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JORNALEGO ANO VI - Nº. 181, em 18 de janeiro de 2008.
Álbum de família (2/3)
O RETRATO DE MINHA MÃE
Quando trocou fotos com meu pai ela só tinha 23 anos. Casou-se aos 24. Tornou-se minha mãe com 25. No retrato, usa vestido branco de mangas três-quartos. Recatado como convinha à época e démodé para os dias que correm. Blusa, cinto e saia justa da mesma fazenda, com um simulacro de pregas na frente da saia. Na blusa, vê-se um enfeite, a título de broche, possivelmente de crochê, inusitado para os tempos atuais. Imitava duas flores, mais parecendo dois figos secos. No pescoço usa um fino cordão, mais bem divisado, em parte, na foto ampliada, talvez com uma medalha encoberta pelo vestido. Vêem-se pequenos brincos nos lóbulos das orelhas escondidas por cabelos curtos e lisos, repartidos na parte superior da cabeça, levemente ondulados até a nuca. O ar é sério, de expectativa. Imagino-a cobrando do fotógrafo: “Esta sessão de fotos não acaba mais?” Seus braços estão cruzados por trás do corpo. Afinal, o que fazer com as mãos numa pose dessas? Por falar em corpo, sempre o teve esguio. Uma foto, na praia, depois de dar à luz sete filhos, mostrava que sempre manteve a linha. Sem ginástica, sem dietas, com muito trabalho na incessante, monótona e cansativa atividade eufemística de prendas domésticas. Morreu aos setenta e nove anos, há quase 15 anos, mas foi levada bem antes pela mão de um mal insidioso. Foi como dona de casa e mãe que pôs em prática o seu diploma de professora. Quando se sentiu liberada de suas funções, já viúva, a doença a assaltou. Filha de espanhola e descendente de portugueses, unia a passionalidade com a autoridade de origem ibérica. Pensando bem, isso é figura de retórica, não era tão passional assim, até tendia muito para a tolerância. A afetividade era equilibrada com a praticidade em conduzir o dia-a-dia do casarão assobradado. Costurava todas as nossas roupas, da infância até a adolescência. Colaborávamos, a seu mando, insatisfeitos, em várias das atividades domésticas. Todos os filhos, nascemos em casa com a assistência de uma parteira, como era comum à época e no lugar. Uma de nossas tias teve quatorze filhos da mesma maneira. Outra, no aguardo da parteira, a quem o marido fora buscar, teve um filho sozinha. Mulheres guerreiras, o que me leva a alguma reflexão. Por essas e outras, nunca consegui imaginar o que é ser mulher. Não as compreendo na sua fisiologia e psicologia, embora tenha procurado adquirir algum conhecimento a respeito. Olho o retrato de minha mãe, observo as mulheres em geral, e me espanta o mistério que encerram. Mistério que fascina e atrai tanto quanto a sensualidade do sexo feminino. Quando li Orlando, de Virginia Wolf, acompanhei muito bem a primeira metade do romance com o personagem masculino. O milagre da ficção o transforma em mulher e, a partir de então, eu não entendi mais nada. Daí a ignorância secular: é muito recente a concepção de que os seres humanos são divididos em dois sexos com características próprias. Até as últimas décadas do século 18, a medicina só admitia a existência de um sexo, o masculino. O que, atualmente, chamamos de sexo feminino era visto como um sexo masculino “frio” e “invertido”. Essa aberração está contada num artigo do psicanalista Jurandir Freire Costa (O Lado Escuro do Iluminismo, Folha de São Paulo, Caderno Mais, 11-05-2003). A repressão masculina, como se sabe, fazia com que o sexo feminino fosse olhado somente como máquina reprodutora. É recente e ainda incompleta, a desejada igualdade entre eles. Outro dia vi na tevê uma entrevista do escritor português António Lobo Antunes que, a certa altura, disse: um homem bom é aquele que não tem medo de parecer mulher. Por conseguinte pode-se concluir que: uma mulher má é aquela que quer se parecer homem. Não só na postura física como na mental e comportamental diante da vida moderna, concorrencial, que às vezes a obriga a se conduzir como tal. Mesmo que seja por uma questão de defesa (ou de ataque), é uma lástima! Exigência descabida do admirável mundo novo. Esse é o mal do feminismo fundamentalista que ainda guarda resquícios, mais acentuados no passado, no início desse movimento meritório. A igualdade dos sexos é uma atitude política, ela se dá considerando a desigualdade física, orgânica e psicológica entre eles. Daí a diferença semântica entre feminismo e feminilidade, feminista e feminina. As conquistas da mulher ao longo do passado recente trazem também em seu bojo novas conquistas. O mundo está melhorando e se tornando mais feminino. Por exemplo: o reconhecimento menos preconceituoso do outro e a necessidade de preservação do meio ambiente em que vivemos. Da fauna à flora. O combate à discriminação racial. E mais, avançando-se na aceitação e respeito às pessoas carentes de cuidados especiais: deficientes, doentes, infantes, idosos. E ainda mais, a melhor compreensão do homossexualismo, das diversidades comportamentais etc. Nada de exaltação gratuita ao feminismo, mas a evolução naquela direção poderia ser caracterizada como uma contribuição feminina ao modo de ser masculino que vigorou por tanto tempo. As religiões mais modernas foram, em parte, difusoras do jeito masculino de ser. Na Antigüidade cultuavam-se deusas mulheres, mães da fertilidade. Com as religiões reveladas, Deus apareceu como um deus da guerra tribal, o Deus dos exércitos, até bem pouco tempo invocado no Sanctus nas missas católicas. “Há cerca de quatro mil anos, quando a figura do Deus hebreu foi ganhando suas feições, as mulheres começariam a ser vistas como pessoas de segunda classe.” “O advento das cidades, assim, fez com que a força marcial e física superasse as qualidades femininas.” “Como resultado, as antigas deusas da fertilidade foram desbancadas pela força; desde então, masculinidade e poder andam juntos.” (Recortes da Revista História, Dezembro de 2007). A pá de cal no imaginário popular sobre o sexo de Deus foi colocada por Michelangelo ao retratar um Deus macho no teto da Capela Sistina do Vaticano. Ocorre-me, ao iniciar novo parágrafo que, se, nos Estados Unidos, uma mulher vier a ganhar na eleição presidencial deste ano, talvez o Time Magazine tenha de escolher a candidata democrata como o Homem do Ano ou mudar o nome da promoção, o que seria mais sensato. Atualmente muitos são os países que têm mulheres em posição de governantes. Mas não é somente por aí que o mundo vai melhorar. Houve tempo em que mulheres estavam em posição de mando e seus países estavam em guerra (Golda Meir, Indira Ghandi e Margareth Tatcher). Benazir Bhutto, recentemente assassinada no Paquistão foi, por duas vezes, defenestrada do cargo de primeira-ministra, sob denúncia de alta corrupção. Isso é para dar uma balançada na mulherada e lhes incutir aquela dose de humildade que não faz mal a ninguém. Não adianta sair do machismo ricocheteando no mais delirante feminismo. Tais as reflexões que me foram provocadas pelo retrato de minha mãe. Nessas recentes festas de fim de ano, ao comer frutos natalinos, veio-me à lembrança, qual madeleine proustiana, a brincadeira que fazíamos quando encontrávamos dois caroços geminados numa mesma amêndoa. Eu comia um, ela comia outro. Aquele que primeiro cumprimentasse o outro no dia seguinte ganhava um presente. Ao raiar o dia do Natal, procurei o retrato, como a procurar presentes de Papai Noel nos sapatos, postos ao pé da cama, como era costume lá em casa. Antecipando-me a ela, saudei-a nervoso: Bom-dia Filipina! Ela me olhou espantada por ainda me lembrar da brincadeira hispânica tão antiga e me soprou um beijo como prenda. O beijo da primeira mulher amada: Lindinha! Na data da publicação deste número do JORNALEGO ela completaria 94 anos.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES).
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