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JORNALEGO

ANO VI - Nº. 188, em 10 de abril de 2008.

Conto

DANAÇÃO 

 

Antes do nascimento de Lucy, seu pai concebeu um plano perfeito para sua formação, que seguiria ao pé da letra, custasse o que custasse. Só tinha um plano; até então não tinha mulher nem filhos, meros detalhes. Com a nova situação – casamento e filha – as coisas mudaram. O primeiro percalço na execução do referido plano foi o nome da menina. Queria que fosse Olga ou Rosa; a mulher empacou e emplacou Lucy Kelly que ele teve de engolir para satisfazer sua querida Lucimar, carioca do Estácio. Dolores também servia, mas este nome, igualmente anacrônico, foi vetado. 

Entrado na casa dos quarenta, nosso aprendiz de educador estava pela primeira vez na vida, morando com uma companheira fixa, quinze anos mais nova. Conhecera-a num ensaio de escola de samba da Mangueira, trigueira, bonitinha, sensual: apaixonou-se. Lua de sarapatel em Salvador; montou apartamento no Flamengo, comprou móveis e automóvel; chamou-a de madame; ela gostou. Encantava-se com o novo estado marital e com as vontades que vinham sendo satisfeitas, mimada pelo seu amado. Seu marido era o guia do casal, seja pelo seu mais elevado nível cultural, seja pela sua idade, seja principalmente pela condição financeira de que ela dependia. Só não conseguiu colocar o nome que desejava na filha, tão escrupulosamente escolhido, segundo os seus planos. Paciência! 

Filho de um professor secundário, seu pai era culto, politizado, com fortes laços que o ligavam à Igreja Católica, por força da educação em colégio de padres. Militava no Partido da Democracia Cristã - PDC, mais por causa do C do que do D. Opositor implacável do comunismo achava que a democracia era o antídoto natural para qualquer forma de socialismo que associava imediatamente ao ateísmo. Candidatou-se várias vezes a vereador da capital e nunca se elegeu.

 

            Não obstante, seu filho, teve oportunidade de boa educação, embora também em colégio de padres, já agora freqüentado por meninas e não tão obscuro quanto nos tempos do pai. 

 

            Mas foi na Faculdade de Economia que teve conhecimento, por meio de leituras básicas, das ideologias de esquerda com as quais se identificou. Inicialmente teve acesso aos romances da primeira fase do Jorge Amado e ficou maravilhado. Seja pelo posicionamento político, seja pela linguagem solta, coloquial, popular, pornográfica, erótica do autor. Isso é literatura? Ah! Então eu gosto dessa tal de literatura!

 

            Como todo universitário interessado nos movimentos políticos e na evolução dos povos, leu com avidez A História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, uma cartilha imperdível para iniciantes na compreensão sociológica e econômica da humanidade, embora um tanto idealista e ideologizada. Seguiram-lhe, nesse kit básico para a formação socialista, leituras de poemas de Maiakovsky, ensaios de Plekhanov e os indefectíveis Marx e Engels, principalmente suas bíblias: O Manifesto Comunista e A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Pronto, estava assentada a base em cima da qual se ergueria sua igreja tendo como ícones Gramsci, Rosa de Luxemburgo, o evangelho segundo O Capital, o delicioso Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson e outros santos menores.

 

            Até o Novo Catolicismo botou lenha na fogueira intelectual do rapaz, com a ascensão ao papado de João XXIII, lançando com suas encíclicas as bases da nova Doutrina Social da Igreja (de saudosa memória), suplementada com a Teologia da Libertação dos padres latino-americanos.

 

            Sem saber exatamente o que se passava nos intestinos da União Soviética, o mundo tinha esperança. Denúncias ao regime comunista e o Gulag de Solzenitzin, publicado no Ocidente, eram meras intrigas dos “imperialistas americanos, esses porcos invasores frustrados da baía de mesmo nome”.

 

            Veio o tempo das ditaduras militares no Brasil e nos demais vizinhos latino-americanos; veio a Guerra do Vietnam esquentando a Guerra Fria. Vieram o exílio, as prisões, as torturas e as mortes. Veio o fim da guerra, veio a anistia, veio a volta “do irmão do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete”. E vieram Lula e o seu séqüito do PT.

 

            A execução dos planos para a educação e formação da Lucy Kelly corria a contento, com a transmissão de todo esse cabedal adquirido pelo pai, e incentivada com o pano de fundo dos desmandos do poder discricionário agora em vigor. E põe vigor nisso! Ao lado de bibliografia escolhida foi também útil mostrar à menina, com exemplos do dia-a-dia, o que era injustiça social, repressão, violência política, censura à imprensa e às artes e outras pérolas do autoritarismo então vigente.

 

            Lucy Kelly, menina Zona Sul, absorvia bem os ensinamentos e os exemplos ministrados. Com essa base entrou para a Faculdade de Ciências Sociais da UERJ. Mais livros, muita literatura engajada, palestras, reuniões de diretório acadêmico. Dava gosto ao pai coruja ver o treinamento da pupila que “estava se guardando para quando o carnaval chegar, porque amanhã vai ser outro dia”.

 

            Lucimar, deslumbrada no início do casamento, passou a se cansar das conversas políticas em sua casa, da doutrinação exercida sobre a Lucy Kelly e, cotejando tudo aquilo com o milagre econômico que via passar nas telas das tevês, começou a se fartar da tamanha implicância dos dois com a situação.

 

            Entrementes (bem sugestiva esta palavra para descrever o momento), pintou um caso amoroso com um paulistano yuppie, workaholic, expert no mercado financeiro e de ações. Abandonou o “sacrossanto recesso do lar” e foi morar com ele em São Paulo. Ambos se preparavam para um estágio nos Estados Unidos, ela acompanhando seu novo amor. Tudo muito rápido, de supetão, como sugere este parágrafo. Kelly ficou com o pai. Foi tempo de estupefação diante da Perestroika e da Glasnot de Gorbachev. Agora não se tratava mais de coisas de imperialistas americanos.

 

Até que o muro caiu, e o castelo de cartas soviético ruiu.

 

            As justificativas dadas pelo pai não convenceram a menina que, aproveitando umas férias, se mandou para Miami, onde a mãe e o padrasto moravam, e daí, não voltou mais. Encantou-se com os States, com o capitalismo, com a riqueza, com o consumismo, enfim, com o american way of life.

 

            De lá foi para Nova Iorque, onde se estabeleceu como modelo, embora esses termos (“estabelecer-se” e “modelo”) não condigam com a realidade de suas funções. No presente caso são usados como eufemismos a encobrir outro tipo de atividade. 

            A receptividade foi tamanha e a evolução de suas atividades foi tanta que Kelly se transformou em empresária do seu próprio negócio, que passou a envolver muitas funcionárias (outro eufemismo) e figurões do mundo empresarial e político local. Ganhou muito dinheiro, comprou um razoável patrimônio e, com isso, fez sepultar seus mais puros ideais socialistas e desaprendeu tudo que aprendera.           

Mais uma vez, o primeiro mundo se curvou diante da genialidade brasileira! 

            Sabedor dos sucessos da filha, nosso herói, que se julgava todo-poderoso, se perguntava: onde errei? Que fiz para que meus planos fossem para o brejo? Quis criar minha filha à minha imagem e semelhança, esculpir meu alter-ego, e fui irremediavelmente derrotado em minhas pretensões pretensiosas. 

            A teia, chefiada com sucesso por Lucy Fair, nome artístico adotado por Kelly, só se desmontou com a descoberta do envolvimento de políticos estaduais influentes no esquema de prostituição (agora falando português claro), a partir de denúncias da imprensa e da oposição. Eles renunciaram aos seus cargos, em pronunciamentos públicos devidamente acompanhados por suas mulheres (de Atenas). Lucy Fair perdeu seu paraíso, foi escorraçada para a cadeia, a purgar seus pecados e, se possível, drenar informações preciosas à justiça e polícia nova-iorquinas. 

            Com o desbaratamento das conexões político-sexuais, a renúncia das autoridades envolvidas e, mais tarde, o relaxamento da prisão de Lucy, mediante o pagamento de polpuda fiança, ela voltou gloriosa para o Brasil, com invejável cobertura da imprensa tupiniquim, que lhe proporcionou os prosaicos quinze minutos de fama. Foi acolhida como filha pródiga na residência de seu pai, agora mais livre das pugnas e pensamentos políticos, esquecido de seu plano, convivendo com nova mulher nova, na belíssima orla marítima capixaba. 

            Quem diria! Lucy Fair acabou em Vila Velha! 

Como de resto (quem diria!), certo contista artesanal.

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

         

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