JORNALEGO
ANO VI - Nº. 187, em 30 de
março de 2008.
Baixo-ajuda (sic)
SAGA
Terminei a leitura do único romance que ainda não tinha lido da obra
de Érico Veríssimo. Saga é o seu título, um dos últimos de sua primeira
fase, escrito em 1940. Comecei a conhecer o escritor pelos livros de sua fase
final, a partir da trilogia do Tempo e o Vento (O Continente, O
Retrato e O Arquipélago), Incidente em Antares e Solo de
Clarineta (autobiografia).
Veríssimo sempre focou a vida dos seus personagens e de suas
histórias em cidades interioranas do Rio Grande do Sul, eventualmente levando
alguns para Porto Alegre, só se estendendo ao Rio de Janeiro em O Arquipélago.
Neste último, o Dr. Rodrigo Cambará vem (simbolicamente) amarrar o seu cavalo no
obelisco da Avenida Rio Branco, na então capital do país, acompanhando os
vitoriosos da revolução de 30 liderada por Getúlio Vargas. Nem por isso os temas
tratados por ele deixaram de ser internacionais.
Nesse romance que acabo de ler, o autor sai do país e põe o seu
personagem, Vasco Bruno, a lutar na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ao lado
dos republicanos, derrotados por Franco, de tristes memórias (a Guerra e o
Ditador). Os momentos mais pungentes são os narrados no cenário das batalhas e,
depois, num campo de concentração nos Pirineus, onde foram aprisionados os
vencidos. Eu desconhecia essa prisão, capítulo assombroso da história, que iria
se repetir sob o jugo alemão, logo a seguir.
Um parêntese: as grandes obras que tive oportunidade de ler, como as
aqui aludidas, incluindo clássicos antigos famosos, foram adquiridas em bancas
de jornal. Excelentes coleções de editoras e de grandes jornais foram colocadas
à venda por preços módicos. Comecei a comprá-las no início da década de 70.
Primeiramente foi o JORNALIVRO, uma publicação em papel de imprensa em formato
de tablóide, contendo um livro na íntegra. Preço: Cr$ 2,00. Com certeza, no meu
inconsciente, ao nomear meu site de JORNALEGO estava latente aquele neologismo.
Nesse parêntese merece destaque
a figura de Pelé, apelido de Moisés, um menino da Casa dos Pequenos Jornaleiros do Rio
de Janeiro (iniciativa de D. Darcy Vargas, viúva do Presidente Getúlio Vargas). Ele era
acreditado na empresa em que eu trabalhava, levando até a minha sala todos os
romances distribuídos pela Editora Abril, em capa dura vermelha. Eu os adquiria
semanalmente formando a coleção. Nos primeiros anos de minha aposentadoria já
tinha lido todos. Ainda continuo a comprar romances em jornaleiros. Sempre há
alguma boa promoção.
Voltando ao fio da meada: no romance Saga, os personagens
vivem sob o império das revoluções gaúchas e, depois, sob o estigma das Grandes
Guerras mundiais, entremeadas pela Guerra Civil da Espanha, essa, um laboratório
para a próxima, que se aproximava. Os personagens, lá e cá, reclamam das
vicissitudes da vida difícil, e os mais idealistas acreditam na esperança de
melhores dias. A grande expectativa alimentada pelos mais sonhadores era o
resultado que poderia advir do desenvolvimento das novas tecnologias, o que iria
libertar o ser humano de sua escravidão ao trabalho pesado, permitindo o advento
de um novo tempo de fartura, de mais lazer e de solidariedade para a
humanidade.
Nasci em 1939, fim da dita guerra fratricida espanhola e início da
II Grande Guerra Mundial. Passados sessenta e nove anos as coisas continuam sem
grandes diferenças, a não ser pelo avanço vertiginoso da tecnologia em quase
todos os campos. Mas as guerras estão ainda aí, a vida difícil continua, a
miséria campeia etc. O quadro foi agravado, no tempo da Guerra Fria com a
possibilidade de uma hecatombe nuclear, aparente e temporariamente superada, e,
pouco depois, com a consciência da deterioração do meio ambiente global. Pelo
lado positivo contou-se com o avanço da medicina e a facilitação da vida, pelo
menos para quem tem poder aquisitivo para abiscoitar-se das benesses colocadas à
venda.
Mas o que se destaca nesse período é a constante insatisfação das
pessoas e a continuação das guerras, da violência, da corrupção e da exploração
das massas seja pelo capital, pelo poder político ou pelo obscurantismo. Nada
parece ter mudado. Uma verdadeira saga que a humanidade vive ao longo de sua
existência. E o que me toca mais intimamente: ao longo de minha própria
existência.
Interessante mencionar também é a leitura de outro livro, uma
coleção de ensaios sobre futurologia e sobre metodologias de estudos
prospectivos, escritos por Gilberto Freyre (Além do Apenas Moderno).
Publicado no início da década de setenta (lido por mim somente agora), o
sociólogo também admite como ponto de mutação o avanço da tecnologia mecânica e
a automação daí decorrente, a exemplo também do que se lê no livro do
romancista. Não contavam ambos os autores aqui mencionados com a tecnologia da
eletrônica, da informática e da telemática, sem falar no avanço das comunicações
e dos transportes. O mundo avançou muito mais do que eles previam (o sociólogo
trinta anos depois do romancista) e mesmo assim a vida basicamente não mudou
muito na face da Terra.
É triste!
Sou profundamente cético quanto à evolução da humanidade. Para não
incorrer nos mesmos erros dos ilustres escritores aqui comentados, também não
nutro esperanças.
Será que é para se chegar a essa conclusão pessimista que se devota
um fim de vida à literatura? Acredito que seja melhor do que se iludir com
idealismos falsos: o progresso e o desenvolvimento econômico sob as formas
capitalísticas hoje prevalecentes, o sexismo, as drogas, as seitas, as
ideologias e outros métodos de fuga. Seria a literatura um desses escapes?
“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro” (*).
Taí, ‘tá explicado!
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(*) Carlos Ruiz Zafón, em “A Sombra do Vento”.