Jornalego

 

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No 145: Cerimônia do Adeus
No 144: Ode ao Sono
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No 138: Pavana para um irmão
No 137: Anorexia Eleitoral
No 136: O Mundo é um Moinho
No 135: Habitantes de Bagdá
No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
No 130: Vovó Maluca
No 129: De Causar Espécie
No 128: Lula vai Raspar a Barba
No 127: O Pregoeiro de Itapoã
No 126: A República dos Sonhos
No 125: O’
No 124: Rio de Fevereiro
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No 64: Belo Horizonte
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No 60: O Sul do Mundo
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No 58: O Capelão do Diabo
No 57: Um Ano-Lula
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No 51: O Terrorista de Itapoã
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JORNALEGO

ANO VI - Nº. 164, em 10 de julho de 2007

 

Miscelânea  

COLCHA DE RETALHOS

 

Com esse título meio batido, vou compor um mosaico com textos começados, não desenvolvidos e, portanto, não concluídos. São números natimortos do Jornalego, projetos não terminados. O que se encontra entre parênteses são comentários atuais sobre o que escrevi anteriormente. 

O ALEATÓRIO E O EFÊMERO (à guisa de epígrafe para o que se segue).

A vida é aleatória e efêmera. Aleatória a partir da sua concepção. Uma imensidão de possibilidades existem para gerar um ser, com as suas peculiaridades e características. O processo da vida também é aleatório: quantos acidentes e incidentes podem modificá-lo ou mesmo encerrá-lo? 

(É o que se passa também quando se pretende fazer literatura, como testemunha este número do Jornalego). 

A ÁGORA DE AGORA 

O capitalismo e seus tentáculos modernos – a globalização, o marketing, o consumismo – são os carrascos da democracia. 

* ambientalista se imola tocando fogo às vestes contra usina de álcool em Mato Grosso do Sul;

* padre faz greve de fome contra a transposição das águas do rio São Francisco;

* jovens queimam carros na periferia de Paris;

* as invasões dos Movimentos dos Sem-Terra e dos Sem-Teto;

* interdições de rodovias;

* terrorismo em geral: Torres Gêmeas em Nova Iorque, ônibus e metrô em Londres, trem em Madrid, hotel em Amam, boate na Indonésia;

* professor dá bengalada em José Dirceu.

* pressões pela Internet. 

O não comparecimento às eleições é cada vez maior, dado que não é obrigatório em muitos paises. Mais ou menos a metade dos eleitores americanos não foi às urnas na última eleição para presidente. Dos que foram, pouco mais da metade votou em Bush.

(A idéia a ser desenvolvida, neste caso, era mostrar a falência da democracia representativa. As reivindicações se fazem de outro modo e não somente pela eleição de políticos como representantes do povo). 

DOMINGO DE VERÃO 

Meio-dia. O Sol caustica lá fora. Minha pele alva e velha e minha calva, não o suportam. A água fria da praia também não suporto. A mistura de sal e sol provoca uma urticária brava nas minhas pernas e nos meus braços. Comida em casa não há, tenho que ir à luta nos restaurantes lotados. Férias! Cinema não há. Já fui a todos os filmes em cartaz. Os shoppings, onde está a maioria das salas de projeção, estão cheios de jovens espaçosos, gargalhantes e barulhentos. Os programas da TV são umas merdas. Mas merda mesmo é o corretor de texto do meu micro. Ele, pudico, não aceita a palavra merda nem o comando para ignorar ou adicionar merda ao seu dicionário. Merda! Nos noticiários, notícias plantadas para encher pautas jornalísticas. Na televisão e nos jornais. Principalmente nesses jornais provincianos de minha terra. De cerveja, vinho, uísque, de que gosto tanto e me estão disponíveis, devo me abster.  Diabetes. Além do mais, álcool, frutos do mar e pimenta provocaram o aparecimento de uma infecção epidérmica chamada desidrose. Ainda bem que foi só um ponto no delo anular da mão direita. Cansei-me do livro que estou lendo. É um livro grosso que conta histórias dos primórdios da humanidade. Não tenho sono, faz pouco que acabei de acordar. Minha saúde, considerando a idade, é relativamente boa. As anormalidades foram acertadas ou estão sendo mantidas sob controle. Por mérito da medicina, devo viver muito ainda. Assim espero. 

Depois do domingo vem segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e outro domingo. 

Quando o verão terminar, vem o outono, o inverno, a primavera e outro verão. 

“Só a imaginação vence o cansaço de viver.” 

Morrer é bom! Porque morrer é um evento pontual. Pimba: morreu. A merda deve ser a agonia de morrer. Quanto a viver, é um processo que às vezes cansa. Às vezes, é uma agonia. 

AS VÍSCERAS EXPOSTAS DAS TREVAS 

Feudalismo, mercantilismo, revolução industrial. Colonialismo, neocolonialismo e colonialismo global. 

O avanço da tecnologia, a gênese da informática, tudo moldava o surgimento de um século esplendoroso. 

O genocídio dos gentios. A escravidão morreu sem dar à luz a liberdade do escravo.

Assim chegaram e se passaram os anos do século XX da era cristã! 

O socialismo nascente empolgou corações e mentes. Deu apoio às lutas de emancipação nacional sem viabilizar os países infantes. Em seu berço instituiu novas formas de violência. Enquanto durou foi um contraponto a uma única hegemonia mundial, ajudou a nos salvar do nazifascismo, embora passássemos a viver num tênue equilíbrio da força, cuja confrontação poderia nos liquidar a todos.          

O "pequeno século" (1914-1989), segundo Hobsbawn, foi realmente exuberante: duas guerras mundiais. Foram sacrificados aproximadamente duzentos milhões de pessoas em confrontações dessa ordem e revoluções ao redor do mundo. 

Ave argentum, morituri te salutant. 

Referências: 

Coração das Trevas (1899), Novela de Joseph Conrad.

Apocalypse Now (1979), Filme de Francis Ford Coppola, com Marlon Brando, Martin Sheen e Robert Duvall.

Quanto Vale ou é por Quilo? (2005) Filme brasileiro de Sérgio Bianchi, com Lázaro Ramos.

Êxodos (Vitória-ES, Setembro/2005), Exposição fotográfica de Sebastião Salgado. 

OFICINA DA MORTE 

Como será que morrerei? Acidentado, de câncer, sofrendo de mal de Alzheimer ou de Parkinson, velhinho gagá e esclerosado ou de um benevolente infarto, preferencialmente aquele noturno. Quando se desperta morto (!). 

Depois de certa idade as expectativas se voltam para o fim. “Esperando sem esperanças” [Guimarães Rosa]. 

(Aqui eu queria desenvolver a idéia da possibilidade da existência de oficinas da morte, onde, se alguém quisesse dar fim à própria vida, poderia se internar e morrer placidamente, muito bem assistido pela medicina moderna.) 

TEMPO 

Eu acreditava que a infância e a juventude fossem fases preparativas para a maturidade. Já a velhice seria a decadência da vida. Assim eu não via presente nas duas fases iniciais, elas seriam voltadas para o futuro. Só a maturidade seria plena de presente. A velhice estaria povoada de passado. 

Essa visão, como se sabe, está errada, além de ser extremamente pobre, ao atribuir somente à maturidade a plenitude do presente. Só a maturidade teria sentido em si própria. As outras fases da vida estariam voltadas de uma ou outra maneira para ela.

Todas as fases são prenhes de presente. 

A infância não tem passado, tem presente e futuro. 

A juventude tem um pequeno passado, presente e futuro. 

A maturidade tem um grande passado que, inclusive, a forma. Tem presente e futuro. 

A velhice tem enorme passado e presente. Seu futuro é nada, salvo especulações metafísicas. 

A realidade (?) da vida é o presente. O passado é memória. O futuro previsão. 

Embora o presente seja nada diante da eternidade. Uma grande ilusão. Assim como o tempo da vida é nada. 

 

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES)

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

 

 

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