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JORNALEGO

ANO VI - Nº. 170, em 10 de setembro de 2007

 

Opinião

 

PORQUE NÃO SOU RELIGIOSO 

 

            Uma vez me perguntaram por que eu era católico. Eu ainda me dizia católico ou, pelo menos, ainda não tinha me rebelado contra o que se chama a fé religiosa. Respondi que era católico pelos mesmos motivos por que sou flamenguista. Meu pai, minha referência de então, torcia pelo Flamengo.  

No caso específico da religião, minha mãe era católica, e assim também o ambiente em que vivíamos: família, escola, amigos, parentes, vizinhos e todos os relacionamentos de uma maneira geral. Principalmente o meu avô materno, viúvo, que morava conosco, extremamente católico.  

            A primeira condição de se ter uma religião é nascer no ambiente dessa religião. Não existem crianças religiosas. Existem crianças de pais religiosos. Elas são papagaios e macaquinhos que repetem o que seus pais ou responsáveis dizem ou fazem. Não têm descortino suficiente para decidirem por alguma religião, nem tampouco para se absterem dela.  Como as religiões são inculcadas na mais tenra idade das pessoas, daí vem a inércia que faz com que a mudança de opinião seja uma decisão complicada. Depois seguem outras razões para se continuar religioso, tais como o medo, a possibilidade de conforto, a necessidade de participar de um grupo e a tentativa de explicação do complexo e por vezes do inexplicável. 

            Fui educado na “fé” católica que passou por vários estágios, a saber: batizado, crisma, catecismo, primeira comunhão, colégio religioso (Salesianos), casamento religioso, batizado dos filhos, leituras religiosas (por exemplo: “Ser Cristão”, de Hans Kung, “Apelo aos Vivos”, de Roger Garaudy, e mais: Tristão de Athayde, Frei Betto, Leonardo Boff e outros tantos autores cristãos) e, a gota dágua: Encontro de Casais com Cristo. 

            Nada foi capaz de conter o tsunami da não-crença decorrente da experiência vivida, das leituras (nenhuma tão impactante quanto as religiosas) e muita literatura. Além disso, pratiquei algo muito subversivo e extremamente herético: pensei, pensei e pensei. Deixei a razão livre para funcionar independentemente da doutrinação a que fui submetido. Liberto da monocultura dos livros sagrados, no meu caso, a Bíblia, que li quase toda. A propósito, acho a Bíblia uma grande obra literária, comparada às epopéias homéricas. 

Acabei por me decidir desvincular-me totalmente da religião, principalmente de suas idéias estapafúrdias; uma decisão que julguei certa e que foi tomada racionalmente e nada intempestivamente. 

Não pretendo ter encontrado a verdade, embora esteja convicto de que esteja mais perto dela do que anteriormente, no tempo da minha fase religiosa. Cada um usa seu material pensante e sua racionalidade para chegar às próprias conclusões. Importante que isso seja sempre um processo racional, crítico, não se empanturrando de dogmas e raciocínios catequéticos e doutrinários de qualquer religião ou seita. 

            Uma vez, conversando com uma religiosa, ela me criticou dizendo que eu somente me fiava na razão humana, para ela incompleta. Fiz ver à minha interlocutora que a razão humana é a única de que me valho. Sou humano e raciocino humanamente.                                           

           Assim, na virada dos meus quarenta anos, portanto um pouco tarde, vi-me ”convertido ao ateísmo”. Julguei que fora uma atitude lúcida e corajosa. Corajosa porque é por volta da meia-idade que as pessoas começam a colocar em dia sua contabilidade com os céus, na esperança de garantir uma vida tranqüila além-túmulo. 

            Bem recentemente li os dois primeiros capítulos (em cópia Xerox) do livro do Bertrand Russel, “Porque não sou Cristão”, e o último livro do biólogo inglês, de quem sou admirador, Richard Dawkings, “Deus, um Delírio”. Leituras maravilhosas que já me encontraram de cabeça feita, portanto não me convenceram de nada, simplesmente confirmaram tudo o que penso.  

            Não é meu intento neste artigo criticar instituições, as idéias, crenças e pessoas religiosas (principalmente alguns amigos). Respeito suas crenças como espero que respeitem as minhas. Os autores citados fazem isso de maneira brilhante e muito honesta, sem papas (nem intenção de trocadilho) na língua, o que merece o meu aplauso, porque fazer esse tipo de crítica sempre é muito malvisto, provocando reações por vezes iradas.  Aqueles livros assumem um papel muito importante no esclarecimento do assunto.

            Não creio em divindades (nenhum tipo de deus), em coisas sobrenaturais, portanto não acredito em design inteligente, criacionismo, vida depois da morte e outras figuras do imaginário religioso. O objetivo da vida é viver, é a própria vida. Não acredito em espíritos e almas. O que existe de subjetivo e o que chamamos de alma é produto de processos físico-químicos dependentes, portanto, da matéria de que somos constituídos. Daí o rótulo de materialistas que se dá a quem pensa assim.  

Lamentavelmente, algumas pessoas (às vezes maldosamente) tratam de materialistas aqueles que gostam das coisas materiais e desprezam as coisas do “espírito”. As religiões não têm o monopólio do campo “espiritual”, como entendo, nem tampouco da moral, da ética e do bem. A matéria, no meu entender, inclui também energia e “ondas” devidamente explicáveis ou a serem explicadas pela física ou mesmo pela fisiologia, na minha precária e leiga visão. Talvez muito mais coisa, se sairmos dos limites da física newtoniana e nos adentrarmos no campo da física quântica e cósmica. A religião, na tentativa de explicar, preenche o campo do desconhecido sem evidências científicas, na base de especulações fortemente enviesadas.   

            Uma leitura da tetralogia de Thomas Mann (“José e Seus Irmãos”) me deu plena consciência do nascimento do monoteísmo, de onde se originaram as religiões reveladas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Foi uma sacada esperta do legendário Abraão, a de que existe outro deus acima dos deuses que os povos de então adoravam, maior que os astros, do que as estrelas, dos deuses que simbolizavam os sentimentos e as atividades humanas, enfim, os deuses chamados profanos. Abraão inventou o deus dos deuses. O autor transmitiu o momento exato dessa novidade que marca o início da civilização mais recente da história da humanidade, lamentavelmente vivida carregando o fardo pesado da religião que, no correr dos séculos, se tornou um pouco mais leve. 

            Quanto às religiões, insurgi-me contra todas elas pelas coisas fantásticas, superstições e mentiras que nos infligem à custa de manter o poder conquistado e a legião de seus seguidores. A educação religiosa me foi perniciosa e é perniciosa para quem a segue sem espírito crítico.  

            Por outro lado, historicamente, temos a lamentar as Cruzadas, os conquistadores de novas terras e seus acólitos missionários, a Inquisição, a destruição das Torres Gêmeas, todas as guerras santas, as atuais invasões do Afeganistão (o fanatismo talibã) e do Iraque, os massacres de curdos e xiitas neste último país, as guerras entre facções cristãs na Irlanda do Norte, as guerras entre judeus e árabes, de fundo religioso, enfim, as religiões, seus líderes e seguidores tão belicosos e cruéis. Seus ensinamentos e dogmas são obscurantismos do mais refinado teor.

            Ainda historicamente, a minha ex-religião, católica, apostólica e “romana” é assim chamada porque foi adotada pelo império romano e não, como me engabelaram os padres e catequistas quando criança, que aquele apêndice ali estava pelo fato de Roma ser a sede da Igreja. O imperador romano Constantino, responsável por vários assassinatos, inclusive de alguns parentes, foi quem introduziu o cristianismo como religião oficial de um império em decadência e, por isso, foi canonizado e hoje goza das glórias dos altares do catolicismo: São Constantino! 

            Nesse andar da carruagem, pelas coincidências históricas, o Presidente Bush corre o risco de ser canonizado futuramente. Não posso concordar com o atual fundamentalismo cristão, islâmico ou judeu, terroristas oficiais ou oficiosos, que infernizam o mundo atual. Fora outros tipos de fanatismo religioso que pouco conheço.           

            No caso brasileiro, uma coisa que me deixa pasmado é o fato de vivermos numa nação laica e usarmos tanto (“em vão”) o nome de Deus e os símbolos do catolicismo em coisas e lugares públicos. Por exemplo: nas cédulas de nosso dinheiro existe o lema “Deus Seja Louvado”; nossa Constituição começa invocando a proteção de Deus; nossos espaços governamentais (Tribunais, Parlamentos, Repartições, Gabinetes e prédios públicos) usam símbolos católicos que não representam sequer a totalidade dos cristãos, muito menos outras confissões religiosas. Principalmente crucifixos, a maioria com a imagem da mórbida execução de Jesus Cristo.  

Trata-se, em suma, de uma falta de respeito à liberdade religiosa que a própria Constituição prescreve. E, nessa, como ficam os ateus, que também “são filhos de Deus”? Já basta a inflação de expressões e exclamações como essa, cheia de conotações religiosas, contaminando o linguajar coloquial, que usamos todos os “santos” dias, escapulindo aos mais empedernidos ateus. 

            Para finalizar, uma seleção dos versos alvissareiros de John Lennon, na famosa canção “Imagine”:     

Imagine there’s no heaven.

No hell below us.

And no religion too.

You may say I’m a dreamer,

But I’m not the only one.

I hope someday you’ll join us.

 

            Sim, se pode. Não dói.

 

           

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Vila Acre, Rio Branco (AC)

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

                       

 

 

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