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JORNALEGO ANO VI - Nº. 185, em 10 de março de 2008.
Crônica
POR QUE NÃO CALLAS?
Apolônio é um gajo impagável! Assim se dizia de algumas pessoas nas primeiras décadas do século passado. Ele tem pouco mais de setenta anos. Forte. Lúcido. Andarilho. Viúvo. Culto. Ativo. Altivo. Leitor infatigável. Cinéfilo. Enófilo (enólogo passivo). Ginecômano (?!) Filósofo amador. E outras cousas do gênero. Viajado. Filhos e netos moram longe. Eufemisticamente agnóstico, na realidade é ateu confesso. Flamenguista saudável. Hoje se diz ociólogo. Em política, não considera ultrapassada a dicotomia esquerda-direita e se posiciona na lateral esquerda. Defende e ataca, descendo e subindo, em inumeráveis discussões com quem encontra pela frente tirando onda de neoliberal moderninho ou de capitalistóide arrogante – sem capital, que goza com o capital dos outros – vencedor no “final da história”. Conheço-o desde a infância, fomos colegas no curso primário. Separamos-nos quando saí da cidade e agora, na minha volta, quem eu encontro morando no mesmo prédio? Meu amigo e agora vizinho Apolônio! Bato imensos e agradáveis papos com ele, caminhando no calçadão da praia, ao cair da noite, ou na frescura de nossas varandas; eventualmente almoçamos juntos. Trocamos livros, comentamos filmes, torcemos pelo mesmo time, temos quase sempre os mesmos gostos. Só não fico mais tempo em sua companhia porque minha mulher implica com a irreverência dele. Ele é realmente um figuraça! Fala muito. Eu ouço o mesmo tanto. Suas opiniões são invariavelmente contrárias ao entendimento geral disseminado por aí. Trafega na “contramão da história” para usar um clichê dos modernosos. De vez em quando se mete em discussões acaloradas. Não mede muito as palavras, é extrovertido, explosivo e, quando argumenta, fica rubicundo. Eu sou seu interlocutor mais receptivo e por vezes apaziguador dos embates com os outros. Para se ter uma idéia de quão estranha é sua cabeça, vejam esta, de onde tirei o título desta crônica. Nada a ver com o reizinho grandalhão ibérico. O caso é o seguinte: recomendaram-lhe fazer uma experiência com o Viagra, tendo em vista o avançado da idade e o seu interesse pelo desporto. Não aprovou, talvez devido à pequena potência (do remédio), porque estivesse de barriga cheia ou mesmo não tivesse esperado o devido tempo para a droga fazer seu milagre. Contou-me que em outra oportunidade fez mais efeito ouvir Maria Callas cantando árias selecionadas de óperas famosas do que se enviagrar. Como são sensuais e incentivadores os seus agudos! – Fui à loucura! Disse-me ele. Você só precisa ficar atento e não dar chance para se lembrar do Aristóteles O. Numa dessas, no auge de um dos agudos, pensei no armador e me desarmei. Esse é um caso que demonstra o seu estilo peculiar. Mas o que o caracteriza bem é a diferença de opiniões com os próximos, de quem ele tem evitado se aproximar. Mais recentemente, um dos pomos de discórdia com interlocutores desavisados é a questão das quotas para estudantes negros e oriundos de escolas públicas. Ele nunca começa a discussão dizendo o que pensa a respeito. São os outros que acham isso um absurdo e começam a meter o pau no programa. Meu amigo, que não agüenta ficar calado, começa argumentando que todos os nossos filhos tiveram sua quota para entrar na universidade. Seja porque são nossos filhos, bem cuidados, bem alimentados, bem educados em escolas particulares, enfim todos tiveram suas quotas. Geralmente o interlocutor discorda e diz: o que deveria se fazer é trabalhar na melhoria do ensino fundamental. E ele contra-argumenta: as quotas não excluem essa possibilidade. Que elas (as quotas) terminem, quando a discriminação for minimamente superada por essa melhoria. Outro ponto estranho, no que nós concordamos totalmente, é a fixação que a classe média tem pelo turismo, viagens ao redor do mundo etc. e tal. Depois de ter viajado muito por motivos profissionais acha a atividade cansativa. Viajar para eles é visitar amigos, filhos e netos e não conhecer lugares, bater fotos, voltar para casa e expô-las aos entediados amigos. Acha que o turismo, principalmente nos países ditos do primeiro mundo, é extorsivo. Ele me mostra indignado fotografias de provincianos que vão para esses países e depois as divulgam nas colunas sociais do jornal local. Viajar, para ele, deveria proporcionar a oportunidade de conviver com outras pessoas o que não tem nada a ver com o globe-trotting atualmente praticado. É como fazer sexo voltado para o desempenho. Outro dia fomos juntos assistir, o filme “Antes de Partir”, onde dois coroas, doentes terminais, vivem os últimos dias de suas vidas, a viajar pelo mundo: Paris, Japão, Taj Mahal, pular de pára-quedas, visitar as Muralhas da China e coisas que tais, tudo financiado pelo milionário da dupla. Que basbaquice macróbia! Só ficou fascinado com uma ceia regada a vinho, num belo restaurante em Monte Carlo. E, ao final do filme, gostou do reencontro do milionário com a filha, quando conheceu sua linda netinha. Esses prazeres, para ele, são os que valem, estão mais próximos e mais baratos do que sair por aí “fazendo” tal ou qual país, na linguagem das agências de viagem. Adoramos literatura e cinema. Conversamos bastante sobre isso. Temos, recentemente, assistido os mesmos filmes e lido os mesmos livros. Interessante é a opinião que ele tem da Bíblia, sendo ateu convicto. Considera-a o livro mais importante já escrito. Só que o caracteriza como um grande livro de ficção, muito superior às epopéias homéricas. Adora o Velho Testamento e acha o Apocalipse a obra mais delirante que já leu. O Velho Testamento passou a ser mais apreciado depois de ter lido “José e Seus Irmãos”, onde uma pequena passagem bíblica é romanceada numa quadrilogia por Thomas Mann. Não lê revistas, passa os olhos num jornal local para conferir a programação dos cinemas; a tevê é usada para assistir os jogos do Flamengo ou da Seleção; fica atento às manchetes dos informativos para ver se tem algum fato novo ou se liga em alguma entrevista interessante. Os noticiários televisivos são apelidados por ele de infotretenimento. Aliás, acha que a arte em geral virou entretenimento. “Divertir-se” é o mandamento dominante. A mídia, para ele, principalmente a tevê, bloqueia o pensamento da maior parte da população. Tudo já vem pensado e subliminarmente opinado. Por exemplo, a opinião geral contrária que domina as conversas sobre Fidel, Chávez, Correa, Morales. Logicamente que alguns deles têm extrapolado como o venezuelano, o boquirroto, especialmente em suas tentativas de se perpetuar no poder, se intrometer onde não é chamado, numa tentativa tosca de liderar a América do Sul. Pantomímica também foi essa “guerra” de palavras entre os presidentes da Venezuela, Colômbia e Equador. Depois de cada um xingar a mãe do outro, confraternizaram em Santo Domingo com cantorias e palmadinhas nas costas. Os que falam mal desses presidentes geralmente esquecem que eles chegaram ao poder, a maioria democraticamente, em oposição à dominação espanhola de antigamente (que o reizinho insiste em continuar), à exploração do povo pelas elites locais, às vezes por intermédio de seus bastantes ditadores, e ao domínio imperial, principalmente dos Estados Unidos. Isso ninguém comenta! Falou-se em mudar o statu quo, a mídia desce o pau. Ah! Se o Lula tentasse mudar esse tal de statu quo! Seria o primeiro a dançar. Viu o que deu com o Jango e o final da vida do Getúlio! E eles eram filhos legítimos da burguesia latifundiária brasileira. Imagina um pau-de-arara querendo se meter a gato-mestre numa sociedade perversa, agora neoliberalizada e globalizada como a nossa! Cruel esse Apolônio! Por falar no Brasil, em uma conversa, elogiamos a postura da nossa diplomacia que agiu com prudência, seja nesse caso recente envolvendo os três países, seja no caso do gás boliviano, enquanto comentaristas e políticos da oposição se apressavam em exigir atitudes prontas e enérgicas. Nas constantes discussões defende a integração da América do Sul – vivamente criticada por muita gente (integrar o quê?) – enaltece o Mercosul, a despeito de suas contramarchas (o que considera natural), e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (só depois da chacina do Eldorado dos Carajás, no Pará, o FHC criou o Ministério da Reforma Agrária), principalmente pelo pífio andamento dessa necessária reforma pelos governos recentes. É contra a pena de morte e a venda de armas, e a favor da liberalização do comércio de drogas (desde que conjugado com a possibilidade de criação de alternativas econômicas para o atual tráfico, se não a violência urbana vai piorar), da descriminalização do aborto, da liberalização das pesquisas com células-troncos embrionárias, enfim, é um livre pensador rebelde (com causas). Quando está só comigo, exterioriza seus mais radicais pensamentos que, escandalizariam muita gente, e é por isso que não os divulgo aqui. Contudo, são pensamentos isentos de idealismos românticos, frutos de sua experiência na lida com a crua realidade da vida, sem moralismos burgueses e religiosos, e sempre atentos a uma aguçada visão humanística. É realmente uma peça esse Apolônio apolíneo! Talvez, quando do seu nascimento, o mesmo anjo que esteve presente ao parto do poeta Drummond tenha aparecido também a ele e vaticinado: “Vá ser gauche na vida”; bater de frente com as opiniões prêtes-à-porter do distinto público. Tenho-o como meu guru. Não para ser seguido cegamente. Ajuda-me a pensar.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES).
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