JORNALEGO
ANO VI - Nº. 171, em 20 de
setembro de 2007
Crônica
LITERATURA DE APOIO
Ninguém me ama,
ninguém me quer,
ninguém me chama
de Baudelaire!
Antônio Maria plagiando a si
próprio
Minha intenção inicial era chamar esta crônica de “Literatura
de M.” porque pensava em me limitar aos aspectos escatológicos do tema. Mudei de
opinião, baixando esse título para o corpo do texto, retirando-o do destaque,
para não deixar a vulgaridade prevalecer, já que vou mais além no tratamento do
assunto. Mas o texto, em sua primeira metade, ainda vai tratar daqueles aspectos
que, absolutamente, não devem ser abordados em ambientes mais refinados.
Quando antigamente eu escrevia aquela palavra que agora
escondo sob a sua letra inicial, o corretor de texto do meu velho micro a
grifava em vermelho, pudicamente, e nem sequer aceitava o comando para sua
incorporação ao dicionário embutido no equipamento para que, em assim fazendo,
eu pudesse evitar futuras repreensões às irreverentes escorregadas no linguajar.
Pois bem, com a minha nova aquisição, um notebook
moderninho, um grande avanço da tecnologia da informática foi-me colocado à
disposição. A palavra excrementosa, substituída por sua letra inicial no
título original desta crônica, passou a ser aceita sem maiores problemas. Não
haveria mais a necessidade de escondê-la. Contudo, ao fazê-lo, estou a notar que
a pudicícia agora está comigo, pois estou evitando escrevê-la abertamente.
Mas vamos ao que
interessa. Deixemos de encher lingüiça. Este meu tipo de literatura, de contos,
crônicas, artigos de opinião etc., tudo muito breve e ligeiro, se presta àquele
tipo que, jocosamente, está contido no antigo título.
Um grande amigo já
falecido, quando recebia um dos meus textos impressos, dizia que os leria quando
fosse ao banheiro. Uma afilhada confessou-me, sem pejo algum, que colocou o
opúsculo contendo uma coletânea de meus contos também no banheiro, ao alcance da
mão para quando lá fosse melhor aproveitar a sua privacidade. Também, pudera,
com o nome de opúsculo!
É por isso que não
edito mais nada impresso. Escrevo no meu site na Internet. O que, se não elimina
a possibilidade de levar minha literatura para o banheiro, pelo menos dificulta
a sua leitura na casinha. A não ser que:
·
O texto seja
impresso pelo leitor e para lá se leve as suas páginas;
·
Que se obre
no escritório ou no cômodo em que o micro estiver instalado; ou
·
Leve-se um
laptop para o trono.
Ainda continuarei a melhorar a
minha estratégia na tentativa de evitar totalmente a leitura da minha obra em
lugar tão pouco recomendável, o que desabona os meus esforços para que ela seja
levada a sério.
Talvez se viesse a escrever uma
novela ou um alentado romance, quem sabe, pelo peso do volume e pela extensão da
história, fosse possível evitar esta prática desabonadora da literatura que
faço. É o que penso. Só assim, talvez, possa fazer com que as leituras dos meus
textos sejam feitas em ambientes mais respeitáveis.
Haja empenho, engenho e arte nessa empresa
que, talvez, eu não os possua. Será que sou fadado a aceitar o insólito costume
de alguns leitores? Particularmente, acho que não se deve misturar uma atividade
prazerosa e saudável com outra de menor qualificação (esta última, a leitura).
Com estes comentários não quero menosprezar quem
escreve da mesma forma que eu. Afinal Jorge Luis Borges nunca escreveu um
romance e é um grande escritor. Tento apenas fazer graça com algumas situações
vividas por meus escritos, aliando a isso uma hipócrita autocomiseração.
É por essas e outras que, às vezes, passo
por sérias crises de existencialismo literário. Fico a ruminar sobre a validade
do que faço. Por que faço? Para simplesmente me expor, gratuitamente? As
opiniões pessoais servem para quê? A minha ficção é só historinha boba ou tem
algum estofo, se sim ou se não, qual a pretensão dela?
Acredito que a necessidade é basicamente
catártica. Viver por viver só os animais irracionais sabem como fazer. E bem!
Recentemente, ficava a observar os animais na chácara acreana da minha filha e
tive essa percepção. Nós, pobres animais racionais, temos necessidade de contar
com algum tipo de terapia ocupacional, o trabalho, a psicanálise, o esporte, as
drogas, as religiões ou escrever. Não sabemos simplesmente viver.
Minha aposentadoria, que se fez total na
entrada deste século, encontrou sua válvula de escape na tentativa de fazer e
ler literatura. Só que, uma vez, passeando pelos parques londrinos eu cunhei um
novo rótulo para certo tipo de literatura, ao observar o que estava escrito nas
latas de lixo: litter. Daí criei o neologismo litterature, com
dois tês na primeira metade da palavra. Esse é o perigo, produzir lixo ou aquela
variedade a que me referi no início desta crônica.
No início do mês tomei um porre sem
querer, numa festa de casamento, misturando uísque com cerveja e, sem trocar as
pernas, dar vexame, nem falar de boca torta, agucei meu senso de autocrítica. Se
a ressaca demorasse um bocadinho mais eu teria dado um ponto final nesse tal de
Jornalego.
Mas, passada a rebordosa da autoflagelação,
resolvi continuar escrevendo e distribuindo essas historinhas e croniquetas, até
que a musa do romance possa baixar em mim e permitir que eu escreva algo mais
volumoso.
Tenho até um derradeiro Jornalego,
prontinho para ser lançado como o último, quando me falecerem as forças (bonito
eufemismo para a morte). Pensei até em lançá-lo depois do porre de timidez a que
fui acossado recentemente. Contudo, resolvi deixá-lo hibernando até a ocasião
propícia, quando favorecerei vocês, meus diletos leitores, enfim e para sempre,
com a minha ausência.
Enquanto isso, esperando Godot, invoco os
versos finais de Antônio Maria na música de Fernando Lobo:
“Vim pela noite tão longa, de fracasso em fracasso”,
“E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço”,
“Cansaço da vida, cansaço de mim”,
“Velhice chegando e eu chegando ao fim...”
... da
crônica. Por suposto. Por enquanto.