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JORNALEGO ANO VI - Nº. 173, em 10 de outubro de 2007
Crônica alegórica
CIDADELA SITIADA
Quando aqui nasci e vivi (infância e adolescência), a cidade era pequena, pacata e provinciana. Ela e eu galgávamos os morros sem tráfico. Jogávamos bola, descalços, nas ruas calçadas com paralelepípedos, sem tráfego, como também nos inúmeros espaços vazios e ermos em pleno centro. Freqüentávamos os parques com suas árvores de copas entrelaçadas. Na noite calma escutávamos o carregamento dos navios no cais do outro lado da baía e, de meia em meia hora, os acordes iniciais do hino estadual no relógio obelisco da praça central. Os bondes elétricos trançavam a cidade de ponta a ponta e mais além. Desapareceram. As praias bordejavam a ilha. Aterraram-nas. Tínhamos o colégio e o clube como centros de convivência social. E muitos bailes e festas com meninas de vestidos rodados, rendados, bordados. Batíamos longos papos nos bancos das praças, nas nascentes lanchonetes, nas portas dos cafés e nos cruzamentos das ruas, em grupos em pé. Quando demorávamos a nos recolher, tarde da noite, ao voltar para casa, só nos assediava o medo de almas penadas, assombrações, que ainda habitavam nosso imaginário. Saí jovem por onde a vida me levou e voltei mais velho quando ela me trouxe de volta. Os ventos de hoje são os mesmos que sopravam desde há muito, mas nunca tão sentidos como agora. Os quentes e os frios. Os do Norte e os do Sul. Da maresia, eu quase nada sabia. Não a sentia porque fazia parte de mim. Hoje, mais exposto a ela, volto com a sensação de conhecê-la somente agora. A carcomer tudo! Naquele tempo morava na ilha, bem protegida do oceano, guarnecida por um grande maciço, de um lado, e por um braço de mar, de outro. Nunca me senti tolhido. Os espaços que a circundavam eram infinitos e vazios, e podíamos explorá-los à vontade, transpostas as águas que a cercavam. Éramos os novos donatários do espaço, depois de expulsos os primitivos indígenas e esquecidos os colonizadores que aqui chegaram. Voltei com a sensação de que algo me confina, me prende, me sitia, embora tenha transposto os limites do conteúdo, e me espalhe pelo continente. Mesmo assim, sinto-me acometido por uma sensação de claustrofobia. Quem sabe, a idade! A começar devido à maior exposição ao mar e ao vento. Quando passo pelas praias, que agora estão mais longe do que antes, embora mais perto de mim, sinto as ondas encapeladas e o vento a fustigar forte, me assustando. Temo que venham me levar e me engolir no rebuliço das vagas encrespadas, a reclamar seu antigo espaço. Mais além, uma enorme esquadra de navios se planta no horizonte em posição de alerta, esperando a hora do assalto. Dia e noite. Como as velhas caravelas dos antigos conquistadores, a espreitar terra firme. Como uma frota de vasos de guerra pronta a atacar. Vêm como vinham os exploradores de antigamente, para saciar apetites ultramarinos. Uma das especiarias desejadas vem do poente, por detrás daquelas serras, rodando sobre estradas também de ferro. Aqui são deglutidas por enormes bocas e depositadas em ventres de imensos paquidermes marinhos, cruas ou cozidas e, ao fazê-lo, espargem resíduos da comilança que se espalham por sobre nossas cabeças, nossas praias, nossas casas, se adentram em nossas entranhas. Ao lado, um monstro franco-indiano engole ferro e vomita aço, espalhando flatos mal-cheirosos e insalubres ao sabor dos ventos dominantes. De preferência na calada e na escuridão das noites. Mais ao norte, outro mastodonte se farta a pastar por grande porção do território, desertificado em verde, digerindo celulose e expelindo dejetos, para apetecer carências de além-mar. Do sul vem outro aterrorizante monstro, ligado umbilicalmente ao ventre das terras mineiras que, empanturrado de ferro, ejacula pelotas em úteros gigantes e flutuantes que vão parir, muito além do mar oceano, frutos de altíssimo valor. De lá também virá um dragão chinês, ainda em gestação, com a mesma gula e o mesmo ímpeto, a nos sujar quando o vento der meia-volta. Jovens já se esmeram em aprender mandarim para saudá-lo com boas-vindas vernaculares. Toupeiras perfuradoras penetram nossos solos terrestres e submarinos, à procura de restos orgânicos para alimentar motores insaciáveis que, por sua vez, defecam excrementos no ambiente e na atmosfera. Uma gigantesca enguia elétrica, com seus milhões de células luminosas, gerada e alimentada no útero estatal se transformou, quando dali saiu, numa grande lombriga a devorar recursos, sem a preocupação de recarregar suas baterias. Apagões à vista e a prazo! O vento que sopra o tempo todo me confina nos meus estreitos limites de agora e eu me fecho no meu tugúrio de monge herege. Refugio-me num espaço emparedado na muralha de concreto armado que, sempre a crescer, me apequena e me intimida. Sinto-me o próprio indígena, novamente acuado por conquistadores alienígenas. No meu tempo e um pouco antes, as gentes, quando imigravam, vinham para ficar, para compartilhar a vida conosco. Agora não vêm mais. Mandam seus capitais e capitães. Mais antigamente ainda, expulsávamos os invasores com água fervente, agora os recebemos com doações de terrenos, isenções fiscais e créditos públicos. Eu compreendo. É a globalização, o progresso e o desenvolvimento e não há como fugir deles. Parece claro. Mais claro ainda é que não há desenvolvimento sustentável, só existe desenvolvimento destrutivo. Muito ou pouco destrutivo. Sempre destrutivo. E o vetor dessa destruição é o ser humano e o aumento populacional. Naquele tempo da minha grata recordação, há pouco tempo, portanto, o mundo tinha de gente, a metade do que tem hoje. Nosso país tinha um quarto da população atual e infinitamente muito menos pessoas em zonas urbanas. Da mesma forma, eu também compreendo a maior incidência do câncer, o aparecimento da aids, o estresse, a depressão, as drogas e seu tráfico, a violência urbana, a do trânsito, o aquecimento global, o buraco na camada de ozônio e o terrorismo internacional. Não há volta. Soluções com os recursos disponíveis? Não há; apenas paliativas. Não estou me lamuriando. Estou apenas cronicando, registrando minha perplexidade diante desse fenômeno, que as pessoas pouco criticam, contra o qual pouco reagem, que aceitam tranqüilamente e, por vezes, até aplaudem. Algumas das grandes concentrações urbanas periféricas de baixa renda foram por aqui criadas quando do fim das construções dos grandes projetos. Outras, tudo indica, vão ser ainda criadas. Tudo vai piorar. Qual Itabira, que foi um retrato na parede do poeta, hoje, minha velha urbe são fotos antigas que os amigos me mandam em mensagens pela Internet. Não tem jeito. Sinto-me cercado por todos os flancos, inclusive por novos conceitos em substituição aos que me regeram e agora, dizem, caducaram. Na idade madura, sem compromissos profissionais ou de qualquer outra natureza, a não ser viver e deixar viver, aguçam-me as antenas da percepção e da observação. Nada me garante que sejam lúcidos e verdadeiros meus comentários. Refletem sentimentos. Sem sentimentalismos. Com uma pequena ponta de nostalgia. A minha cidadela caiu. Seu apelido antonímico é derrota. Não obstante, ela continua sendo um lindo cartão postal.
Genserico Encarnação Júnior, 68. Itapoã, Vila Velha (ES)
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