JORNALEGO
ANO VI - Nº. 182, em 30 de
janeiro de 2008.
Álbum de família (3/3)
O RETRATO DO ARTISTA QUANDO
JOVEM (*)

Agora é minha vez. Este retrato foi tirado em 1940 e serviu como
lembrança da festa do meu primeiro aniversário.
Não que eu seja um artista na acepção que esta palavra tem hoje.
Posso me considerar artista na concepção da arte produzida por uma criança
arteira. Buscando o sentido recreativo da palavra arte, o lúdico das criações
imaginárias (recriação) e dando vazão à necessidade da exposição dos sentimentos
e opiniões. Sem esconder, contudo, pretensões literárias. Essas, enquanto
perseguidoras do estético e do poético que um texto pode conter.
Como é triste sentir necessidade de explicar por que,
acidentalmente, me intitulo um artista!
Foi aí que eu resolvi mudar o rumo do que pensava originalmente
fazer para bolar uma historinha alegórica, no estilo de autoficção, mais de auto
do que de ficção. A alegoria pode ter pintado a história com cores fortes.
Mas, antes, vamos começar dando uma olhada atenta ao retrato.
A roupa branca que o “artista” veste é uma peça inteiriça de fazenda mole,
sedosa, com bombachas, vestimenta usada pelos bebês à época. No caso, uma
espécie de calção folgado que se atava às pernas com elásticos. A parte de baixo
não aparece na fotografia, mas outra foto de corpo inteiro, em que estou no colo
da minha mãe, mostra a roupa larga, para conter o fraldão (não descartável, por
suposto).
A parte superior da vestimenta, aparente na foto, era pregueada à
altura do peito. Uma medalha pendia de um cordão ao pescoço, ostensivamente, por
sobre a roupa. Eu olhava atônito para alguma gracinha que alguém fazia ao lado
da câmera. Cabeça grande, testa alta comum a minha estirpe, cabelos claros e
ralos que depois escureceram e ganharam volume. Hoje, voltaram a rarear e os
restantes embranqueceram de vez.
Nada do que está ali ainda resta hoje. Refiro-me a tudo, a mim todo.
Dizem que nossas células se renovam constantemente. Portanto, minha carne, meus
órgãos, meu sangue, meus neurônios, enfim, toda compleição atual não tem mais
nada do que foi então. Assim como os cabelos e as unhas que crescem, que se
cortam e são jogados fora.
Embora não me lembre bem dos fatos de minha infância (como ela está
longe!), sinto, no entanto, que ela foi muito boa. Era tempo de guerra e dela (a
guerra) nada me lembro. Tive um chefe, de minha idade, que nascera na Áustria,
de família judia, e ele, sim, se lembrava (e como!) da guerra e de sua viagem
para o Brasil. Eu fui o primeiro filho e o primeiro neto do único avô que
conheci e, com isso, fui muito bem mimado, inclusive pelas moças da vizinhança.
A infância foi tão boa que devo tê-la alongado por mais tempo, acho
mesmo que ela entrou pela adolescência, pois dessa eu não me recordo de ter
sentido nada marcante. Aqueles problemas, por que passam os jovens em processo
de maturação, se os tive não me lembro. Acredito que minha adolescência tenha se
dado bem depois, mais tarde do que acontece com a maioria dos jovens.
Costumo chamar esse fenômeno, no meu caso, de colisão do tempo. Pois
a maturidade e mesmo a velhice chegaram mais cedo. Os primeiros tempos demoraram
a passar, os derradeiros vieram mais rapidamente.
Agora, a alegoria alusiva à passagem do meu tempo-espaço. Poderia
ter como título: “Uma Volta na Roda Gigante”. Como subtítulo: “Na circunferência
o início e o fim são um único ponto.” (**) Como epígrafe, escolhi os
versos iniciais do poema Residência Provisória, de Ronaldo Cagiano:
“Viajei
mundos,
mas ainda
não me (re)conheço:
duro é o trajeto por dentro”.
Pariu-se
de sua província natal à procura de novos horizontes, além do horizonte marítimo
que contemplava das praias. Rompeu o cordão umbilical, lançou-se ao grande mar
que circundava a ilha.
Deu-se à
luz. E o que viu cegou-o parcialmente. Estava defasado em relação aos
ensinamentos que tivera. Tudo era grande, a cultura, o refinamento, os povos, as
cidades. Aos poucos recuperou a visão.
Foi mais
além. Ultrapassou fronteiras. Descobriu novas coisas e, ao descobri-las,
descobriu-se e à sua terra, vistos de fora. Eram outros, e muitos, os costumes.
Ele saíra da província, mas a província não saiu dele. “A cidade está no homem,
quase como a árvore voa, no pássaro que a deixa.” (***)
Subiu ao
planalto para aumentar o campo de visão. Ver do alto. Foi vítima de acrofobia.
Do idealismo chegou ao ceticismo. Do conservadorismo ao radicalismo no pensar.
Deus morreu-lhe. A nova esquerda não era o que esperava.
Deu a
grande volta. Voltou ao ponto de partida com olhos atentos, ouvidos ariscos e
gostos mais exigentes de quem experimentou outras experiências. Do cosmo voltou
ao seu satélite. Ele, que ansiava o porvir, voltou ao passado travestido de
futuro.
Antes não tivesse saído da terra, do retrato, do útero. Dado a grande volta para
voltar ao mesmo lugar. A volta de quem não foi. Apátrida em seu torrão natal.
Voltando,
para terminar, ao poema epigrafado:
“Registro
de um percurso inacabado”.
“As solas
intactas dos sapatos
Resumem o
muito que não andei”.
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(*)
Este título foi plagiado de um livro do escritor irlandês James Joyce. Este
expediente imaginativo e hilário, unindo o título à foto do autor na primeira
infância, foi utilizado originalmente pelo escritor capixaba Miguel Marvilla na
orelha de um dos seus livros.
(**)
Heráclito de Éfeso, atual Turquia (aproximadamente: 540 a.C. - 470 a.C.), filósofo
pré-socrático.
(***)
Versos de Ferreira Gullar, do “Poema Sujo”, citado por Arnaldo Bloch, em O
Globo, 12-01-2008.