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No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
No 130: Vovó Maluca
No 129: De Causar Espécie
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No 124: Rio de Fevereiro
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No 5: O Tempo da Memória
No 4: A Mulher do Romualdo
No 3: Voto Aberto
No 2: Malvadezas
No 1: O Sequestro
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JORNALEGO

ANO VI - Nº. 175, em 30 de outubro de 2007

 

Conto final da série “Umas e Uns

 

UMA MULHER E UMA MULHER

 

            Foram colegas durante anos no Sacré-Coeur de Jésus. Sacrequer de Jesi.

 Noto que muitos dos meus contos começam num colégio ou em outro tipo qualquer de ambiente religioso e terminam sabe Deus como. Isso deve ser perseguição ou algum trauma meu. Só pode ser! Por falar em terminam sabe Deus como, é sintomático o fim desses tipos de colégios administrados ostensivamente por padres ou freiras, exclusivos para meninos ou meninas. Por quê? Eram máquinas de fazer doido. Nem todos viravam doidos, só os normais!

 Voltemos ao outeiro carioca das Laranjeiras. Induzida (ou abduzida?) pelas piedosas freirinhas, Maria era idealista, no pior dos sentidos, perseguia a santidade. Depois que renunciou a esse objetivo adotou o ideal romântico. Desejava encontrar o seu príncipe encantado, casar-se no civil, no religioso e no militar (era época de ditadura) e ter muitos filhos lindos, de cabelos cacheados, saudáveis e cuidar da mansão que projetava para morar.

 Isabel sempre fora mais pé no chão. Estudiosa, interessada em política, sociologia e economia, queria ser jornalista.

 Viviam sempre juntas, confabulavam sobre namoradinhos e coisas naturais de sua idade.

 “Casou Maria, com Zé casou, jogou o buquê, solteirona Isabel pegou”.

 Foram sete anos de fel, já pressentidos em plena lua-de-mel. O marido, filho único, nunca se desligou da mãe viúva, que nunca deixou de tê-lo preso ao cordão umbilical. O romantismo de Maria foi murchando aos poucos, com o tratamento brutal do seu companheiro, de quem chegou a levar alguns safanões. Numa noite, em que fora se encontrar com Isabel, empolgou-se e demorou a voltar; por isso deixou-a passar longas horas no hall dos elevadores, sem atender à porta. Um casal de velhos, seus vizinhos, a acolheu em seu apartamento, onde conseguiu dormir um pouco até o dia raiar, quando foi recebida em sua casa sob impropérios os mais agressivos.

 Suas noites eram terríveis. Temia pela chegada dele, sempre tarde, e tremia na possibilidade de ser convocada para um relacionamento sexual que a deixava machucada física e moralmente.

 O casamento durou ainda muito tempo depois que o príncipe virou sapo, pois a infeliz Maria não queria tomar uma atitude mais drástica em nome da moral religiosa, familiar e dos bons costumes da sociedade de então.

 Antes de relatarmos o fim inevitável desse casamento que, felizmente, não gerou nenhum descendente, talvez, pela postura psicológica da mulher, repudiando seu homem, voltemos nossa atenção para Isabel.

 Solteira, Isabel continuou totalmente devotada ao trabalho de jornalista num grande periódico. Tinha um círculo grande de amigos e colegas de profissão, sem se envolver amorosamente com ninguém. Dizia-se muito exigente nesse quesito. E era. Intelectual de esquerda, além da atividade jornalística se engajou no jogo político, comprometendo-se com o ideário do Partido dos Trabalhadores e do seu ícone máximo, Lula, na luta pela moralização da política e pela tomada do poder central. Parece que foi ontem! “Tudo que é sólido (ou aparenta ser sólido) se desmancha no ar!”

 Freqüentemente encontrava-se com a sua grande amiga Maria, com a qual trocava confidências e de quem ouvia coisas cabulosas sobre a sua convivência com aquele zé-ninguém. Esses encontros que amenizavam as dores da Maria eram fontes de grandes discussões e agressões por parte do marido que queria saber de tudo, o que conversavam, onde se encontravam e coisas afins.

 Devidamente orientada por Isabel, Maria resolveu separar-se definitivamente daquele Zé e, foi morar com a amiga, em seu belo apartamento, pequeno, porém muito bem montado.

 Foram dias de sossego e paz que imediatamente começaram a assustar Maria. Nos momentos mais tristes, quando recordava sua vida de casada e se protegia e recebia os carinhos da Isabel, começou a sentir uma forte atração por sua amiga que, por sua vez, também ao se solidarizar com aquela tristeza, vertia copiosas lágrimas e a abraçava com sofreguidão.

 Ora era o inferno, ora o céu. Horas de céu e horas de inferno. Era o paraíso antes da serpente. Era a serpente. Era a maçã. Era aquele Senhor barbudo. Era um cajado pesado brandido sobre a cabeça perturbada de Maria. Insegura, não compreendia seus sentimentos. Achegos e repulsas. Todo o seu ser estava em convulsão. Guerra e paz. Amor e espanto.

 Isabel tirou férias e foram as duas para Parati. Ali pousaram suas inquietações, e a poeira assentou. Tornaram-se amantes. O narrador cinge-se a esse pobre informe, sem saber descrever o que se passou naquela estância.

Com a volta ao Rio e de Isabel ao trabalho e a dura faina de dona de casa da Maria, que agora lhe cabia, a vida foi sendo levada, com alegria, com festas, com amor, com a compreensão e o carinho dos amigos. Nunca fora tão boa para Maria, principalmente agora que freqüentava sessões de psicanálise extremamente proveitosas, seguindo sempre os conselhos de Isabel, que já passara por isso e sentia-se íntegra, segura, dona de si e, como dizia: muito mais mulher.

 Até que aconteceu a inevitável necessidade feminina de discutir a relação e o resultado foi tomarem uma ousada decisão: terem um filho!

 Adoção? Inseminação artificial? Descartada a adoção, rejeitada a alternativa sem paternidade explícita, veio a pergunta: quem seria a mãe? Maria pulou na frente: seria ela. Tese imediatamente rechaçada por Isabel. Solução encontrada: teriam dois filhos. Um de cada uma. A necessidade de eles terem pais e como escolhê-los foram itens colocados num distante segundo plano, para o qual só atentaram depois de muito tempo e de sonoras gargalhadas. Nessa noite, tomaram champanhe e, borbulhantes, recolheram-se.

Esses contos se parecem com aqueles filmes pudicos da década de cinqüenta. Quando a coisa esquenta, cortavam para as cenas seguintes.

 Algumas festinhas foram realizadas no acolhedor apartamento partilhado pelas duas com aquela maquiavélica intenção. Já tinham, de certa forma, definidos os parceiros pela afinidade que cada um tinha com elas. Notaram que eram exatamente os que provocavam ciúme uma da outra, quando se entregavam, em duplas isoladas, a discutir um tema, a falar sobre um filme, analisar um livro, ou qualquer outro assunto. Olhares ciumentos eram trocados entre elas nessas ocasiões.

 Três ou quatro reuniões festivas foram suficientes para que cada uma escolhesse o seu inseminador natural. Ficou claro para os parceiros que o objetivo era uma produção independente. Moleza para eles que não queriam compromissos perenes, nem com elas nem com os produtos dessa empreitada.

As gerações dos embriões foram quase simultâneas. Os ciclos menstruais das duas há muito coincidiam. Dois lindos meninos nasceram de cesariana, no mesmo dia, quase na mesma hora, o que passou a ser considerado um caso impar na história da obstetrícia mundial: gêmeos de mães diferentes. Também de pais diferentes, mas isso é indiferente.

 Contudo, vou logo adiantando que, a despeito de respeitarem as produções independentes, os pais estavam sempre presentes, com visitas freqüentes, participação em festinhas de aniversários, presentes de meninos, e promessas de irem ao Maracanã quando a idade permitisse, enfim, o referencial masculino não faltou.

Depois do sucesso dos partos, felizes da vida, Isabel chegou a admitir, como blague, que talvez tenham exagerado na dose; poderiam muito bem ter um único pai para os dois pimpolhos.

 Assim termina a tetralogia, quando nem sempre as histórias chegaram a um bom desfecho. A redenção se dá neste conto de fadas moderno, onde tudo acabou como nos mais antigos, e todos viveram felizes e contentes para sempre.

 

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 Notas do autor: O verso “Casou Maria, com Zé casou, jogou o bouquet solteirona Isabel pegou” é de autoria de Sérgio Ricardo na música “O Bouquet de Isabel”. Como se nota, desse verso foram retirados os nomes dos personagens do conto.

 A frase “Tudo que é sólido se desmancha no ar” é de Marx e Engels no Manifesto Comunista.

 Os contos anteriores que compõem a tetralogia podem ser resgatados clicando-se nos atalhos que se seguem.

 Um Homem e Uma Mulher:

http://www.ecen.com/jornalego/no_169_um_homem_e_uma_mulher_br.htm

 Uma Mulher e Um Homem:

http://www.ecen.com/jornalego/no_172_uma_mulher_e_um_homem_br.htm

 Um Homem e Um Homem:

http://www.ecen.com/jornalego/no_174_umhomem_um%20homem_br.htm

  

 

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES)

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

                       

 

 

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