliche, era onde se encastelava o Bujiú, quase o dia todo plantado na parte de cima a controlar a vida do pessoal que habitava o rés-do-chão. Na parte inferior da dupla cama, ficava seu lugar-tenente para impor ordem no pedacinho e na inter-relação comercial com os agentes e policiais. A estratégia das operações externas era emanada diretamente do Bujiú, com a assessoria do Professor, um letrado companheiro que cumpria pena por tráfico de drogas. Contava ainda com o auxílio tecnológico de alguns aparelhos de telefonia celular que, Deus sabe como, entravam no recinto; nem tampouco se sabia como eram devidamente carregados na corrente elétrica na ausência de tomadas nas celas dos prisioneiros. 

            Foi numa reclamação geral do rango servido aos presos que o Raimundo propôs fazer umas coxinhas de galinha, com as partes de frango servidas no almoço, desde que arranjassem farinha de trigo e alguns condimentos, além do óleo e do sal que eles já tinham por ali. Um fogareiro acoplado a um bujãozinho de gás era a suprema sofisticação que os agentes, mediante adequada remuneração, concediam àquela cela, admiravelmente administrada pelo autoritário Bujiú. 

            O sucesso das coxinhas, além de dar uma nova alcunha ao Raimundo, agora Alecrim, um dos segredos da fórmula mágica com que incrementava aquela iguaria, elevou-o do chão à cama de baixo do beliche do Chefe, com a defenestração do anterior ocupante, que a cedeu ao recém-nomeado Chef do cubículo. Algumas incursões vigiadas e regiamente pagas do nosso Alecrim à cozinha da prisão rendiam novos ingredientes gastronômicos que serviam para dar aquele upgrade à gororoba servida. 

            Outro fã incondicional das coxinhas do bar do Zulmiro era Seu Giovanni, imigrante italiano estabelecido numa cantina bem caprichada, a alguns passos daquele pé-sujo. Com a fama das coxinhas ele começou a aparecer por lá, onde se empoleirava numa das mesas da calçada, longe das vistas do Zulmiro e caçando a oportunidade de falar, num particular, com o cozinheiro, nosso conhecido Raimundo Nonato. 

            Deu-se a oportunidade. Seu Giovanni confessou que sentiu a genialidade do Raimundo no preparo da comida. Ele tinha a mão abençoada e o dom da cozinha. Rapidamente falou do seu restaurante e sugeriu a ida dele para lá, onde aprenderia outros quitutes e pratos sofisticados. Ofereceu salário, carteira assinada e benefícios.

            Com isso deu-se a transferência e o mão-de-vaca do Seu Zulmiro voltou à sua solidão na condução do negócio, que passou a decair sensivelmente com a saída do faz-tudo, sua galinha dos ovos de ouro. Burro! 

            Raimundo, a partir do papo no balcão com a Íria, passou a encontrá-la várias vezes pelas calçadas do bairro, com suas colegas. No caminho para sua pensão, onde alugara um quarto baratinho, com o produto das gorjetas, pois salário que era bom não tinha, parava pruma conversa rápida com a menina dos olhos risonhos e apaixonados. Seu olhar meigo e humilde a envolvia toda, e ela alimentava aquela conversação, mais por piedade por um ignorante cabeça-chata recém-chegado à capital, com aquela experiência que ela tinha da vida e dos costumes da cidade grande.            

            Numa dessas levou-lhe um presente, uma quentinha cheia de coxinhas, agora recheadas de queijo catupiri, de dar água na boca. Ali mesmo, escondida das outras meninas, comeu duas, e guardou as demais para o final da noite. Acondicionou o embrulho naquela bolsa enorme que o mulherio agora usa. Ao chegar a casa, colocou-as na geladeira e, no meio da noite, lembrando-se delas, assaltou a dita cuja e, de cócoras, iluminada pela luzinha do interior da geladeira, naquela frescura, nuinha, comeu-as geladas, saborosas, pensando em Raimundo, seu novo amigo. 

            Com o aprendizado na trattoria, Raimundo se transformou no substituto do chef italiano e começou a preparar pratos maravilhosos. Ao fechar as portas do elegante restaurante, agora muito bem freqüentado pela excelência da comida, produzida por aquela mão divina, invariavelmente levava numa quentinha uma novidade gastronômica para sua divina Íria. Encontrava-a no trajeto da pensão e, por vezes, para lá ia com ela ou para o apartamento dela. Ela se regalava com as delícias, e ele se deliciava em apreciá-la comendo com gosto o produto de sua arte. Não era raro fazerem amor durante as refeições. Um conjunto de prazeres se juntava: o do sexo, o da gula, o estético, o prazer de dar prazer e de se saber apreciado em sua especialidade. 

            Seu Zulmiro recebeu, ao final de certa noite, com a catadura de sempre, a visita do Raimundo. O boteco estava jogado às moscas. Reclamou: veja em que você me transformou! Ingrato! Mas, seu Zulmiro, eu agora tenho salário, carteira, INSS, benefícios, o senhor tem que ver que eu não podia continuar aqui daquela maneira. Gostaria muito de ter um particular consigo, visse.

            Diga lá, ó gajo, desembucha logo. Seu Zulmiro, eu vou me casar com Íria e queria que o senhor fosse meu padrinho de casamento. O quê? Você se casar com aquela... Íria. Ficou maluco, ô cabra da peste? Eu gosto dela seu Zulmiro. Sem ser o próximo, no outro sábado, depois que a cantina fechar eu vou fazer uma ceia para comemorar nosso casamento. O senhor, como nosso padrinho, não pode faltar. Posso contar consigo? E ela, o que ela disse? Ficou meio assim-assim, surpresa, mas concordou. Acho que depois ela se acostuma comigo. Eu gosto tanto dela, e ela gosta tanto dos meus quitutes. Depois ela passa a gostar de mim como gosta deles. Meu filho, veja lá onde você ‘tá se metendo. Enfim, estaremos lá. Até sábado, sem ser esse, o outro, não se esqueça Seu Zulmiro. 

            Sabe quem vem aí, Alecrim, o Etcétera, conhece? O dono do tráfico lá do Jardim Madalena. Gente grande, gente de grande responsa. Precisamos fazer uma grande recepção para recebê-lo. ‘Tá ligado? Foi apanhado porque deu mole. Deve passar uma temporada conosco. Com o poder que ele tem vai ficar pouco tempo por aqui. Mas enquanto ele aqui ‘tiver, quero que ele saiba quem manda no pedaço. Essa recepção vai dar uma idéia de minha autoridade nessa baiúca. Aqui quem manda é o Bujiú. ‘Tá ligado? ‘Tou certo ou ‘tou errado? Conto contigo Alecrim. Os agentes já ‘tão amaciado, já levaram o dele, nós vamos ter acesso à cozinha do estabelecimento em altas horas, e a festa vai rolar grande. Não me decepcione, seu Alecrim. Se não, cê ‘tá fu! ‘Xá comigo Chefe. 

            Em primeiro lugar, seu Etcétera, seu Bujiú e demais convivas, sejam muito bem-vindos à nossa ceia, eu vou servir um carpaccio de carne, uma iguaria de entrada, regado com um delicioso vinho tinto francês de velha cepa. 

            Ô Alecrim, vá te fudê, mermão. Tira essa bebida de burguês daqui, vai, serve a velha Maria Louca, que a gente já tá acostumado. Não me venha com essas frescuras de vinho isso ou vinho aquilo. E quanto a essa carninha fininha, manda engrossar essa porra e passar mais um pouco. Parece mortandela malpassada. Vamos, Alecrim, vê o que você vai mandá agora. 

            Ah! Agora sim. Costeletas de porco, peixe assado, arroz, farinha, batata frita... Tá faltando feijão, Alecrim. Vamos, mano, se avie. 

            Alecrim olhou de soslaio para Bujiú, deu um sorrisinho maroto e pensou: chegou minha hora. Já vai chefe, o feijão vai sair ‘gorinha mesmo, temperadinho, uma delícia, especial para você. E lá foi o feijão todo incrementado, a encher o prato do glutão. 

            Coitado do Bujiú, morreu de indigestão naquela mesma noite. Risinho irônico, Alecrim pulou para a parte superior do beliche logo que ele se desocupou, e daí passou a comandar a cela. Pensou no Damião, lá da Paraíba, contemporâneo do Miguel Arraes na prisão de Fernando de Noronha, comunista de carteirinha, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil do Estado. Ele dizia: A vingança das classes oprimidas tarda, mas não falha. Ô sujeitinho porreta, esse Damião! 

            Ansioso, Raimundo esperava o sábado da oficialização do casamento. Faltava uma semana, certinho. Já tinha falado com Seu Zulmiro e com Seu Giovanni, que também convidara para padrinho e que concordara com a cessão do espaço para o evento. 

            No sábado anterior à festa, embutido em um feriadão, com sexta e sábado enforcados desde quinta-feira, a casa deu pouco movimento, permitindo que o chef Nonato saísse mais cedo. Passou pela pensão, tomou um longo banho, perfumou-se com água de rosas e, passada a meia-noite, foi procurar a Íria, na calçada costumeira. Lá encontrou algumas amigas que lhe informaram que a Íria tinha estado por ali e saíra logo. Ainda brincaram com ele, se não queria variar de comida: esse negócio de todos os dias comer pastaciutta: tarantella, gnochi, lazagne deve cansar. Que tal um strogonoffezinho, uma bisteca, um escondidinho, uma chuleta? Apreensivo deixou o local e a gozação e, decepcionado, andou a vagar pelas ruas do bairro. 

            Ao passar pela trattoria, na volta para o seu quarto, viu luzes no interior da sala. Deu a volta pelos fundos, entrou pela porta de serviço, da qual tinha a chave, olhou para a sala vazia do restaurante pelas escotilhas da porta de vai-e-vem e descobriu, degustando um glorioso fettucini, Seu Giovanni e sua grande paixão, Íria. Bocados da massa suculenta sendo deglutidos com voracidade, grandes goles de vinho tinto servido em taças imensas e beijos em profusão, na boca, na nuca, tudo muito bem acompanhado de mil bolinações. 

            Raimundo nunca a tinha beijado na boca, o que tanto desejava. Íria, numa concepção tacanha, recusava-se a tal, argumentando que não era condizente com a sua profissão. Ele nutria esperanças de que o casamento pudesse resolver esse impasse. 

Pois é, ela se deixava beijar na boca por seu Giovanni, em beijos de língua escandalosamente molhados com molho a la arrabiata

Com a vinda do dono do restaurante à cozinha para preparar a sobremesa, Raimundo se escondeu no vão debaixo da escada que levava ao segundo andar do prédio assobradado, escritório e refúgio do patrão. 

Ele preparava queijo com goiabada – um sofisticado Romeu e Julieta – que lhe fora também ensinado e que se constituía na principal sobremesa do já afamado restaurante. O queijo tradicional era substituído por generosas rodelas de queijo gorgonzola e regado com mel de abelha em desenhos florais. 

Foi difícil para o Raimundo agüentar aquele tempo todo em que ainda durou o encontro e, escondido, ainda os viu subir as escadas, embaixo da qual se escondera. 

Achou a garrafa de vinho italiano, guardada com extremo carinho por seu Giovanni para comemorar alguma data importante na sua vida. Bebeu-a todinha e rapidamente pelo gargalo. Quando terminou, já tinha nas mãos a maior das facas do conjunto luzidio dependurado numa das paredes, do qual era um exímio utilizador. 

            Lembrou-se de Lauro Sarué, profundo conhecedor da alma humana, então seu companheiro inseparável de aventuras amorosas e de labuta na construção civil em Campina Grande. O amigo sempre dizia ao folhear as crônicas policiais dos jornais que lhe chegavam às mãos: “quem ama mata”, sem dar a mínima importância ao sonoro cacófato. 

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             Terminada a elaboração deste texto, li o conto original que deu origem ao filme, para cotejar com a minha versão. O texto de Lusa Silvestre está no livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim. Ele não ultrapassa os limites do cárcere. O roteiro do filme que o complementa.

 

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